Jorge Bento e Rui Damião em 2021-6-15

ENTREVISTA

Tem A Palavra

“Temos de estar ao lado dos clientes, entender as suas necessidades e desafios”

Este mês, o IT Channel dá a palavra a Jorge Queiroz Machado, CEO da CPCEcho, empresa que absorveu as áreas de negócio tradicionais da SVDI, nomeadamente comunicações unificadas, segurança e networking

Jorge Queiroz Machado, CEO da CPCEcho

Como é que vê o atual mercado de tecnologias de informação e como é que difere do mercado que conheceu anteriormente noutros projetos?

Acho que a componente digital hoje não é algo acessório às empresas; é parte fundamental das estratégias de gestão de qualquer organização.

O que é que é diferente do passado: qualquer cliente sabe muito bem o que quer. Os clientes dominam a tecnologia e as soluções tecnológicas, às vezes melhores do que nós mesmos; estamos sempre a aprender com os nossos clientes. Longe vão os tempos em que éramos nós que ensinávamos muito aos clientes. As empresas de alguma dimensão têm CIO, diretores de informática no seu verdadeiro termo e descrição, que conhecem bem e sabem o impacto que isso tem na gestão da empresa. O que é diferente hoje é que nós não podemos ser meros revendedores ou despachar soluções que achamos que são boas; temos de estar ao lado dos clientes, entender as suas necessidades e os desafios.

Algo que definimos na CPCEcho é que não podemos perder a disponibilidade para estar juntos dos clientes, independentemente dos rácios de rentabilidade; acreditamos que é uma consequência e não uma prioridade. Acho que estamos num momento que, obviamente, tem os seus riscos e o mercado acho que ainda vai ter algum reflexo negativo nos próximos tempos, mas estamos num bom momento para poder ajudar as empresas a superar os seus desafios.

2021 marca o ano de nascimento da CPCEcho. Quais são as principais áreas de negócio onde atuam?

Tentamos responder a todas as necessidades de IT do mercado, dos nossos clientes. Nós queremos evitar a armadilha – e é uma armadilha bem portuguesa – de querer fazer tudo; somos bons em muitas coisas, em várias áreas, e temos competência onde realmente somos diferenciadores e queremos desenvolvê-las e ampliá-las. Queremos ter Parceiros para as competências onde existem Parceiros que fazem as coisas melhores do que nós. É um modelo que, às vezes, em Portugal não funciona bem porque as pessoas não gostam tanto de cooperar, mas, na experiência que tenho tido, é isso que assegura as melhores soluções e a melhor experiência às necessidades do mercado e dos nossos clientes. Nós temos cinco pilares. Temos hybrid IT, que se explica a si próprio; temos modern workplace; temos digital security – e aqui, e é de propósito, não é cybersecurity; tem cybersecurity, mas a parte de segurança é muito abrangente e deve ser vista dessa forma –; temos os Echo Services, desde os professional services aos serviços geridos que depois suportam toda a parte da solução; e, depois, temos a parte de enterprise apps, mais de Parceiros nossos, mas que colam muito bem com o resto da solução.

Um dos mercados onde atuam são as comunicações unificadas. O que é que o mercado português mais procura?

As comunicações unificadas são uma área dentro de modern workplace e tem mesmo muito a ver com a parte do workplace. Hoje vivemos um desafio enorme, que é o trabalho remoto, as pessoas estarem deslocalizadas, poderem trabalhar em qualquer lugar, a qualquer altura, e, aqui, as comunicações unificadas desempenham um papel fundamental. Deixam de ser a comunicação unificada só dentro do escritório e temos um ambiente que se estende muito além dos escritórios; vai a casa dos colaboradores e implica desafios de gestão de comunicações e de segurança, que é fundamental para assegurar esta fluidez e a extensão deste perímetro.

Neste momento, o mercado português ainda procura soluções de trabalho híbrido ou agora procura melhorar a implementação dessas soluções?

Apesar de as pessoas voltarem ao escritório, nada será como antes. Vai ser muito mais fácil contratar. Vamos ter pessoas a trabalhar, se calhar, da Covilhã – já não digo até fora do país. As pessoas vão ter uma maior liberdade de movimentação, até para ter um melhor work-life balance e uma adaptação do seu estilo de trabalho que eu acho que terá um efeito na produtividade.

Para isto, obviamente, são precisas coisas simples como as pessoas deixarem de ter desktops e terem notebooks – que já é uma realidade –, mas é sobretudo as ferramentas de colaboração e torná-las imersivas e, diria, quase como parte do que a pessoa faz no dia a dia. Hoje fazem-se coisas fantásticas, mas qualquer um de nós tem experiência de, muitas vezes, ter dificuldade em conectar ou utilizar uma determinada funcionalidade até porque a evolução é constante e dinâmica.

Os decisores portugueses estão preparados para a realidade em que os colaboradores não estão tão presentes no escritório e, se calhar, vivem a centenas de quilómetros do escritório da empresa?

Depende muito da indústria. Na parte fabril será muito difícil uma vez que as pessoas têm de estar no local.

Acho que não é uma questão de estarem preparados ou não; é uma questão de inevitabilidade e de terem de estar preparados. Obviamente, cada empresa vai gerir de maneira diferente. Isto não é só as ferramentas, é mais as empresas estarem organizadas, estruturadas e terem processos e metodologias que permitam as pessoas colaborar, mesmo sem as ferramentas.

Para empresas que vivem numa base mais informal – e acontece muito em Portugal – é muito difícil ter uma interação remota e uma produtividade remota. Já para empresas que têm processos, sistemas de qualidade em que os colaboradores sabem quais são os workflows dentro da empresa, é muito mais fácil ter reuniões, é fácil estar fora da empresa, é fácil qualquer pessoa presente ou remota perceber como é que a empresa funciona. Acho que tem muito a ver com a parte da organização da estrutura da empresa; depois, obviamente, é fundamental ter as ferramentas, as comunicações e, muito importante, e acho que por vezes não é prioritário, a segurança porque o perímetro não é o perímetro da empresa; o perímetro agora é o mundo e os riscos das vulnerabilidades são brutais.

Porque é que em Portugal os Parceiros trabalham tão pouco uns com os outros, porque é que não cooperam entre si?

Vou começar por dizer – e obviamente que digo isto, mas já o fiz no passado e não garanto que não faça no futuro – que está um bocado embebido na forma cultural que nós temos. Acho que se perde imenso com isto. Acho que a empresa portuguesa quer ter tudo e dominar tudo e às vezes o ter tudo é ter até soluções, mas também desenvolver coisas internamente, como ferramentas. Muitas empresas agora têm ferramentas próprias de software, porque acham que se puserem uma coisa que é parecida com outra empresa, vão perder.

Há uma relação com a concorrência muito saudável; não é com toda e não é entre todos, mas geralmente são os mesmos. É muito saudável e as pessoas, sempre que falam umas com as outras, independentemente de estarmos num mercado extremamente reduzido, conseguem sempre espaço para colaborar e se respeitarem umas às outras. Estamos a contactar empresas concorrentes, que também serão nossas concorrentes em algumas áreas, mas, junto do cliente, o valor acrescentado e as sinergias serão brutais. Isso vale muito mais do que ficarmos um bocado mais presos numa oportunidade ou outra e permite-nos focar, ser mais eficientes, e isso traduz-se em qualidade e, mais tarde, em rentabilidade para o nosso lado.

Há muita coisa que se consegue rapidamente ter a partir de uma relação de Parceria e ajustar-se. Acho que toda a gente ganha; primeiro o cliente porque tem a melhor solução, e ganhamos nós porque temos foco – focamo-nos no que somos bons. Depois, mais tarde, tem impacto na qualidade, tem impacto nas pessoas e tem impacto na rentabilidade. Tem de haver confiança entre as pessoas e acho que é possível.

O que espera para o resto do ano de 2021 e para o próximo ano de 2022?

A nível da CPCEcho, obviamente este ano é um ano de investimento. Estivemos focados em aumentar a equipa, em rever metodologias e processos para garantir o crescimento da empresa e a qualidade do que fazemos. Revisitámos todo o portfólio e isso implica, também, capacitar as nossas pessoas em termos de competências e certificação. Nós estamos quase em modo de startup, por isso diria que uma ambição para este ano é crescer de 30 a 50% da equipa, ter os processos, metodologias e portfólio completamente estabilizados e as certificações, duplicar revenue e rentabilidade, mas mais uma vez repito porque isto é uma armadilha difícil de se evitar: isto tem que ser uma consequência e não uma prioridade.

Para 2022, com maturidade, disponibilidade e com uma equipa mais abrangente, há algo que também temos na nossa missão, que é parte da sustentabilidade e a parte social. Sustentabilidade não só na forma como agimos, mas também efetivamente em criar serviços na área tecnológica, porque há poucos para os nossos clientes e para os ajudar, porque hoje já não é só uma obrigação e começa a ser uma necessidade até de certificação.

Estou um bocado apreensivo com o mercado. Parece que estamos todos muito bem, porque o dinheiro entre a todos. Acho que há aqui uma oportunidade fantástica que é a questão da bazuca que se fala. Estou a vê-la muito direcionada ao Estado e a ficar pouco para as empresas; mesmo assim acho que dará aqui um boost à economia e será de aproveitar.

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