Inês Garcia Martins em 2025-6-18

CHANNEL ON

“Se colocamos a IA como core das organizações, temos de a governar – e isso é um fator diferenciador dos líderes” (com vídeo)

Quando todos têm acesso à mesma tecnologia, o que distingue uns dos outros? A questão esteve no centro do debate promovido pelo Channel On, que reuniu representantes da Devoteam, InnoWave e Xpand IT para discutir o papel da Inteligência Artificial no futuro do Canal. Para os oradores, a IA pode ser o ponto de partida para a diferenciação – e só quem souber integrá-la com ética, estratégia e alinhamento ao negócio conseguirá destacar-se

“Se colocamos a IA como core das organizações, temos de a governar – e isso é um fator diferenciador dos líderes” (com vídeo)

A mesa-redonda “AI & Data-Driven Business: Como os Parceiros Podem Capitalizar?” contou com participantes da Devoteam, InnoWave e Xpand IT

No ecossistema tecnológico, há temas que se impõem de forma natural pela sua relevância e impacto. A Inteligência Artificial (IA) é, atualmente, um dos mais incontornáveis. Como tal, a mesa- -redonda “AI & Data-Driven Business: Como os Parceiros Podem Capitalizar?”, integrada na terceira edição do Channel On – o encontro anual de Parceiros promovido pelo IT Channel –, não fugiu à regra e trouxe para o centro do debate um tema que está a moldar o futuro do Canal.

Aquilo que muitos ainda encaram com prudência, outros já aplicam com estratégia. E quase todos reconhecem: a IA deixou de ser apenas uma ferramenta de apoio para se tornar um critério de sobrevivência. No Canal, onde a pressão para inovar e diferenciar nunca foi tão intensa, este novo paradigma exige uma transformação estrutural e urgente, que deve começar dentro das próprias organizações e estender-se aos modelos de relacionamento com os clientes.

O painel contou com três vozes experientes: Pedro Martins, Executive Director & Head of Data & AI da Devoteam; Gabriele Rachello, CTO da InnoWave; e Sérgio Viana, Managing Partner da Xpand IT. A discussão partiu de um ponto comum: a IA está a transformar os alicerces tecnológicos e organizacionais, exigindo do Canal uma resposta rápida e eficaz para não ficar para trás.

Do fornecedor ao Parceiro estratégico: o novo desafio do Canal

“O nível de transformação que estamos a viver é brutal”, começou por afirmar Sérgio Viana, tendo também sublinhado que, embora a IA não seja propriamente uma novidade, a velocidade e profundidade da sua adoção são sem precedentes. Para o especialista, o foco não deve estar apenas nas ferramentas ou nos algoritmos, mas sim na base tecnológica, uma vez que “se esquecermos a IA e falarmos em modernização aplicacional, é um tema pouco sexy, mas é a base para tudo o que queremos construir agora”.

A mensagem é clara: sem uma infraestrutura adequada, sem uma abordagem orientada aos dados e sem uma arquitetura moderna, é impossível tirar partido da IA com eficiência. “Há uma série de outros pilares que, se calhar, já falamos há muitos anos e que estão no título desta sessão, como o tema dos dados e o da modernização, que ganharam uma nova força”, reforçou, acrescentando que “não podemos construir a casa pelo telhado”.

Este movimento obriga o Canal a assumir um novo papel: não apenas o de fornecedor de tecnologia, mas o de Parceiro estratégico que guia os clientes na jornada de modernização. Mais do que isso, exige das próprias empresas do Canal que sejam exemplo daquilo que propõem ao mercado. O especialista considera, por isso, que “temos de continuar, enquanto Parceiros, a ter esta camada que constrói em cima das nossas competências humanas”.

Competitividade na era da IA

Pedro Martins foi assertivo quanto à mudança que se aproxima, considerando que “daqui a dois, três anos, os modelos de negócio das empresas vão alterar radicalmente”. A previsão não é apenas baseada em tendências tecnológicas, mas numa leitura concreta do que já está a acontecer em vários setores. A IA está a alterar os processos internos, os pontos de contacto com os clientes, bem como as estruturas organizacionais.

Num cenário em que a IA se torna acessível a todos, deixa de ser vantagem competitiva por si só. O verdadeiro diferencial passa a ser a capacidade de aplicar a IA de forma contextualizada, alinhada com os desafios e objetivos específicos de cada cliente. “O mundo esteve anos a olhar para o tamanho dos modelos, os LLM, os agentes. Mas o que aí vem é a IA aplicada à ciência, à indústria, à medicina – o AI for Science”, sublinhou.

O que ref lete, por sua vez, a evolução do papel que o Canal deve ter de revendedor para cocriador de soluções. A Devoteam, por exemplo, já implementa internamente mecanismos de autoavaliação do impacto da IA, tal como explicou o orador: “lançámos internamente o conceito de job at risk, para perceber que percentagem de cada função pode ser automatizada por IA”, revelou Pedro Martins.

Governança e conhecimento do cliente como o verdadeiro diferencial

Gabriele Rachello trouxe para a conversa uma dimensão tão crítica quanto tecnológica: a necessidade de alinhamento entre IA, estratégia de negócio e valores organizacionais. “Temos de adaptar as organizações e os modelos àquilo que é AI-Driven. Isso passa por colocar a IA no centro, como parte da estratégia de negócio”, defendeu.

O CTO da InnoWave sublinhou que, no centro desta transformação digital, estão as pessoas – especialmente os líderes tecnológicos, que têm a responsabilidade de “viver o futuro” e “compreender as movimentações da indústria”. Realçou ainda a importância de equipas de qualidade bem preparadas e capacitadas, uma vez que são estas que asseguram uma adoção segura e eficaz das novas ferramentas. Para o orador, a capacitação deve estender-se a todos os perfis técnicos – engenheiros de IA, developers, designers e testers – já que “neste momento, tudo é AI-driven, tudo tem a capacidade de integrar inteligência artificial, tornando-nos verdadeiramente super-humanos”. E, acima de tudo, reforçou: “temos de ser Human-centric AI”.

Assim, integrar IA não significa apenas adotar novas ferramentas, uma vez que implica criar cultura, definir regras e responsabilizar as decisões automatizadas. “Saber governar, saber aplicar a IA de forma ética e transparente, é um fator diferenciador dos líderes”, destacou, acrescentando que a crescente pressão regulatória, visível no AI Act, está a obrigar as empresas a tratar a IA com o mesmo rigor que tratam a segurança da informação ou a proteção de dados.

Diante de tanta evolução, o que importa perceber é “como é que nos diferenciamos quando todos têm acesso à mesma tecnologia, aos mesmos modelos de IA?”. A resposta de Sérgio Viana foi pragmática: “temos de construir sobre tudo isto e ajustar a forma como servimos os clientes, procurando manter-nos minimamente à frente do que está para vir, tirando partido da grande vantagem que ainda temos: as competências que temos”, acrescenta ainda que “A humanidade tem vários exemplos de momentos em que soube reinventar-se e construir sobre aquilo que a evolução e a tecnologia nos dá”.

Nos principais use cases na banca, que já estão bem definidos, “começamos a ver áreas específicas onde a IA pode substituir quase 70% dos processos e aumentar os níveis de eficiência três a quatro vezes em relação ao que temos hoje. Utilizar tecnologia para transformar estes processos é o tipo de trabalho que vai ser necessário para apoiarmos os nossos clientes – e é aí que nos diferenciamos”, exemplificou Pedro Martins através de dados. Aqui, novamente, o Canal tem uma oportunidade única de ser o elo entre o potencial tecnológico e a sua implementação responsável.

O próximo desafio do Canal

Pedro Martins deixou uma reflexão sobre o verdadeiro impacto da inteligência artificial na estrutura do trabalho. “Quando incorporar esse valor através da IA, toda a matemática de como é que um humano adiciona valor numa cadeia de valor vai alterar”. O orador alertou que a próxima grande mudança – a “Physical AI” – já se aproxima, com aplicações robóticas previstas para os próximos cinco a dez anos, com “pessoas a trabalhar na agricultura, nas obras, nas fábricas” a serem substituídos por robôs.

“É uma altura espetacular para se viver. Acho que quem não estiver ciente dos impactos e não perceber desde já qual vai ser o cenário do futuro, dificilmente vai sobreviver nos próximos cinco anos”, concluiu.

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