2026-6-18

CHANNEL ON

Tem A Palavra

“Faltam ainda em Portugal grandes zonas de disponibilidade de cloud”

Três anos após a sua fundação, a PortugalDC afirma-se como uma das principais vozes do ecossistema nacional de data centers. Entrevistado no palco do Channel On, Filipe Barreiro, Founder e Board Member da PortugalDC, analisa as tendências que estão a redefinir a indústria dos data centers em Portugal, sobretudo numa nova era marcada pelo ritmo da IA

“Faltam ainda em Portugal grandes zonas de disponibilidade de cloud”

A PortugalDC, da qual o IT Channel faz parte, completou três anos. Como é que tem visto a evolução da associação?

A PortugalDC é, de facto, uma associação recente, com cerca de três anos, mas que já tem uma tração muito elevada devido aos projetos que estão a acontecer no país. Neste momento contamos com 172 membros, o que significa que há mais do que um membro por semana a juntar-se à PortugalDC.

Considerámos que havia um espaço que não estava a ser preenchido por outras associações, nomeadamente na área real dos centros de dados, numa layer de infraestrutura.

O crescimento do data center tem estado, sobretudo nos últimos dois/três anos, muito assente nos chamados ‘projetos galácicos’ e naquele que é o negócio do colocation, com novos centros de dados de grande escala em Portugal. No entanto, o data center empresarial continua a resistir à oferta de cloud pública. Qual a sua visão sobre estes dois universos que acabam por estar um pouco separados?

Eles complementam-se, de certa forma. Quando olhamos para estes projetos, o que nós vemos é uma estimativa de megawatts que vão ser instalados, e esta acaba por ser a primeira chamada de atenção para as potências que estão a ser instaladas. Os centros de colocation também são cada vez mais uma atração, com novos players a entrar no mercado nacional: temos a Digital Realty, que vai entrar, a Atlas Edge, e temos vários outros Parceiros, mas existe a camada empresarial que é, de facto, aquela que emprega o grosso do setor.

Um estudo da Agência Internacional de Energia refere que cerca de metade da potência instalada no mundo inteiro (não em Portugal), é de data center enterprise, e o restante é o mesmo valor entre enterprise e hyperscalers. Existe, por isso, um mercado que vai continuar a crescer, eventualmente até com a questão da soberania de dados, que vai dar aqui um boost.

Tipicamente, tínhamos o equivalente a duas classes profissionais que eram necessárias: quem estava mais ligado a infraestrutura e depois as pessoas que têm a ver com o IT…

Historicamente foi sempre assim, mas, na realidade, se olharmos para um rack de Inteligência Artificial [IA] e os últimos modelos, o que acontece é que temos um rack que tem tanto a parte de comunicação, a parte de infraestrutura, mas também a de climatização. Ou seja, neste momento há uma capacitação e uma convergência entre dois polos que antigamente eram tratados de forma distinta. Hoje, um técnico de IT também tem de ter conhecimentos desta parte de climatização.

Houve aqui uma alteração, por isso temos vindo também a trabalhar nessa área, de requalificação, daquelas que eram as pessoas mais dedicadas ao IT, mas também numa área de capacidade. Tem de haver aqui uma convergência entre os dois para passar a ser um só.

Ainda assim, as nossas previsões para 2030 apontam para que a indústria empregue cerca de nove mil pessoas, mas temos de ter este boost de requalificação. Trabalhamos tanto com universidades como com escolas profissionais para que Portugal tenha essa capacidade porque, de outra forma, não vamos conseguir responder e vamos continuar a trazer talento de fora quando queremos mostrar que temos as qualificações.

Como é que a Academia tem correspondido a esse desafio?

Estamos a trabalhar com a Escola do Litoral Alentejano e temos cada vez mais técnicos a serem formados e a fazerem estágios profissionais. Ou seja, já existe um forte empenho com escolas tecnológicas, e temos também muito trabalho a ser desenvolvido com universidades, por exemplo, a Universidade Autónoma, onde estamos a fazer um curso de transição energética.

A energia era um custo quase oculto há dez anos. Hoje, o consumo de energia é algo totalmente determinante. Esse é o fator de competitividade de cada país?

Hoje já estamos a conseguir competir contra os países nórdicos, que durante muitos anos foram os países com preços de energia mais baixos. Conseguimos, mesmo em alguns dias, estar abaixo dos países nórdicos, devido à forte penetração das energias renováveis, ou seja, há aqui uma dupla transição que temos de ter em atenção – da parte digital e da parte energética. A forma de baixar os custos também acontece através de mais projetos, e quem os vai financiar são os grandes players que vão fazer PPA, acordos a longo termo e vão, de alguma forma, financiar e capacitar a possibilidade de desenvolver projetos de energias renováveis, baixando os custos, não só na área dos data centers, mas também para os cidadãos.

A soberania dos dados está no centro da agenda. Como é que olham para este tema?

Foi anunciado há dias o Plano Nacional da Cloud Soberana que é, desde logo, um fator crucial. Este plano surge quase de braço dado com o Plano Nacional de Centro de Dados, o que para nós é fundamental, mas temos também a questão geopolítica e o tema da segurança que questionamos cada vez mais – vemos, por exemplo, data centers a serem atacados durante conflitos.

De ressalvar que existirá sempre uma necessidade de dados que precisam de ser conservados. Somos cidadãos e temos dados que não queremos que sejam partilhados. Faltam ainda em Portugal grandes zonas de disponibilidade de cloud, ou seja, os grandes players de cloud ainda não têm em Portugal zonas de alta disponibilidade. Penso que vão começar a surgir com a entrada destes novos players.

O negócio de data center, à escala que observamos hoje, é, sobretudo, um negócio de inteligência artificial….

O grande motor é, exatamente, a parte da IA. Se pensarmos que o custo de construção de um data center ronda, mais ou menos, cerca de 15 milhões de euros por megawatt, quando vemos estes grandes projetos o que está em causa são investimentos bastante elevados. De acordo com o último estudo que fizemos, estimamos ter cerca de 1.5 gigawatts em Portugal em 2030, o que equivale a um investimento brutal do ponto de vista de capital que vai ser trazido para Portugal. E é aqui que reside o primeiro grande motor da economia, na parte da instalação, onde há muito maior potencial de crescimento nesta primeira fase, com base na potência que vai ser instalada.

A IA foi, de facto, a tecnologia com a penetração mais rápida. Se compararmos com o computador pessoal ou mesmo com a internet, a inteligência artificial foi rapidamente aceite.

Como responsável da operação dentro da empresa onde trabalha, a IA traz-lhe desafios que no passado não trazia, com requisitos extraordinariamente específicos e exigentes…

Quando comecei trabalhava num ambiente de mainframe, onde se falava de cargas mais ou menos baixas ou, pelo menos, distribuídas. Hoje, com o rack de IA, e alguns deles já estão em Portugal, estamos a falar de cerca de 130, 124 kilowatts por bastidor.

Para muitos data centers, esta é a potência total. A questão do arrefecimento é cada vez mais importante e tem de ser feito de uma forma sustentável, ou seja, o primeiro consumo de um data center é sempre a carga IT, o segundo acaba por ser a parte da climatização, por isso tem de ser feito de forma responsável.

Os KPI tradicionais que se usam num data center, como o PUE, já não servem no caso da inteligência artificial. Agora a energia é medida por tokens…

Este é o tal problema de comunicação, ou seja, o problema que tivemos de comunicação do ponto de vista dos centros de dados é dizer o número de megawatts que estão a ser instalados como se um data center produzisse energia. Mas o data center não produz energia. Um data center de IA, por exemplo, produz tokens e, se formos ver, ao longo do tempo existe uma eficiência muito maior – cerca de 90% – que tem sido reduzido no número de tokens por jogo ou tokens por kilowatt-hora.

Existe um esforço acrescido de eficiência. Quando olhamos para as mais recentes notícias vemos que há cada vez mais necessidade, mas esta realidade advém de todos nós utilizarmos cada vez mais [IA] e não da eficiência que está a ser feita. No entanto, toda a eficiência que tem vindo a ser feita é fundamental.

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