Jorge Bento em 2026-5-11
O mercado entrou em 2026 caro, e imprevisível. Quem anda no Canal sente isso todos os dias: projetos mais difíceis de fechar, clientes mais cautelosos e preços que continuam a subir
|
Este deverá ser, aliás, o tom dominante ao longo do ano: pressão no supply, memória cara e pouca visibilidade. Mas há um detalhe que começa a baralhar o discurso dominante: ao mesmo tempo que tudo aperta, surgem sinais claros de excesso no investimento em Inteligência Artificial (IA). O dinheiro continua a fluir para a IA a um ritmo quase descontrolado. data centers, GPU, memória, tudo é comprado em escala industrial, muitas vezes com base em expectativas ainda por provar. Em 2026, os primeiros sinais de desconforto já são visíveis: investidores mais exigentes, dúvidas sobre retorno e a palavra “bolha” a entrar na conversa. E, no entanto, no terreno, nada disto alivia a pressão. A memória continua escassa, os preços não cedem e o supply não estabiliza. Este é o verdadeiro paradoxo do momento. E tudo indica que se prolongue por 2027. Mesmo com algum arrefecimento da procura mais especulativa, a capacidade produtiva demora anos a ajustar e está, em grande parte, comprometida com contratos de longo prazo. A indústria deixou de ser puxada pelo canal e passou a ser dominada por um pequeno grupo de hyperscalers que compram capacidade com anos de antecedência. Quando isso acontece, o Canal deixa de influenciar o mercado e passa a viver das sobras. Para os Parceiros, o impacto é direto e não deverá desaparecer no curto prazo. 2026 será um ano de pressão e volatilidade. 2027 poderá trazer algum reequilíbrio, mas não necessariamente alívio nos preços ou na disponibilidade. Pelo meio, margens apertadas, menos previsibilidade e um desalinhamento crescente entre o que os clientes precisam e o que está disponível. Mesmo que parte do entusiasmo em torno da IA abrande, isso não significa que o Canal vá respirar melhor. O risco, por isso, não é apenas a escassez. É ficar preso no meio de um mercado que pode estar a sobreaquecer no topo, mas continua a apertar na base. E isso é um problema que não se resolve num ciclo. Pode muito bem ser o novo normal.
Diretor do IT Channel |