Inês Garcia Martins em 2026-3-11
Num momento de forte aceleração do investimento e de transformação tecnológica, o IT Channel reuniu representantes da Huawei, IP Telecom, Maxiglobal, PortugalDC e Vertiv numa mesa-redonda dedicada ao futuro do setor de data centers em Portugal. Desde a rápida expansão do mercado ao impacto da IA na arquitetura das infraestruturas, o debate abordou também os desafios energéticos e de arrefecimento, o papel da conectividade internacional e a crescente centralidade da soberania dos dados
|
Como caracteriza o momento atual do mercado de data centers em Portugal, entre colocation, hyperscale, enterprise e edge, e que mudanças estruturais se tornaram mais evidentes nos últimos dois anos? Luís Duarte, Presidente, PortugalDC: “Aquilo que vivemos hoje no setor de data centers em Portugal é único. Estamos perante um novo ciclo de desenvolvimento. Existe um crescimento bastante acelerado e aquilo que prevemos para os próximos cinco anos, até 2030 ou 2031, é um aumento que pode chegar a 44 vezes a capacidade que está hoje instalada. O mercado em Portugal deverá crescer até cerca de 1,5 GW e, em termos macroeconómicos, são números bastante relevantes. Prevê-se um investimento na ordem dos 13 mil milhões de euros apenas em infraestrutura de suporte aos data centers e estima-se que este crescimento tenha um impacto no PIB português de cerca de 3,7 mil milhões de euros” Isabel Pinto, Distribution Channel Manager, Vertiv: “Todo este crescimento, e principalmente a velocidade a que está a acontecer a nível nacional, traz imensas oportunidades para qualquer um dos vendors, especialmente para os de infraestrutura crítica como nós. Traz muitas oportunidades, mas também muitos desafios, e coloca o país sob uma lupa muito interessante. Dá uma nova dimensão a Portugal, que muitas vezes é visto como aquele pequeno retângulo no canto da Europa. Mesmo dentro das nossas companhias, passamos a estudar e a olhar para o país com uma presença e uma dimensão muito interessantes e muito importantes, para além de todas as oportunidades de negócio que este crescimento traz para cada um de nós” Paulo Carneiro, Branch Office Manager, Maxiglobal: “Em 2025 crescemos 40% nas vendas de soluções de data center. Os clientes têm uma necessidade muito grande de expansão dos data centers, mas já com uma lógica de flexibilidade e de preparação para o futuro. Pensam, por exemplo, no que acontece se daqui a dois ou três anos esse data center já estiver esgotado e se haverá capacidade para crescer. Temos procurado responder com soluções modulares, instalando unidades pré-fabricadas que permitem dar resposta mais rápida às necessidades atuais dos clientes e também às necessidades futuras. Tem sido um processo de crescimento desafiante, quer nos data centers mais tradicionais, quer também no crescimento do edge e dos micro data centers” Quais são hoje os verdadeiros motores de crescimento do setor: Inteligência Artificial (IA), soberania de dados, cloud híbrida, modernização aplicacional ou conectividade internacional?
Rui Fialho, IT Solutions Manager, Huawei: “Nos mercados atuais, os dados são os ativos mais valiosos das organizações. A forma como são armazenados e trabalhados pode representar uma fraqueza e uma exposição negativa, ou pode tornar-se a mais-valia catalisadora do sucesso. A inteligência artificial será, obviamente, e provavelmente, o principal catalisador. Trata-se de uma mudança que altera os requisitos dos data centers e também a forma como os dados são trabalhados porque implica modernização aplicacional, beneficia da conectividade internacional para a partilha de informação e utiliza também modelos de cloud híbrida para garantir a soberania dos dados, que é hoje uma preocupação central” Paulo Carneiro, Maxiglobal: “Os elementos não funcionam de forma isolada, complementam-se. A IA permite otimizar processos e já sabemos que consegue extrair e criar valor para o negócio. Depois temos a cloud híbrida, seja em colocation, seja em modelos de cloud ou mesmo com informação dentro da própria infraestrutura do cliente. Assume um papel predominante ao combinar segurança, controlo das infraestruturas, escala e uma capacidade quase ilimitada de crescimento. Tudo isto tem de garantir desempenho e custos equilibrados, e temos também a questão do compliance, que é muito importante” Filipe Frasquilho, Diretor de Serviços IT, IP Telecom: “Há aqui um facto preponderante que é a componente geopolítica. Muitas entidades estão hoje a iniciar processos de geopatriação, ou seja, por causa da soberania dos dados estão a retirar alguns dados das hyperclouds e a trazê-los para os seus próprios data centers, numa lógica de garantir essa soberania e de cumprir requisitos de compliance. Este fator tem sido, sobretudo na Europa, um elemento que tem impulsionado significativamente o aumento das solicitações ao nível dos data centers” Os modelos tradicionais de data center já não respondem às exigências da inteligência artificial. Que limitações estruturais se tornaram mais evidentes nos últimos dois anos?
Paulo Carneiro, Maxiglobal: “O que temos detetado nos data centers mais tradicionais é que muitas vezes a densidade energética é insuficiente para os workloads de inteligência artificial, suportados por GPU e aceleradores muito avançados que exigem muita potência por rack. Este aumento de potência traz também outros desafios, nomeadamente ao nível do arrefecimento das infraestruturas. Os data centers tradicionais não foram pensados para este tipo de dissipação térmica. O que estamos a apresentar são soluções mais flexíveis, muitas vezes baseadas em modelos modulares, que podem crescer à medida que o negócio do próprio cliente evolui, em vez de se construir uma solução fixa desde o início” Filipe Frasquilho, IP Telecom: “Temos sentido dificuldade em conseguir conciliar os workloads normais e tradicionais dos data centers com os workloads associados à inteligência artificial. As capacidades energéticas necessárias para um, dois ou três racks no meio de um conjunto de racks tradicionais são muito difíceis de acomodar. Não é uma questão da capacidade energética global do data center, mas sobretudo da componente de arrefecimento. Essa é a grande dificuldade e é aí que tentamos ajudar os clientes, criando áreas específicas para este tipo de workloads. É muito mais fácil adaptar áreas dedicadas do que tentar transformar um data center já existente” Isabel Pinto, Vertiv: “Isto vai continuar a crescer e a complicar-se de forma muito acelerada. Em determinadas situações de grande densidade computacional, temos de recorrer a tecnologias combinadas de refrigeração. A densidade computacional cria picos de consumo de energia que têm de ser acautelados. Esses incrementos pontuais levam não só a maiores consumos de energia, mas também a uma maior geração de calor, o que faz crescer ainda mais o consumo energético. Esses picos de consumo têm de ser suportados por uma distribuição de energia mais eficiente e constante. Isso leva também à adoção de outras soluções” Luís Duarte, PortugalDC: “Portugal tem uma localização privilegiada, mas os data centers atuais dependem fortemente do acesso a múltiplos operadores e a ligações de baixa latência. Sem essa conectividade, um data center pode tornar-se apenas um grande espaço de armazenamento que não comunica eficazmente com o exterior. Os operadores de telecomunicações são, por isso, peças fundamentais neste ecossistema, quer através dos cabos submarinos, quer no desenvolvimento das redes de fibra terrestre. No fundo, os data centers funcionam como nós dessas grandes autoestradas de telecomunicações. Quanto mais próximos estiverem dessas ligações, maior é a sua capacidade de responder às exigências do mercado atual” Quando falamos em next-gen data centers, estmaos a falar apenas de maior densidade computacional ou de uma redefinição completa da arquitetura, do core ao edge?
Isabel Pinto, Vertiv: “Hoje em dia já não conseguimos conceber a nossa tecnologia diária sem alta densidade computacional e isso leva-nos automaticamente a redefinir e a repensar toda a infraestrutura e todo o data center, que eu já não diria do futuro, mas do presente. Estas necessidades são aquelas que nos chegam todos os dias. Muitas organizações querem avançar com investimentos que exigem implementação muito rápida. Isso obriga à existência de soluções completas, eficientes, escaláveis e com capacidade de implementação muito rápida, capazes de responder às necessidades que surgem hoje no mercado” Rui Fialho, Huawei: “A maior densidade é apenas o sintoma mais visível de um conjunto de necessidades que começam na rede elétrica e na refrigeração e terminam nas próprias aplicações, que também têm de se ajustar. Quando falamos de aplicações, falamos desta distribuição entre o core e o edge. A computação, o armazenamento e a proteção de dados têm de estar preparados para sistemas cada vez mais distribuídos, porque uma única sala ou um único data center já não consegue responder, por si só, a todas as exigências desta transformação. Estamos, portanto, perante uma verdadeira metamorfose” A disponibilidade energética tornou-se um fator crítico. Estamos perante um limite estrutural ao crescimento dos data centers ou uma questão de planeamento e investimento?
Luís Duarte, PortugalDC: “O tema da grande procura por energia elétrica não é apenas nacional. Em Portugal existe capacidade na rede para novas instalações e existe também um mix de produção de energia bastante interessante, com uma percentagem de energia verde que está entre as mais elevadas da Europa. Aquilo que se verifica atualmente é uma forte especulação nos pedidos de ligação à rede. O consumo em pico em Portugal anda na ordem dos 10 GW, enquanto os pedidos existentes ultrapassam os 26 GW. Mesmo considerando os projetos em curso, este valor é claramente especulativo e não corresponde à realidade” Como é que o aumento da densidade associada a workloads de IA está a obrigar a repensar modelos de arrefecimento, eficiência energética e desenho físico das infraestruturas? Isabel Pinto, Vertiv: “Não diria que são apenas preocupações, mas quase diretrizes que orientam o desenvolvimento dos novos designs de infraestrutura crítica. A questão da refrigeração continua a ser um tema central. Como já foi referido, o consumo de água não é tão elevado quanto muitas vezes se afirma no espaço público, precisamente porque os sistemas de refrigeração líquida são concebidos em circuito fechado. Refrigeração, consumo energético e eficiência energética estão no centro de qualquer solução de infraestrutura crítica. Já não se trata apenas de equipamentos isolados, mas de soluções completas que têm de ser pensadas com esta premissa desde o início” O custo e disponibilidade da energia pode comprometer a viabilidade económica de projetos de IA em larga escala? Luís Duarte, PortugalDC: “O custo da energia em Portugal é bastante competitivo quando comparado com o resto da Europa e isso constitui um fator diferenciador. Penso que isso resulta da aposta feita no país no investimento em energias renováveis, que está agora a dar os seus frutos. Esse impacto sente-se não apenas ao nível do custo, que naturalmente pesa mais quanto maior é a dimensão do projeto e influencia diretamente o business case, mas também na componente do cumprimento das metas de sustentabilidade. Portugal está hoje muito bem preparado para fornecer energia verde” Rui Fialho, Huawei: “A necessidade de garantir acesso a energia abundante, estável e com custo previsível é tão ou mais importante do que a tecnologia de computação que essa energia irá alimentar. Não se trata apenas de custo, mas também da capacidade de produção e de distribuição dessa energia. Os data centers dedicados à IA têm necessidades energéticas que já superam as de muitas cidades. Este é realmente um dos grandes temas do momento. Fala-se mesmo naquilo que alguns designam como uma parede energética, o que significa que será necessária uma verdadeira revolução tecnológica para melhorar o desempenho por watt” Que mudanças técnicas são mais críticas para suportar workloads de IA: computação especializada, redes de baixa latência, storage de alto desempenho?
Filipe Frasquilho, IP Telecom: “Todos estes sistemas obrigam a uma arquitetura de rede muito bem desenhada dentro do data center, capaz depois de se interligar com outros ambientes. A inteligência artificial depende de dados, e de dados de qualidade, para produzir bons resultados. No entanto, não é necessário que todos os dados estejam dentro da mesma infraestrutura. O importante é ter a capacidade de aceder aos dados necessários, onde quer que estejam. Isso exige conectividade eficiente com diferentes locais onde esses dados se encontram. Por essa razão, a componente de rede torna-se absolutamente fundamental para que toda a arquitetura funcione de forma integrada” Rui Fialho, Huawei: “Nesta evolução, o storage deixa de ser apenas um espaço de armazenamento de dados e passa a assumir o papel de memória e conhecimento. Uma infraestrutura de storage dedicada à IA tem de perceber que os dados em bruto, não estão num formato que os modelos consigam consumir de forma eficiente. O objetivo passa então por estruturar esses dados e por combinar diferentes camadas. Utiliza-se a GPU para os dados que precisam de acesso imediato, a memória RAM do servidor para dados relevantes que não necessitam de estar permanentemente na GPU e, finalmente, o storage, que permite expandir significativamente a memória e o contexto disponível” Num contexto de multicloud, edge e IA distribuída, a soberania dos dados voltou ao centro da decisão. O que significa hoje, na prática, garantir soberania, localização física, controlo operacional, jurisdição ou algo mais? Filipe Frasquilho, IP Telecom: “O que a soberania digital tem trazido, e aquilo que tem marcado a estratégia de governos, estados e organizações, assenta essencialmente em três fatores fundamentais. O primeiro, e talvez o mais importante, é a classificação dos dados. É fundamental saber quais são os dados que têm obrigatoriamente de permanecer no país e não podem ser transferidos para outras localizações. Depois existem dados que podem estar sob controlo, mas que podem residir, por exemplo, noutros países da União Europeia, e finalmente os dados que são públicos. A realidade é que muitas organizações ainda não têm esta classificação completamente feita” Paulo Carneiro, Maxiglobal: “Garantir a soberania dos dados não se limita apenas à localização física da informação. Implica também assegurar o controlo sobre a operação das infraestruturas, a clareza quanto à jurisdição aplicável e o alinhamento com os requisitos regulatórios. Muitas organizações têm inclusive regulamentos internos que obrigam a que determinados dados permaneçam dentro da própria organização. Esses dados não podem estar na cloud ou noutras localizações externas e têm de ser controlados diretamente pela entidade. Isto exige mecanismos robustos de compliance, bem como processos de auditoria que garantam que essas regras são cumpridas” Luís Duarte, PortugalDC: “Para além da dimensão europeia, muito marcada também pelas relações transatlânticas que já mencionámos, cada país procura agora garantir a sua própria soberania digital dentro da sua geografia. Um governo, como o português, dificilmente quererá que a sua soberania digital dependa exclusivamente de infraestruturas localizadas noutro país, como por exemplo em Espanha. Estamos, por isso, a falar de vários níveis de soberania, desde o nível europeu ao nível nacional, e essa realidade irá também impulsionar diferentes níveis de desenvolvimento das infraestruturas digitais” Uma mensagem final para os Parceiros, nomeadamente oportunidades e desafios que se apresentam no setor dos data centers. Filipe Frasquilho, IP Telecom: “Os Parceiros são, tipicamente, quem está mais próximo dos clientes. São eles que conhecem melhor as necessidades e os desafios específicos de cada organização. Existe uma grande oportunidade para os Parceiros. Os Parceiros podem ajudar a definir quais são as melhores infraestruturas e qual o desenho de arquitetura mais adequado para garantir compliance, segurança e proteção dos dados” Isabel Pinto, Vertiv: “Estas exigências vão chegar a todas as entidades. Desde pequenos data centers, a infraestruturas locais ou regionais, até ao próprio edge, todas as organizações vão começar a sentir necessidades que hoje parecem concentrar-se apenas nos grandes data centers. Os Parceiros vão sentir essas necessidades de forma muito direta, porque são eles que estão mais próximos dos clientes” Paulo Carneiro, Maxiglobal: “As empresas que conseguirem oferecer soluções ágeis, escaláveis e sustentáveis terão uma vantagem competitiva clara. Para os Parceiros, isto representa desafios, mas também um campo muito vasto de oportunidades. Essas oportunidades vão desde a conceção e o desenho das infraestruturas até a modelos pré-fabricados, passando pela operação e pela manutenção de infraestruturas críticas” Rui Fialho, Huawei: “O futuro passa por data centers inteligentes e esse futuro constrói-se em conjunto com clientes e Parceiros. A nossa missão é garantir que cada infraestrutura consegue produzir cada vez mais valor. Nesse processo, os Parceiros têm um papel fundamental, porque trazem a experiência do terreno e ajudam-nos a evoluir e a desenvolver novas soluções” |