Inês Garcia Martins em 2025-12-15

A FUNDO

Mesa-Redonda

Smart, IoT e edge reforçam influência junto do Canal

Os sistemas inteligentes, o IoT e o edge já não vivem no território do “vai acontecer” e estão a redesenhar operações, redes e arquiteturas. A oportunidade está em dominar um ecossistema com latência mínima, inteligência no extremo, segurança distribuída e pilotos escaláveis. Foi neste contexto que D-Link, Maxiglobal, Vodafone IoT e Zaltor se reuniram no mais recente live event do IT Channel para discutir o que está a mover este setor

Smart, IoT e edge reforçam influência junto do Canal

Como é que interpretam o atual momento de maturidade do IoT e do edge computing no mercado português?

Javier Nuñez, Presales Engineer, Zaltor: “A procura por estas soluções já é significativa, sobretudo na manufatura, como fabricantes, produção mais manual ou fábricas de grande escala. Nestes ambientes existem inúmeros sensores e o objetivo não é apenas recolher dados das máquinas e processá-los. O ponto crítico é fazê-lo na própria fábrica, no edge, naquela fronteira entre a máquina e a cloud. É aí que tratamos volumes massivos de informação, exclusivamente porque ganhamos algo que na cloud não existe: rapidez. Evita-se a latência de enviar tudo para cima. Outro mercado que está a crescer de forma evidente é o das smart cities porque os dados têm de ser bem geridos, armazenados e processados.”

Num ambiente industrial ou crítico, não é possível esperar que a informação vá a um servidor e volte. Neste ponto, estamos, de facto, a assistir a uma mudança de paradigma onde a inteligência está a voltar para o edge? Onde é que se processo o dado hoje: no sensor, no switch, na antena 5G ou no data center?

Paulo Carneiro, Branch Office Manager, Maxiglobal: “No paradigma atual não é o edge versus data center. É o edge mais o data center. O que observamos é uma computação distribuída de forma inteligente, onde o processamento é colocado onde faz mais sentido. As empresas no seu ambiente industrial ou de produção acabam por estar a adotar arquiteturas híbridas com plataformas data center modernas e grupos de storage preparados para a Inteligência Artificial (IA) e redes de baixa latência. Soluções de integração entre o edge e a cloud é um ponto muito importante. A inteligência está a regressar ao edge porque é essa a necessidade, mas o edge não substitui o data center”

Fernando Capucha, Gestor de Contas VIP+, D-Link: “O que nós fazemos e qual é a nossa preocupação? É ter cada vez mais sistemas mais inteligentes no extremo da rede. Estes meios são tipicamente transacionais, e aqui o que se verifica é que os equipamentos que estão no extremo têm alguma capacidade de processamento. O que temos de garantir é que no extremo exista inteligência suficiente para que, logo no início da transação, todo o sistema seja minimamente seguro e de elevada performance. A maioria do processamento dos dados não se faz no extremo, faz-se noutro sítio. O nosso trabalho é garantir que o caminho seja seguro, rápido e eficiente”

Como evoluiu a conectividade para suportar os casos de uso de IoT mais exigentes e quais são hoje as diferenças mais críticas para a escolha da tecnologia certa?

 

“Estamos a assistir a clientes que lançam um produto e vão continuando a construir o produto já na mão do cliente. Chamamos a isto de factory to the field. A tendência, efetivamente, é esta: não reconhecer fronteiras”


Mário Peres, Country Sales Manager, Vodafone IoT

Mário Peres, Country Sales Manager, Vodafone IoT: “Todos temos consciência de que vivemos efetivamente numa sociedade altamente conectada, estamos a avançar para aquilo que chamamos de uma sociedade hiperconectada. Isso obriga-nos a passar de redes generalistas, como era antigamente o 2G, 3G, para soluções especializadas para cada tipo de operação e necessidade. A decisão crítica para se escolher uma tecnologia passa pela largura de banda necessária, pelas latências a respeitar, pela eficiência energética, pela existência ou não de uma fonte de energia junto ao sensor, pela mobilidade necessária ou não”

Fernando Capucha, D-Link: “O aspeto principal é ver qual é o projeto, qual é o tipo de solução que mais se adequa e depois a resposta é binária: consigo ajudar ou não consigo. Antes existiam os chamados routers industriais, agora passamos de ter dois modelos para ter vinte ou trinta. Porquê? Porque nos deparamos com problemas distintos: em algumas máquinas preciso de RS-232, noutras RS-485, noutras GPS, noutras Modbus. Tenho de ter uma miríade de funcionalidades que há dois ou três anos não eram preocupação para ninguém”

Qual o papel das redes 5G e Wi-Fi no desenvolvimento e na implementação de soluções IoT?

“Há casos em que o 5G entra perfeitamente e não tem problema, mas a pergunta do milhão de dólares é: para que é que eu preciso do 5G naquele dispositivo que me vai transacionar meia dúzia de bytes? Não preciso do 5G”


Fernando Capucha, Gestor de Contas VIP+, D-Link

 

Fernando Capucha, D-Link: “Há casos em que o 5G entra perfeitamente e não tem problema, mas a pergunta do milhão de dólares é: para que é que eu preciso do 5G naquele dispositivo que me vai transacionar meia dúzia de bytes? Não preciso do 5G. O Wi-Fi é uma tecnologia de curto espaço, de um leque de cobertura razoavelmente pequeno, e é guloso em termos de consumo de energia. Há determinado tipo de dispositivos que não se podem dar ao luxo de confiar em Wi-Fi para fazer as suas transações”

As empresas estão preparadas para lidar com dados gerados em tempo real? Como é que se integra o IoT com analítica, IA e plataformas cloud/edge?

Mário Peres, Vodafone IoT: “Muitas empresas nacionais estão já a integrar o IoT com a analítica, com inteligência artificial, cloud, edge. Diria que obviamente vai variar de empresa para empresa, também de setor para setor. A inteligência artificial vai fazendo parte e vai tornando as soluções cada vez mais fáceis de utilizar. Obviamente a cloud e o edge são quem garante a escalabilidade e o armazenamento passivo de dados e, se antigamente era complicado e difícil para as empresas entrarem neste tempo, diria que qualquer empresa hoje em dia tem muitas entidades a quem recorrer para os ajudarem”

Paulo Carneiro, Maxiglobal: “Nos ambientes industriais, como a logística, a energia e a saúde, as decisões precisam de ser tomadas em milissegundos. Isso tem levado a um movimento claro de aproximação dos data centers das operações, criando as arquiteturas distribuídas que combinam as soluções de edge computing, o mais perto possível de onde precisam da informação. As empresas que já dispõem desta proximidade, seja através dos data centers, edge data center ou das suas infraestruturas localizadas, estão muito melhor preparadas para o que aí vem e para gerir os seus dados em tempo real, com fiabilidade, baixa latência e segurança”

 

“Precisamos de assegurar dois pilares fundamentais: o da identidade para a escala e a eficiência para o rendimento. A superfície que vamos defender é massiva e os sensores podem estar em qualquer lugar do mundo, o que torna a superfície global”


Javier Nuñez, Presales Engineer, Zaltor

Javier Nuñez, Zaltor: “A maioria das empresas tem vontade e quer fazer, mas não tem toda a infraestrutura. Falta-lhes sempre uma camada. Em Portugal e Espanha, as empresas são muito boas a analisar dados que já têm. No entanto, gerir dados em tempo real é mais complicado. O grande problema não é a falta de dados, é justamente o contrário: há uma quantidade brutal de dados a subir para a cloud e isso vai colocar-nos dois muros – o custo da cloud que dispara e a latência. Vamos ter uma quantidade de dados que não vamos conseguir analisar a tempo. Analisar o que está a acontecer é onde está o valor real”

Muitos projetos de IoT morrem ainda na fase piloto. Onde é que se encontra a maior fricção ao tentar escalar uma solução de IoT? É no custo da conectividade, na complexidade de gestão dos equipamentos ou na falta de integração dos dados no ERP da empresa?

Fernando Capucha, D-Link: “Oito em cada dez projetos não chegam a ver luz do dia. A inteligência artificial, que é vista hoje como uma bala de prata para tudo, depois vai-se ver ao terreno e… oito em cada dez? Significa que algo se está a fazer mal, e não vamos culpar a tecnologia. Muitas empresas adicionam equipamentos à solução para permitir a conectividade e alguma inteligência no edge. Tudo isto é uma conta de somar, e não de subtrair. É o caso das smart cities. Quando se começa a analisar, verifica-se que sai do orçamento. Há toda uma série de barreiras que, às vezes, faz com que as coisas não possam avançar”

Com a superfície de ataque a crescer para milhares de endpoints, como é que se consegue garantir a proteção de ambientes IoT? Como é que se garante a segurança sem comprometer desempenho ou latência no edge?

Javier Nuñez, Zaltor: “Precisamos de assegurar dois pilares fundamentais: o da identidade para a escala e a eficiência para o rendimento. A superfície que vamos defender é massiva e os sensores podem estar em qualquer lugar do mundo, o que torna a superfície global. Precisamos de implementar uma arquitetura de zero trust, onde qualquer dispositivo vai ter não só a capacidade de enviar dados, mas também a capacidade de ter a sua própria identidade segura. É essa identidade segura – a primeira camada de segurança – que vai permitir o salto, movê-la de maneira rápida e eficiente, tendo-a no próprio dispositivo”

Paulo Carneiro, Maxiglobal: “Temos encontrado várias dificuldades e conseguimos reduzi- las implementando soluções modulares muito perto das redes do cliente. Assim conseguimos responder às necessidades com soluções mais perto e com uma resposta muito rápida. Muitas vezes o que acontece é que a autonomia e também a necessidade de informação é muito premente, e há sempre um desafio muito grande. A cibersegurança é cada vez mais crítica e temos de ter sempre os equipamentos disponíveis num curto espaço de tempo e com uma necessidade cada vez maior de aceder a essa informação”

Mário Peres, Vodafone IoT: “No IoT há especificidades muito próprias que temos de ter em conta. Cada componente da rede tem de ser resiliente por ela própria. Ou seja, a cibersegurança numa rede do IT tem de começar por camadas e vai desde o desenho da solução. Ao nível do sensor, é muito importante garantir que é feita uma autenticação segura desse equipamento e garantir que se alguém aceder a esse equipamento de forma física, não consegue aceder ao código de encriptação desse cartão. Fazemos isso através do cartão SIM, que também utilizamos para autenticar as comunicações dos telemóveis”

Que tendências estão a moldar o futuro das redes edge-ready e da conectividade inteligente?

“A convergência do edge computing, da IA e do IoT tem vindo a acelerar e teve um impacto imediato em várias áreas da latência, da privacidade e da autonomia operacional. Vai ter impacto direto, sobretudo na indústria, na mobilidade, na saúde”


Paulo Carneiro, Branch Office Manager, Maxiglobal

 

Paulo Carneiro, Maxiglobal: “As redes edge precisam de um processamento em milissegundos, resiliência local e segurança nativa. As soluções de data centers modelados permitem colocar a capacidade de computação e storage diretamente no campus da empresa, muito perto da produção, reduzindo a distância e a latência. O data center acompanha o crescimento da empresa e vai ser aumentado à medida que a empresa vai crescendo, o que também reduz o impacto financeiro do investimento no data center”

Mário Peres, Vodafone IoT: “Estamos a assistir a clientes que lançam um produto e vão continuando a construir o produto já na mão do cliente. Chamamos a isto de factory to the field. A tendência, efetivamente, é esta: não reconhecer fronteiras. Países como Portugal precisam que os nossos empreendedores tenham a capacidade de pensar além, de forma que os seus projetos não funcionem apenas no país onde vivemos, mas possam expandir-se para qualquer lugar. Vejo que há realmente muita coisa a fazer”

Javier Nuñez, Zaltor: “O centro de gravidade dos dados mudou. Já não está no grande data center, mas sim no edge. As três grandes tendências que estão a redefinir as redes são: o desaparecimento da fronteira entre rede e segurança com o SASE; a chegada da inteligência artificial às operações da rede, o que chamamos de AIOps para a auto-reparar; e a conectividade wireless, ao confiar fielmente no Wi-Fi e no 5G. Todos os dispositivos se conectam com latência quase nula, as conexões não caem e a comunicação entre eles mantém-se contínua e mais fiável”

Edge, IA e IoT estão a convergir. Em que áreas esta convergência terá impacto mais imediato? Iremos assistir ao surgimento de um Edge-as-a-Service massificado?

Paulo Carneiro, Maxiglobal: “A convergência do edge computing, da IA e do IoT tem vindo a acelerar e teve um impacto imediato em várias áreas da latência, da privacidade e da autonomia operacional. Vai ter impacto direto, sobretudo na indústria, na mobilidade, na saúde, nas smart cities e na energia. Tudo indica que o Edge-as-a-Service é uma realidade. Já vimos este modelo aplicado ao software há alguns anos e, agora, começamos a estendê-lo às gateways, aos micro data centers e aos smart IT racks”

Mensagem final sobre as oportunidades e desafios para os Parceiros nesta área?

Fernando Capucha, D-Link: “Não vendemos sem os Parceiros. O nosso sucesso está diretamente relacionado com o sucesso dos nossos Parceiros. O que fazemos do nosso lado é ter o portfólio o mais completo e amplo possível com um price performance ajustado e dar-lhes as ferramentas, nomeadamente de formação, partilha de informação e de ajuda no projeto”

Paulo Carneiro, Maxiglobal: “Somos uma empresa especialista em data centers e temos a produção totalmente portuguesa, portanto, conseguimos desenvolver uma solução à medida daquilo que os clientes e os Parceiros necessitam. Temos instaladas muitas soluções pelo mundo fora e estamos também agora noutros mercados. A nossa disponibilidade é total e estamos sempre prontos a ajudar o cliente. Entendemos e apontamos para a solução que será melhor para o cliente agora e no futuro”

Javier Nuñez, Zaltor: “Portugal está perfeitamente posicionado para ser um hub de inovação, de edge computing na Europa. A nossa missão é dotar o Canal das ferramentas de software necessárias para a cibersegurança, backup, gestão remota e monitorização, para que os vossos projetos passem de pilotos de sucesso a implementações massivas e robustas de tecnologia”

Que convite ou desafio deixa aos integradores e Parceiros portugueses? Onde é que a Vodafone sente que precisa mais de ajuda para massificar estas tecnologias de edge e IoT no mercado nacional?

Mário Peres, Vodafone IoT: “Isto é uma cadeia e ninguém faz nada sozinho. Temos consciência que temos alguns assets que podemos aportar aos projetos. Temos rede e estamos em mais de 180 países. A ideia de vender cartões é muito frustrante, nós queremos participar no desenho das soluções. A mensagem que vos queria deixar é de que temos de trabalhar em conjunto”

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