Inês Garcia Martins em 2026-6-15
O Channel On 2026 reuniu quatro vozes do setor para debater o papel crescente da infraestrutura tecnológica na economia digital. Data centers, cloud, edge e soberania de dados dominaram uma conversa onde se concluiu que a infraestrutura deixou de ser apenas um suporte para se tornar estratégia
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A infraestrutura tecnológica deixou de ser uma commodity silenciosa para se tornar num dos principais fatores de competitividade das empresas. Foi esta a tese central que atravessou a mesa-redonda “Infraestrutura: o motor invisível da economia digital – Data Center, Edge e Cloud no centro da nova arquitetura digital”, sessão que completou a agenda do Channel On 2026. No palco do evento, estiveram António Arsénio, Diretor Comercial Sul da GAP, Nuno Marques, Head of Strategic Alliances da Ricoh, Nuno Silva, Managing Director da Evoware, e Pedro Teixeira, Cloud and Infra, Senior Director da Claranet Portugal, quatro perspetivas que traçaram o retrato de um mercado em acelerada transformação que se mostra exigente. De suporte a fator estratégicoA infraestrutura passou a ocupar um lugar central à medida que a capacidade de resposta das organizações se tornou um fator competitivo. Para Nuno Marques, da Ricoh, a mudança está associada à velocidade com que as empresas chegam ao mercado. Na sua perspetiva, a infraestrutura “acaba por ser uma das armas, porque quem chega primeiro normalmente tem mais sucesso”. A coexistência entre clouds, edges e múltiplos ambientes híbridos aumentou a exigência sobre as arquiteturas tecnológicas e ampliou a exposição ao risco. O responsável admitiu preocupar-se sempre com a parte da segurança porque “da mesma forma que o que é de bom evolui a uma velocidade muito rápida, o que é de mau também”. Assim, a segurança surge como uma dimensão indissociável da infraestrutura, sobretudo num contexto em que a sofisticação das ameaças acompanha a evolução das próprias tecnologias. António Arsénio, da GAP, enquadrou a transformação a partir da multiplicação dos canais de comunicação e recordou que “não é só o telefone, não é só o website, é também as aplicações. Os telemóveis são autênticas ferramentas de comunicação e autênticas ferramentas de negócio”. Esta realidade tem reflexos diretos na infraestrutura física, obrigando a disponibilizar “tecnologias de conectividade com débitos mais elevados porque os volumes de dados são cada vez maiores e, portanto, isso tem impacto também na forma como desenhamos e fazemos a conceção dos centros de dados”. A Inteligência Artificial (IA) acrescenta uma nova camada de exigência. Os projetos de IA trazem “pontos de calor mais concentrados” às salas técnicas, tornando a energia e o arrefecimento variáveis críticas no desenho de instalações modernas. A infraestrutura afirma-se, assim, como “um ponto estratégico” pelo impacto direto que tem na competitividade, na segurança e na capacidade de evolução das organizações. A infraestrutura como arquitetura integradaCloud, data center, conectividade e edge deixaram de poder ser analisados como domínios separados, uma vez que a sua interdependência tem impacto direto na eficiência, na segurança e na capacidade de evolução das organizações. Nuno Silva, da Evoware, defende que “não faz sentido olhar de uma forma separada” para estes domínios, até porque “isso é um dos principais erros que muitas vezes encontramos nas organizações”. Descrito como um “erro clássico”, o modelo de silos foi herdado de uma fase anterior da evolução tecnológica, em que cada equipa trabalhava dentro da sua própria esfera e as interfaces entre componentes eram tratadas de forma pontual e reativa. Num contexto marcado por maior complexidade e exigência, esta abordagem, afirmou, “não só é um obstáculo a conseguir acelerar tecnologicamente, como se traduz num obstáculo muito real à operação e à capacidade de segurança da plataforma”. A resposta passa por, como sintetizou Nuno Silva, “uma arquitetura e uma estratégia global”. A maturidade da abordagem híbridaJá Pedro Teixeira, da Claranet Portugal, enquadra esta evolução numa mudança de paradigma que tem marcado o mercado nos últimos anos, com a passagem de uma lógica “cloud-first” para uma abordagem “cloud smart”. Segundo o responsável, numa fase inicial, “as empresas queriam ir para a cloud, muito empurradas ou pela agilidade, facilidade ou até pela moda”, mas esse entusiasmo tem vindo a dar lugar a uma postura mais madura e analítica. Atualmente, acrescentou, “cada vez mais os clientes têm a perceção do que é utilizar workloads em cloud e começam a pensar se o workload faz sentido estar em cloud ou on-premises”. Esta visão híbrida surge, para Pedro Teixeira, como uma resposta à complexidade real das organizações que permite ajustar cada workload ao ambiente mais adequado, considerando critérios como desempenho, segurança, soberania dos dados e custos. O controlo financeiro assume, neste contexto, uma relevância crescente, uma vez que, como alertou, “a cloud não é conhecida por ser flat, portanto, tem os custos teoricamente controlados, mas na prática temos sempre algumas surpresas”. No desenho de soluções híbridas, o objetivo passa por incorporar “by design a conformidade para garantir que em termos do controlo dos custos e da soberania, tudo está assente sobre o modelo de arquitetura”. Além da regulamentaçãoNo que se refere à soberania dos dados, Pedro Teixeira sublinhou que o quadro regulatório europeu pode representar uma oportunidade, sobretudo num momento em que os projetos de IA levantam novas questões sobre onde e como os dados são processados. Para o responsável da Claranet Portugal, “muitos dos projetos de IA falham exatamente porque não há balizamento legal”, razão pela qual uma base legal sólida é “extremamente importante para o nosso negócio”. Para Nuno Silva, “a soberania é mais relevante até na vertente do negócio”, por estar diretamente ligada ao grau de controlo que uma organização tem sobre a sua capacidade de operar. Essa autonomia passa por “minimizar o número de fatores externos que o podem inf luenciar”, sejam atividades maliciosas, fatores geopolíticos ou alterações de estratégia de terceiros. Neste enquadramento, o modelo híbrido não é apenas uma opção técnica, mas uma forma de reforçar a resiliência e a autonomia estratégica das organizações. Quanto ao repatriamento de workloads para ambientes on-premises ou privados, o responsável da Evoware não o identifica ainda como um movimento estratégico massivo, já que “é extraordinariamente complexo e, em alguns casos, extraordinariamente caro controlar o custo das implementações que temos, porque elas não foram pensadas tendo em mente essa componente”. O papel dos Parceiros: consultoria, integração e colaboraçãoNum contexto em que as decisões de infraestrutura exigem maior articulação entre tecnologia, negócio e risco, o papel dos Parceiros e fabricantes surge no apoio às organizações. António Arsénio defendeu que “não tem nada de mal os clientes serem reativos”. O essencial, acrescentou, é que os Parceiros estejam preparados para assumir uma função consultiva, com um conhecimento do negócio do cliente e do seu contexto, contribuindo para a definição de soluções assentes numa estratégia integrada. Nuno Marques, da Ricoh, defendeu um modelo tripartido, no qual fabricantes, integradores e clientes trabalham em conjunto, com responsabilidades distintas e complementares. Aos fabricantes cabe a inovação; aos integradores, a proximidade ao cliente e a capacidade de consulta; e aos próprios clientes, a disponibilidade para participar ativamente no processo. O orador sublinhou que esta colaboração depende também da abertura das organizações, ao afirmar que “se os clientes não deixam, não vale a pena”. Sem esse envolvimento, alertou, aumenta o risco de as decisões ficarem presas à urgência, “em vez de termos decisões que tomadas de uma forma rápida e equilibrada”. |
Channel On: Maioria dos Parceiros registam crescimento no volume de vendas no primeiro trimestre