Jorge Bento em 2025-9-17
Durante décadas, a Intel foi o coração de Silicon Valley e motor da revolução do PC. Hoje, em 2025, a sua história é menos sobre gigahertz e mais sobre geopolítica, soberania industrial e poder
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A Intel não é apenas uma empresa de semicondutores: tornou-se peça central num tabuleiro que envolve Washington, Pequim, Wall Street e a corrida global pela Inteligência Artificial (IA). A glória e a quedaNos anos 80 e 90, poucos nomes tiveram tanto peso na revolução digital como a Intel. O selo “Intel Inside” era garantia de inovação, e a Lei de Moore parecia escrita na pedra. Mas a partir da década de 2010, a engrenagem começou a falhar: atrasos nos 10nm e 7nm abriram espaço à AMD, que renasceu com a arquitetura Zen e conquistou data centers. Enquanto isso, a dependência da TSMC tornava-se óbvia: eram as foundries asiáticas que ditavam o ritmo da inovação. 2025: o campo de batalha da IAHoje, a inteligência artificial é o palco decisivo. A NVIDIA reina absoluta em GPU e aceleradores, ditando preços e margens obscenas. A AMD reforçou a sua posição como segunda força, com os Instinct a disputar quota em HPC e IA. A Intel tenta regressar ao jogo: o Gaudi 3, lançado em 2024, conquistou alguns contratos relevantes, mas ainda está longe de ameaçar a NVIDIA. O projeto Falcon Shores, pensado para unir a herança dos CPU à aceleração de IA, continua em desenvolvimento. A pressão não vem só dos rivais clássicos. Os hyperscalers Amazon, Google e Microsoft produzem cada vez mais chips proprietários. O espaço que sobra para a Intel é apertado, e a empresa precisa desesperadamente de uma narrativa vencedora. Uma questão MAGASe no plano tecnológico a Intel perdeu terreno, no plano político tornou-se indispensável. O risco de instabilidade em Taiwan, onde a TSMC controla a esmagadora maioria da produção mundial de chips avançados, transformou a Intel no maior ativo de fabrico de lógica avançada em solo norte-americano. O CHIPS and Science Act já canalizou milhares de milhões de dólares para apoiar novas fábricas no Ohio, Arizona e Novo México. Em agosto de 2025, a Intel recebeu mais 5,7 mil milhões de dólares de financiamento, dentro de um acordo que poderá dar ao Estado norte-americano até 10% do capital da empresa. O Departamento de Defesa reservou contratos estratégicos. Hoje, falar de Intel é falar de soberania tecnológica dos EUA. De Gelsinger a Lip-Bu Tan: Uma sucessão explosivaDurante quatro anos, Pat Gelsinger tentou liderar o renascimento com a estratégia IDM 2.0, apostando em fábricas de última geração e no modelo de foundry. Mas os resultados não apareceram: 2024 fechou com um prejuízo de 1,6 mil milhões de dólares, equivalente a 3% do volume de vendas. Em março de 2025, o board fez uma jogada inesperada: nomeou Lip-Bu Tan como novo CEO. Tan não é um desconhecido. Nascido na Malásia, de ascendência chinesa, construiu nos EUA um percurso notável. A sua chegada à Intel foi lida como pragmática: um líder capaz de abrir portas, atrair clientes fabless e consolidar a Intel como alternativa credível à TSMC. O mercado reagiu com entusiasmo imediato: as ações subiram até 12% após o anúncio da sua nomeação. Mas o otimismo durou pouco. Em julho, a Intel revelou um prejuízo de 2,9 mil milhões de dólares no segundo trimestre, acima do esperado, e as ações caíram quase 10%. E se Wall Street oscilava, em Washington a polémica foi ainda maior. Donald Trump exigiu a demissão imediata de Tan, acusando-o de ligações ao exército chinês. A controvérsia agravou-se quando veio a público que a Cadence, durante a liderança de Tan, tinha chegado a acordo judicial de 140 milhões de dólares por exportações ilegais a instituições militares chinesas entre 2015 e 2021. Para alguns políticos, o episódio tornou-se símbolo da luta pela soberania tecnológica. Trump voltou a defender que o Estado deveria assumir participação direta na Intel. Em contrapartida, grandes investidores como Scott Bessent e Howard Lutnick defenderam Tan, lembrando que a politização excessiva só enfraquece os EUA frente à China e à NVIDIA. O cerco chinês e a ascensão da HuaweiEnquanto isso, e depois de quase excluída por Washington, é a China a fechar o mercado às tecnologias ocidentais e a acelerar o apoio aos seus campeões nacionais. A Huawei, dada como derrotada há poucos anos, regressou em força com smartphones e servidores baseados em chips da SMIC. No mercado interno, reconquistou quota significativa, tornando-se símbolo de resiliência face às sanções. Para a Intel, esta realidade duplica a pressão: não basta competir com NVIDIA e AMD em IA. O gigante desapareceu em grande parte do mercado chinês e precisa de provar que os EUA não ficam para trás num duelo estratégico com Pequim. IDM 2.0 e a sobrevivência em jogoO plano de Gelsinger continua na mesa, agora nas mãos de Lip-Bu Tan. Mas com mudanças: a Intel cortou 15% da sua força de trabalho, cerca de 24 mil postos de trabalho, e cancelou planos de fábricas na Alemanha e Polónia, além de desacelerar a mega-fábrica do Ohio. A aposta mantém-se nos nós de 2,0 nm (20A) e 1,8 nm (18A), mas o 14A poderá ser abandonado se não houver procura suficiente. As margens do modelo de foundry são mais curtas do que as do negócio histórico da Intel, mas a recompensa é clara: tornar-se a alternativa ocidental à TSMC. Na frente da IA, a empresa aposta em diferenciar-se: em vez de copiar a NVIDIA, oferece aceleradores com foco em eficiência de custos, destinados a clientes que não querem ficar reféns de um único fornecedor. É uma jogada ousada, mas ainda em construção Caminhos possíveisO futuro da Intel joga-se em múltiplas frentes. Se Lip-Bu Tan conseguir executar o roadmap tecnológico e, ao mesmo tempo, navegar a tempestade política em Washington, a Intel poderá regressar ao topo como a foundry do Ocidente. Se falhar, arrisca-se a tornar-se irrelevante na corrida da inteligência artificial e refém de disputas políticas. Uma coisa é certa: a Intel já não é apenas uma empresa de semicondutores. É palco de um drama que mistura inovação, soberania tecnológica, política e rivalidades globais. E como em toda saga, o próximo capítulo promete ainda mais tensão. |