Margarida Bento em 2019-8-14

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Mais do que um olhar: o CCTV na era digital

Como aconteceu com muitas tecnologias, a digitalização trouxe ao CCTV mais do que a simples optimização da eficiência, levando-o para lá da segurança física para ajudar as organizações a otimizar processos de negócio e reduzir custos de operação

Apesar de o CCTV ter há já várias décadas um papel central na segurança física, a evolução tecnológica veio potenciar em muito a sua proliferação, não só pela descida natural dos custos mas também ao simplificar a sua integração e gestão. Por requererem relativamente pouco investimento e complexidade de instalação, gestão e manutenção, é raro o estabelecimento comercial ou empresarial, por mais pequeno que seja, que não disponha de pelo menos um sistema de CCTV básico.

Contudo, como em muitas indústrias, a digitalização veio a mudar muito mais do que a simples eficácia destes sistemas. Enquanto sempre teve um papel reativo e preventivo na segurança física, o CCTV começa não só a ver aplicações mais dinâmicas e eficazes nesta área, como também a assumir funções fora do seu domínio tradicional, como a autenticação, gestão de espaços e otimização de processos.

Ricardo Mestre, Diretor de Marketing da Gateway, constata que “existem evoluções de software/hardware e novas soluções a serem criadas a um ritmo cada vez mais elevado”, reflexo não só do aparecimento de novas empresas adaptadas à era digital mas também de um esforço das empresas existentes “para se renovarem e reinventarem na procura de dar resposta às exigências atuais”.

Estas tendências, acrescenta, vão “condicionar o desenvolvimento do hardware, sempre numa ótica de facilitar a vida e automatizar funções previamente executadas por pessoas”.

Analítica de vídeo

De acordo com a Gartner, 99% do conteúdo de vídeo capturado no setor empresarial será analisado por máquinas sem mediação humana até 2020.

A analítica de vídeo é a principal força-motriz por detrás da transformação da videovigilância, permitindo que o que até agora era uma simples captura de imagens (com talvez alguma componente de alarmística) se torne um processo dinâmico de perceção e interação com a realidade. Mesmo na tradicional análise forense, a analítica de vídeo permite que um processo que levaria dias seja completado numa questão de horas.

Nos próximos anos, é expectável que a analítica seja integrada seja integrada em soluções e serviços de videovigilância; por agora, questões de maturidade tecnológica, acessibilidade e legislação condicionam a sua adoção, mas existem já muitos use cases no ativo que provam a eficácia e exequibilidade destas tecnologias.

Como é muitas vezes o caso com a analítica, o setor do retalho está a demonstrar uma forte adoção – e o grande potencial – da analítica de vídeo em tempo real. Uma aplicação típica é o uso de CCTV para contagem de pessoas e deteção de padrões de tráfego para ganhar insights sobre o comportamento dos seus clientes. Isto permite, por exemplo, criar mapas térmicos para determinar zonas nas quais as pessoas passam mais tempos e expositores que atraem mais atenção, seja para determinar a eficácia de estratégias de marketing, planear estrategicamente a disposição da loja ou otimizar o atendimento ao cliente.

“Não há duvida de que esta tecnologia abre a porta a usos e aplicações que não só vão tornar os sistemas de vídeo mais eficientes, mas também vão proporcionar serviços e soluções até hoje inimagináveis”, refere Ricardo Pereira, Key Account Manager da Axis Portugal, acautelando, contudo, que “convém que haja alguma prudência e que se saiba distinguir entre testes e provas e o que realmente pode ser passado para soluções do mundo real”.

Biometria e reconhecimento facial

O uso de dados biométricos para identificação digital já é relativamente banal. Contudo, foi só recentemente que a vertente do reconhecimento facial começou a ganhar tração, com novas aplicações e use cases de alto perfil a surgir à medida que o software se vai tornando mais preciso e confiável.

Tradicionalmente associado à segurança, o reconhecimento facial está, como o CCTV, a expandir-se para outros setores, como o retalho, o marketing e a saúde. Em sinalética digital, por exemplo, pode ser usado para determinar o grupo demográfico de um observador e respetiva reação ao conteúdo exibido. Em algumas cidades já está a ser usado como meio de identidade digital no pagamento de serviços como transportes públicos. E este crescimento não vai abrandar tão cedo: em 2022, é previsto que o mercado de tecnologia de conhecimento facial gere receitas de 9,6 mil milhões de dólares, com uma taxa composta de crescimento anual de 21,1%.

Contudo, a sua fiabilidade ainda é significativamente condicionada, tornando a tecnologia inacessível a grande parte do mercado.

“Esta é seguramente a tecnologia biométrica mais em voga, mas é também a que necessita de condições mais controladas para oferecer resultados aceitáveis”, explica Ricardo Pereira.

Quanto maior for a complexidade das comparações a fazer entre bases de dados e indivíduos, explica, maior é a qualidade do processo gráfico e analítico mínima necessária para que se obtenha uma resposta consistentemente eficaz. Assim, o uso de reconhecimento facial como autenticação num smartphone é relativamente simples, a identificação de pessoal autorizado num ponto de acesso requer software mais complexo, e a identificação de criminosos procurados numa multidão terá uma taxa de sucesso significativamente menor para o mesmo nível de software.

Do edge à cloud

Com a popularização do modelo de Video-Survailance- as-a-Service (VSaaS), o CCTV está a passar do on-premise para a cloud, particularmente em instalações de maiores dimensões. Em vez de transmitir os dados para um único local, geralmente on-premises, a VSaaS conecta as câmaras IP do cliente à infraestrutura cloud do prestador de serviços, onde os vários feeds serão monitorizados e geridos através de um único acess point.

Em aplicações de analítica, o edge computing está também a ganhar terreno, como resposta a condicionantes de conetividade e processamento.

Tendo em conta o peso do conteúdo de vídeo, a largura de banda requerida para enviar ininterruptamente as imagens de múltiplas câmaras para a cloud ou data center torna-se incomportável e a latência impossibilita a analítica em tempo real.

Em muitos casos, contudo, o edge computing funciona não como forma primária de analítica, mas como complemento ao cloud computing, fazendo o pré-processamento e triagem destes dados de forma a enviar para a cloud (ou data center local) apenas as imagens relevantes. Isto liberta em muito a largura de banda, poder computacional e espaço de armazenamento, com latência suficientemente baixa para que o processamento seja feito de forma centralizada em tempo útil.

Failover

Juntamente com o crescimento de aplicações de natureza operacional, a popularização da VSaaS veio também a apertar os critérios de performance dos sistemas de CCTV, que passa a ser vista pela ótica da qualidade de serviço – principalmente no que toca ao failover.

“Seja com gravação no próprio equipamento, seja em servidores com redundância, ou mesmo na cloud, as soluções de vídeo como serviço elevam o nível de exigência do utilizador para um novo patamar, uma vez que o cliente paga pela estabilidade e acessibilidade dos dados”, refere Ricardo Pereira.

Esta é, aliás, uma tendência crescente. Enquanto há dez anos falhas e downtime implicavam apenas uma redução temporária e relativamente inócua da segurança física, em aplicações de analítica, autenticação e acesso, uma pequena falha pode significar a inoperabilidade de um sistema, uma grave quebra de segurança, custos monetários ou simples perda de produtividade. Consequentemente, a atitude tipicamente relaxada do setor do CCTV na tolerância a falhas e redundância começa aproximar-se da exigência característica do setor do IT.

Privacidade e compliance

Como todas as situações que impliquem recolha de dados pessoais, a videovigilância é abordada em detalhe no RGPD. Na ausência das condições legais que imponham a sua utilização, o posicionamento das câmaras de videovigilância deve obedecer a um conjunto de critérios que se traduz na menor captura de dados que se possa alcançar sem sacrificar o seu propósito. Adicionalmente, não é permitida a captação de som durante o horário de funcionamento salvo exceções autorizadas pela Comissão Nacional de Proteção de Dados.

Quanto ao tratamento, gestão e armazenamento destes dados, aplicam-se os princípios gerais: devem ser tomadas as medidas necessárias para proteger os dados e as imagens não devem ser retidas durante mais tempo do que o necessário nem utilizadas para fins fora do seu propósito original.

Quanto aos dados biométricos, talvez pela relativa novidade da tecnologia, este é um tópico coberto exaustivamente pelo regulamento português. É de esperar, no entanto, que a crescente adoção de soluções de biometria leve a um aperto da legislação. Isto já se está a verificar em relação ao reconhecimento facial: São Francisco baniu o seu uso por parte da polícia e outras entidades municipais, enquanto a Bélgica, por seu lado, baniu o seu uso no setor privado.

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