Rui Damião em 2026-7-14

A FUNDO

Mesa-Redonda

A nova era da cloud no Canal

A cloud já era uma realidade nas organizações portuguesas, mas com a chegada em força da inteligência artificial, a nuvem passou a ter uma importância maior, uma vez que é por aí que grande parte da informação é processada. Arrow, em representação da Tenable, HPE, IP Telecom, ManageEngine, QNAP e Red Hat partilham a sua visão sobre o mercado de cloud e as oportunidades para o Canal de Parceiros

A nova era da cloud no Canal
Piya W. / Adobe Stock

A cloud continua a evoluir a um ritmo acelerado. Como estão hoje as organizações a equilibrar cloud privada, cloud híbrida e serviços cloud em função das necessidades do negócio? O que mudou nos últimos anos nas prioridades de investimento?

Luís Abreu, Hybrid Cloud Solution Category Manager, HPE: “Quando a cloud apareceu era mais na área de cloud pública onde havia uma filosofia de cloud-first. Entretanto, mudou para a cloud-smart, o definir onde fica a cloud. Podemos concluir daí que a evolução dos últimos anos se tem estabelecido um modelo operacional da cloud híbrida, que é um modelo de longo prazo. Isto tem uma característica porque estas estratégias não foram criadas de raiz, foram quase um acidente, mas 81% das arquiteturas são híbridas”

Filipe Frasquilho, Diretor de Serviços TI, IP Telecom: “O que temos visto nos últimos tempos são dois fatores importantes: a portabilidade e a soberania. Isso tem levado a que as empresas tenham adotado cloud híbrida, mas também cloud privada. É esse o caminho que se tem visto e é uma preocupação nos setores regulados. Aquilo que notamos é que há dois, três anos ia tudo para a cloud pública pela flexibilidade, mas a componente de cloud pública tem evoluído mais na ótica de SaaS”

Guillermo Alcover, Regional Channel Specialist, QNAP: “No mercado, a tendência é voltar às infraestruturas on-premises, não por completo, mas nota-se essa mudança, também por causa do custo da recuperação dos dados. Trabalhamos muito com empresas pequenas e médias em Portugal e estamos a ver esta alteração. O futuro, para nós, é uma infraestrutura híbrida, mas achamos que o mercado não se pode esquecer da parte on-premises”

Num mercado em que a cloud já faz parte da estratégia da maioria das organizações, onde pode hoje um Parceiro criar maior valor para os seus clientes? Que serviços, competências e capacidade de consultoria fazem verdadeiramente a diferença?

Filipe Frasquilho, IP Telecom: “Os Parceiros e os prestadores de serviços têm apostado onde têm de apostar: não ver a cloud como o único tema. No desenho da arquitetura, na componente dos custos, têm de ser definidos. Hoje, as coisas são muito mais complexas, é preciso ter uma componente de FinOps para perceber qual o valor que vamos conseguir trazer para a organização e, depois, a questão da segurança tem de estar sempre num patamar elevado, mas aliada ao compliance”

À medida que os projetos cloud vão amadurecendo, como podem os Parceiros transformar projetos em serviços geridos, criando receitas recorrentes e relações de longo prazo com os clientes?

 

“Percebemos que a cloud é indispensável para o mercado, mas achamos que não nos podemos esquecer da parte on-premises. Podemos oferecer o melhor dos dois mundos aos clientes e aos Parceiros”


Guillermo Alcover, Regional Channel Specialist, QNAP

Guillermo Alcover, QNAP: “Achamos que as coisas boas da cloud é que é muito adaptável ao cenário da empresa. Podemos ter aumento de armazenamento, por exemplo. Para os Parceiros, isto é muito bom porque podem estar muito mais perto da empresa do que há uns anos. Antes podíamos fazer uma infraestrutura on-premises onde tudo funcionava bem, mas agora as empresas têm de falar constantemente com os Parceiros. Os clientes finais precisam muito mais dos Parceiros do que antes”

A cibersegurança, a proteção dos dados e a resiliência operacional são hoje elementos indissociáveis de qualquer estratégia cloud. Como podem os Parceiros responder a estes desafios e ajudar os clientes a construir ambientes mais seguros e resilientes?

José Fonseca, Technical Evangelist, ManageEngine: “A segurança e a resiliência em cloud começa, normalmente, com uma ideia simples – migrar para a cloud –, mas isso não significa transferir o risco para outro lado. O que tem de mudar é o modelo operacional. Os Parceiros têm de implementar a parte técnica, mas também têm de ajudar a proteger a infraestrutura. O cliente precisa de saber exatamente o que tem, quem é que acede ao quê e que eventos é que indicam algum risco para a operação”

José Antunes, Pre Sales Specialist, Arrow, em representação da Tenable: “A proteção de dados tem um desafio adicional. Temos o tema de que os dados podem ser comprometidos internamente e podem escapar através de colaboradores da empresa. Desse ponto de vista, é muito necessário perceber quem está a fazer o quê, mas há outra vertente que é da exposição, onde me deixo de preocupar apenas com as potenciais vulnerabilidades, mas com a probabilidade dessa vulnerabilidade ser explorada para fazer algo prejudicial”

Sérgio Seabra, Senior Solutions Architect, Red Hat: “É preciso incutir nos Parceiros que a segurança tem de estar no ADN de qualquer solução. Hoje, o software é a camada privilegiada do IT; o hardware está lá para servir o software. A segurança, normalmente, é um after-thought. Os Parceiros podem e devem trazer a esta equação a evangelização as organizações de como é que hoje, numa realidade cloud-native, se aborda a tecnologia e o desenvolvimento porque estamos a fazer de conceitos novos para as organizações”

Com ambientes cada vez mais distribuídos e complexos, como podem a automação, a observabilidade e uma gestão integrada simplificar a operação da cloud e aumentar a eficiência das organizações? Que oportunidades representa esta evolução para o Canal?

“A automação pode ser, de alguma forma, reutilizada entre clientes porque a cloud traz problemas muito complicados, mas permite a criação de ferramentas para criar soluções, por exemplo SaaS, para endereçar as necessidades que os clientes podem ter”


José Antunes, Pre Sales Specialist, Arrow, em representação da Tenable

 

José Antunes, Arrow, em representação da Tenable: “Quando vivíamos na era dos data centers, só tínhamos martelos e pregos; agora também temos parafusos. A grande mais-valia do Canal é trazer novas estratégias para as organizações, sem que as pessoas que só sabem usar os martelos e os pregos também tenham de saber sobre parafusos. A automação pode ser, de alguma forma, reutilizada entre clientes porque a cloud traz problemas muito complicados, mas permite a criação de ferramentas para criar soluções, por exemplo SaaS, para endereçar as necessidades que os clientes podem ter”

Luís Abreu, HPE: “Estamos muito convictos da realidade de que o modelo operacional é o híbrido e todas as organizações terão este desafio para resolver. O modelo de cloud híbrida integra toda a realidade que os clientes têm. A primeira parte é a observabilidade, ter ferramentas para descobrir toda a realidade do cliente, faz um mapa das respetivas dependências da infraestrutura e, com tecnologias de inteligência artificial, fazer a correlação de eventos para monitorização”

Sérgio Seabra, Red Hat: “A automação já não é uma tecnologia opcional, é mandatória. Estamos a falar de cloud, mas se fosse on-premises era o mesmo problema. Temos um problema de não existir cérebros suficientes para gerir isto tudo em tempo útil. Todo o software dos últimos dez anos apresenta sempre uma API rest, no mínimo, porque se espera que exista interação machine to machine. Isto visa claramente o conceito de automação. Esta complexidade pressupõe a maneira como orquestramos seja o mais agnóstico possível”

José Fonseca, ManageEngine: “É óbvio que a cloud trouxe escala, mas também trouxe fragmentação. No entanto, a observabilidade permite ver o que está realmente a acontecer. Já temos ferramentas prontas para a observabilidade e, desta forma, conseguimos ter uma ferramenta para orquestrar toda a infraestrutura, ter tudo num único dashboard, mas a ferramenta pode estar preparada para múltiplos sites e fornecer toda a informação necessária para a operação”

A soberania digital está a assumir um papel cada vez mais relevante nas estratégias das organizações europeias. Como está esta preocupação a influenciar as decisões sobre a cloud, proteção dos dados e localização dos workloads? Que oportunidades cria para os Parceiros?

 

“A capacitação das pessoas é muito importante e temos visto que há uma enorme expectativa de avançar para a IA, mas percebe-se que a maioria das entidades não está preparada”


Filipe Frasquilho, Diretor de Serviços TI, IP Telecom

Filipe Frasquilho, IP Telecom: “Estamos a ver que a soberania digital deixou de ser um objetivo político e passou a ser uma prioridade operacional. Os setores mais regulados têm estado a avaliar a sua dependência de fornecedores e a reencaminhar para fornecedores locais. Temos um problema na Europa que todos conhecem e que está a tentar ser resolvido. Precisamos de continuar a ter os Parceiros norte-americanos, mas o problema global é que mais de 72% dos serviços cloud mundial são fornecidos pelos três principais fornecedores de cloud e a maioria dos dados europeus não são controlados pela Europa”

José Fonseca, ManageEngine: “A soberania digital está a obrigar as organizações europeias a olhar para onde estão os dados. Quem controla, quem gere e quem tem as chaves, por exemplo, são alguns dos temas importantes. Para o Canal, os Parceiros podem ajudar a transformar a soberania digital numa arquitetura prática, fazer o assessment dos workloads, fazer um desenho híbrido, a segurança e a monitorização. A soberania digital não se trata de ser contra a cloud, é utilizar a cloud sem perder o controlo de toda a informação”

“Capacitem as vossas equipas nestas novas tecnologias e formas de abordar as arquiteturas e, garantidamente, vão ter muitas oportunidades de negócio”


Sérgio Seabra, Senior Solutions Architect, Red Hat

 

Sérgio Seabra, Red Hat: “Este processo ainda está em mutação e a Europa ainda não sabe o que quer fazer com isto. Há duas diretivas que dizem, por exemplo, de onde vêm alguns componentes do data center. Em termos de abordagem tecnológica, estamos a falar com quase todas as organizações em todo o mundo e perguntam-nos se os nossos modelos estão dentro destas diretivas. Isto está a tentar movimentar tantas peças geopolíticas que criámos um centro de suporte soberano europeu. A verdade é que, para todo o Canal, não há nenhuma organização que vá ter convosco e não vos vá falar sobre soberania”

Luís Abreu, HPE: “Há uma maior procura do mercado para soluções que acomodam os requisitos de soberania sejam em que framework for, mas o maior foco é no setor público e nos setores regulados. Vemos com cada vez maior força e procura as entidades olharem para soluções com independência para Internet ou muito limitada, soluções air gap, por exemplo, para as organizações poderem tomar a decisão de se desligar da Internet. Se viermos para a parte do mercado, ficamos com a ideia de que há um potencial muito grande de investimento nesta área”

José Antunes, Arrow, em representação da Tenable: “Tenho o meu carro; se o meu filho quiser ir a algum lado, levo-o lá. Depois apareceu a Uber – aqui é a cloud – que o pode levar lá, mas estou a colocar um novo risco. Da mesma forma que o deixo ir com um estranho, é preciso fazer uma due dilligence. Começámos a colocar a informação na cloud e depois descobri que o país onde está a informação pode ser vista por esse país; se tivermos informação confidencial, isso é um problema muito grave. Há muitas estratégias para endereçar isto, mas é uma questão de gestão de risco”

Guillermo Alcover, QNAP: “Na Europa, temos um país que já está a trabalhar com esta normativa, que é a Suíça, onde têm uma normativa muito estrita sobre os dados confidenciais das empresas. Os providers já estão a fazer produtos específicos para a empresa, mas é uma oportunidade para as empresas mais pequenas na Europa porque podem fazer data centers com muito mais confiança para os Parceiros e isto é um caminho interessante porque vai ser o caminho para o futuro”

Embora muitas organizações ainda estejam numa fase inicial da adoção da Inteligência Artificial (IA), esta já começa a influenciar decisões de investimento em infraestrutura, dados e cloud. Como podem os Parceiros preparar os seus clientes para esta evolução e identificar novas oportunidades de negócio?

Sérgio Seabra, Red Hat: “O principal problema é que esta é uma tecnologia muda quase diariamente. O número de avanços é quase incalculável. Temos a sorte de viver exclusivamente num mundo open source, mas é precisamente aí que está a acontecer as grandes mudanças. Para os Parceiros, o primeiro passo é que têm de capacitar as vossas pessoas e não é possível ir a um cliente falar sobre este tema sem os Parceiros perceberem do tema porque isto muda quase diariamente”

 

“Estamos muito convictos da realidade de que o modelo operacional é o híbrido e todas as organizações terão este desafio para resolver. O modelo de cloud híbrida integra toda a realidade que os clientes têm”


Luís Abreu, Hybrid Cloud Solution Category Manager, HPE

Luís Abreu, HPE: “A propósito dos ambientes híbridos, temos um ambiente perfeito para a IA para criar use cases, levá-los a produção e tirar valor. Há muito potencial no mercado. Para isto ter sucesso e os clientes tirarem valor dos investimentos que vão fazer, os Parceiros têm de se especializar ou incorporando pessoas já formadas ou treiná-las porque existem grandes oportunidades nas várias fases de um projeto de inteligência artificial”

Guillermo Alcover, QNAP: “A IA está a aqui e está a trabalhar nas organizações, mas também é um tema de hardware. Também ligado à pergunta anterior, muitos clientes finais estão a tentar a implementar soluções de IA locais, de fazerem servidores edge para dar resposta e compatível com alguns dos LLM mais populares do mercado. Estas soluções têm um elevado custo de tokens do que se pode utilizar. Nos próximos anos, com o aumento do custo das infraestruturas e da IA, os Parceiros vão ter de estar mais preparados para poder implementar soluções locais”

Filipe Frasquilho, IP Telecom: “Começa a haver bastante procura, mas o foco é para fazer experimentação e só depois implementação. A capacitação das pessoas é muito importante e temos visto que há uma enorme expectativa de avançar para a IA, mas percebe-se que a maioria das entidades não está preparada. É preciso ter governação – onde a análise de risco é fundamental – e depois também a componente de saber para que é que vamos querer e quais vão ser os dados que vamos utilizar. Não são muitas organizações que têm o controlo e conhecem os seus dados”

José Antunes, Arrow, em representação da Tenable: “Como sabemos, a inteligência artificial está protegida para não me dar determinadas informações, mas tem essa informação. Este é um dos grandes desafios da inteligência artificial, porque ela está protegida para não dar determinadas informações, mas ela está lá; é aí que entra o prompt injection. A gestão de risco, da exposição, é muito importante e a segurança é muito importante”

“É óbvio que a cloud trouxe escala, mas também trouxe fragmentação. No entanto, a observabilidade permite ver o que está realmente a acontecer”


José Fonseca, Technical Evangelist, ManageEngine

 

José Fonseca, ManageEngine: “A IA tem vindo a ser desenvolvida nos últimos anos. A governance é muito importante. A IA não vem transformar organizações que estão desorganizadas; vai expor a desorganização mais depressa. Tem de existir uma sinergia entre Parceiros, clientes e fabricantes porque não podemos olhar para a inteligência artificial como mais uma ferramenta, mas tem de ser uma funcionalidade nativa em alguns campos”

Que mensagem gostariam de deixar aos Parceiros que estão a definir a sua estratégia cloud e a preparar a evolução do seu negócio?

Luís Abreu, HPE: “Aquilo que temos visto é a transformação dos Parceiros para fornecedores de serviço e adotar modelos as-a-Service porque isso dá vantagens estratégicas. Dá outro controlo e rentabilidade para o negócio que é sempre muito apreciado para as empresas. Vemos muitas oportunidades na adoção de cloud híbrida e de serviços associados”

Filipe Frasquilho, IP Telecom: “Não vendam só, façam parte do negócio do cliente. É a forma dos Parceiros ganharem confiança e fazer parte do negócio do cliente. Sem isso, é muito difícil ter oportunidades no mercado”

José Fonseca, ManageEngine: “Entre o plantar e o colher, há o regar e esperar. Precisamos de ter paciência com os clientes, mas o Parceiro tem de investir para começar a vender clareza, controlo e confiança. Quem conseguir fazer isto, vai deixar de ser fornecedor e vai passar a ser parte da estratégia do cliente”

Guillermo Alcover, QNAP: “Percebemos que a cloud é indispensável para o mercado, mas achamos que não nos podemos esquecer da parte on-premises. Podemos oferecer o melhor dos dois mundos aos clientes e aos Parceiros e estamos disponíveis para oferecer todo o suporte”

Sérgio Seabra, Red Hat: “A mensagem da Red Hat em Portugal é muito simples: somos um negócio 100% de Canal e dependemos dos Parceiros para fazer a venda e o ongoing. Capacitem as vossas equipas nestas novas tecnologias e formas de abordar as arquiteturas e, garantidamente, vão ter muitas oportunidades de negócio”

José Antunes, Arrow, em representação da Tenable: “Cibersegurança é gestão de risco e isso é muito importante. É só isso que a Tenable faz, a gestão da exposição de risco das joias da coroa. A minha mensagem é perceber o que é que existe, o risco associado e ajudar a gerir esse risco”

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