Joana Almeida, Manager IT, Adecco Permanent Recruitment, Portugal em 2026-7-22
Durante muito tempo, o setor tecnológico habituou-se a pensar talento com base em especializações bem delimitadas. Havia funções relativamente estáveis, stacks técnicas definidas e percursos de evolução previsíveis
Joana Almeida, Manager IT, Adecco Permanent Recruitment, Portugal
|
A inteligência artificial veio alterar esse equilíbrio, não porque tenha retirado relevância às funções tecnológicas, mas porque está a mudar a forma como estas são exercidas e avaliadas dentro das organizações. Hoje, o impacto da IA no setor de IT já não se vê apenas no aparecimento de novos perfis ligados a machine learning, data science ou automação. Vê-se, sobretudo, na transformação de funções que já existiam e na exigência de um novo mix de competências. O que está a mudar não é apenas o mapa das funções tecnológicas; é a própria definição de valor dentro dessas funções. Isto ajuda a perceber porque é que a conversa sobre talento em IT já não pode centrar-se apenas na escassez. Continua a existir pressão na procura de perfis especializados, mas o desafio tornou-se mais complexo: as empresas procuram profissionais capazes de trabalhar com tecnologia num contexto em que a automação acelera tarefas, encurta ciclos e desloca o foco para competências de maior valor acrescentado. Na prática, muitas funções tecnológicas estão a deixar de ser avaliadas apenas pela capacidade de execução técnica isolada. Um developer, por exemplo, continua a precisar de domínio técnico, mas passa a ser cada vez mais valorizado pela forma como utiliza ferramentas de IA para ganhar produtividade, melhorar qualidade e libertar tempo para tarefas de maior valor. A diferença já não está apenas em saber fazer, mas em saber fazer melhor, com mais critério. Este movimento não se limita às equipas de desenvolvimento. Em áreas como cloud, cybersecurity, data, infrastructure ou QA, a inteligência artificial está a alterar prioridades e a elevar a exigência. Automatizam-se tarefas, aceleram-se análises e cresce a necessidade de profissionais capazes de supervisionar sistemas, validar outputs, identificar risco e assegurar robustez. É aqui que o debate sobre competências se torna mais interessante. A ascensão da IA não está apenas a aumentar a procura por conhecimento técnico avançado. Está também a reforçar a importância de AI literacy, interpretação de dados, pensamento crítico, adaptabilidade e colaboração entre áreas técnicas e de negócio. Num setor em rápida transformação, o profissional mais valorizado tende a ser aquele que combina profundidade técnica com visão de contexto e entendimento do impacto da tecnologia no negócio. Talvez o maior erro que as empresas podem cometer neste momento seja olhar para a IA apenas como uma ferramenta. O verdadeiro impacto da inteligência artificial está no desenho das funções, na reorganização do trabalho e na redefinição dos critérios de empregabilidade. Não basta contratar alguém que saiba usar tecnologia. É cada vez mais necessário identificar pessoas que consigam trabalhar melhor com tecnologia em ambientes mais exigentes, híbridos e acelerados. Esta transformação tem implicações diretas na forma como o talento é identificado e desenvolvido. As organizações que melhor se estão a posicionar para este novo ciclo tendem a rever job descriptions, a valorizar competências transferíveis, a reduzir rigidez nos perfis procurados e a investir mais em upskilling e reskilling. Num mercado em mudança rápida, esta capacidade de adaptação passou a ser uma condição de competitividade. No fundo, a inteligência artificial está a obrigar o setor de IT a fazer uma transição importante: sair de uma lógica centrada apenas na execução técnica para uma lógica de combinação entre capacidade técnica, aceleração inteligente e discernimento humano. As funções tecnológicas não estão a perder relevância. Estão a tornar-se mais exigentes, híbridas e estratégicas. É por isso que o futuro do talento em IT não será definido apenas por quem domina mais ferramentas, mas por quem consegue integrar tecnologia, contexto e decisão com maior rapidez e consistência. |