Rui Damião em 2026-3-16
A inteligência artificial não afeta apenas os servidores e os data centers. Está a encarecer o PC empresarial de forma silenciosa e acelerada. Os Parceiros de Canal em Portugal já sentem o impacto nas cotações e nas margens
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O componente que até há pouco tempo era considerado um produto barato e previsível tornou-se, em poucos meses, num dos maiores desafios operacionais para fabricantes, distribuidores e Parceiros de Canal. A memória (o DRAM que entra em cada portátil, workstation e PC empresarial) disparou em preço a um ritmo sem paralelo na história recente da indústria. A Inteligência Artificial (IA) foi o que desencadeou este aumento. A explosão da procura por infraestrutura de IA levou os três grandes fabricantes de memória (Samsung, SK Hynix e Micron) a redirecionar a capacidade de produção para High Bandwidth Memory (HBM), o componente crítico para GPU de data centers. Cada wafer alocado a um stack de HBM para a Nvidia é um wafer retirado da linha de produção de LPDDR5X para um portátil ou de DDR5 para um desktop empresarial. Em 2026, a dimensão do problema é medida em números que, há um ano, pareciam ficção científica. Os números que mudam tudoEm fevereiro de 2026, a TrendForce reviu em alta as suas previsões de preço para o Q1 de 2026: os preços de contrato de DRAM convencional vão subir entre 90 e 95% em relação ao trimestre anterior, uma quase duplicação em apenas três meses. Quando somados ao aumento de 38% a 43% já registado no Q4 de 2025, a subida acumulada aproxima-se dos 175% a 190%. Para o DRAM para PC, especificamente, a TrendForce projeta que os preços mais do que dobrem no Q1 de 2026, um recorde histórico de subida trimestral. Do lado dos fabricantes, os números são igualmente expressivos. A HP confirmou junto dos seus investidores, durante a apresentação de resultados do Q1 de 2026 (que, no caso da HP, terminou a 31 de janeiro), que os custos de memória e armazenamento duplicaram face ao trimestre anterior e representam, agora, 35% do custo de fabrico de um PC quando, no final de 2025, se situava entre 15% e 18%. Karen Parkhill, CFO da HP, indicou que a empresa está “a tomar ações de preços específicas para compensar o impacto em Parceria próxima com o nosso Canal”. A IDC, num relatório publicado em dezembro de 2025, foi mais longe na caracterização estrutural da crise e apontou que “esta não é apenas uma escassez cíclica, mas uma reafetação estratégica e potencialmente permanente da capacidade mundial de produção de silício”. Num cenário moderado, antecipa uma contração do mercado de PC de 4,9% em 2026; num cenário pessimista, a queda pode chegar aos 8,9%, com os preços médios de venda a subirem até 8%. Num relatório da Gartner, citado pelo The Register em fevereiro de 2026, o analista Ranjit Atwal avisa que o PC de entrada (habitualmente abaixo dos 500 dólares) está em vias de desaparecer do mercado simplesmente porque os fabricantes vão deixar de conseguir construí-lo a um preço que satisfaça comprados sensíveis ao custo. A Gartner estima, também, que os ciclos de vida dos equipamentos se vão estender em 15% nas empresas e 20% nos consumidores até ao final de 2026. “O aumento é inevitável”Em entrevista ao IT Channel, Emilio Dumas, Country Head da Acer Iberia, confirmou a realidade que os números globais antecipam: os preços para o Canal já subiram e há mais a caminho. “O aumento atual situa-se entre 10% e 15%, dependendo das categorias de produtos, e poderá atingir 25% a 30% em seis meses”, admitiu Dumas. A Acer realizou “ajustes específicos e seletivos em determinadas gamas de produto”, mas o responsável é claro: “o aumento é inevitável”. Sobre o segmento mais afetado, Emilio Dumas aponta as configurações mais exigentes em memórias: gaming e workstations estão “particularmente expostas”. No entanto, a empresa prevê “um alargamento das nossas ofertas de PC Chrome mais frugais no consumo de memória e armazenamento” como forma de manter uma proposta acessível a profissionais cujas funções não exigem configurações pesadas. A questão das configurações de memória base é um ponto sensível. Num outro relatório, este de dezembro de 2025, a TrendForce antecipou que os fabricantes iriam ajustar portfólios, estratégias de compras e abordagens por mercado, com os portáteis ultrafinos de gama alta a sofrerem pressão mais cedo e de forma mais intensa, precisamente por não permitirem redução de especificações sem impacto no posicionamento. Quanto à comunicação destas alterações ao Canal, Emilio Dumas reforça que “qualquer alteração é comunicada através de atualizações das fichas de produto, notificações aos distribuidores, roadmaps comerciais e trocas diretas com as equipas locais, para que os Parceiros tenham visibilidade completa antes da comercialização”. A garantia de preçoUm dos impactos mais imediatos no dia-a-dia dos Parceiros é a validade das propostas. Com os preços de memória a moverem-se, por vezes, numa base quase horária, a gestão de cotações para projetos com adjudicação dilatada no tempo tornou-se num exercício de elevado risco. Dumas reconhece o problema. “A Acer define prazos de validade precisos para as suas propostas e orçamentos, a fim de garantir ao Parceiro uma visibilidade fiável no momento do compromisso. Uma vez formalizado um acordo dentro do prazo de validade definido, o preço é garantido pelo período acordado”, explica. No entanto, alerta, não existe garantia automática para prazos de entrega de oito a 12 semanas. Qualquer proteção para além desse período “deve ser discutida caso a caso e validada com as equipas comerciais”. No contexto português, onde os concursos públicos podem ter tempos de decisão e adjudicação de 60 a 120 dias (ou ainda mais), este é um ponto crítico. Em entrevista ao IT Channel em dezembro de 2025, Hélder Bastos, Country Manager da Asus Portugal, descreveu este dilema: “há muitos negócios e os maiores normalmente são concursos. Se calhar, daqui a 60 dias vai sair uma decisão para fornecimento daí a outros 60 ou outros 90 dia. Isto para dizer que é uma dificuldade estar a dar um preço que faça sentido na altura do fornecimento”. A Lenovo, contactada pelo IT Channel para este artigo, indicou que não ia conseguir participar. No entanto, a informação pública da empresa é consistente com o padrão da indústria: segundo a TrendForce, a Lenovo alertou os seus Parceiros em dezembro de 2025 que todas as cotações em vigor iriam expirar a 1 de janeiro de 2026, citando o agravamento da escassez de memória e a procura por IA como os dois fatores determinantes. A HP, também contactada para este artigo, optou por não dar comentários específicos sobre o mercado português. As suas comunicações a investidores são claras. Numa chamada de resultados de 25 de fevereiro de 2026, o CEO interino Bruce Broussard revelou que a empresa respondeu à crise assegurando acordos de fornecimento de longo prazo, qualificando novos fornecedores, reduzindo para metade o tempo de qualificação de novos materiais e expandindo a base de fornecimento de baixo custo. Em entrevista ao IT Channel em fevereiro de 2026, Pedro Vieira, o novo Channel Sales Manager da HP Portugal, partilhou que “2026 vai ser um ano desafiante” e que, ao Canal, “aquilo que podemos oferecer vai ser proximidade, confiança e negócio. Queremos, acima de tudo, proteger também as rentabilidades porque os tempos estão difíceis para todos”. O responsável reconheceu que a situação de escassez “está neste momento a sentir-se” e que a cadeia de fornecimento está a tentar adaptar-se. A empresa também confirmou publicamente, conforme noticiou o The Register em fevereiro de 2026, que, tal como a Dell, a Acer e a Asus, está a considerar o recurso a fornecedores de memória alternativos aos três grandes tradicionais. A carta chinesaA questão dos fornecedores alternativos é, neste momento, um dos temas mais delicados da indústria. De acordo com o Nikkei Asia, citado por vários meios em fevereiro de 2026, a HP e a Dell iniciaram processos de qualificação de memória DRAM da CXMT (ChangXin Memory Technologies), o maior fabricante chinês de DRAM. A Acer e a Asus estarão a solicitar aos seus Parceiros de produção em território chinês que recorram a chips de memória produzidos localmente. Emilio Dumas, da Acer, não confirmou nem desmentiu fornecedores específicos, mas garantiu que, “independentemente do fornecedor, todos os componentes integrados nos nossos equipamentos passam por validações internas das nossas equipas de engenharia”. A questão, no entanto, não é simples. A CXMT enfrenta limitações técnicas relevantes, não tendo acesso à litografia EUV. O fabricante recorre a métodos alternativos que implicam compromissos em termos de densidade, consumo e estabilidade térmica a longo prazo. A qualificação de um novo fornecedor de memória demora, tipicamente, dois trimestres, o que limita o alívio a curto prazo. Por outro lado, a CXMT está sujeita a restrições no âmbito da legislação norte-americana, o que explica por que razão os cenários discutidos apontam para a utilização destes chips exclusivamente em produtos destinados a mercados fora dos EUA, incluindo, potencialmente, a Europa. O Canal portuguêsPara os Parceiros de Canal em Portugal, a crise da memória traduz-se em três preocupações práticas: disponibilidade, preço e margem. Em termos de disponibilidade, Emilio Dumas confirmou que as configurações com mais memória (32GB ou 64GB) “podem exigir mais tempo” face à tensão atual. A gestão de alocações é feita a nível regional, com prioridade para mercados estratégicos e projetos confirmados, e a Acer garante que Portugal não é tratado de forma diferente dos restantes mercados europeus: “toda a Europa, incluindo o mercado português, é estratégica para a Acer”. Ainda assim, a imprevisibilidade é real. No que diz respeito à margem, a lógica descrita por Dumas é de partilha de dor: “uma parte do aumento é inevitavelmente repercutida no cliente final”, mas o Canal “é acompanhado para preservar as suas margens através de mecanismos comerciais dedicados”. Hélder Bastos, da Asus, tinha reconhecido na entrevista em dezembro de 2025 que a pressão sobre as margens de comercialização existe, mas “haverá para todo o mercado”. A solução da Asus passa por um serviço mais diferenciado: “como somos os newcomers no mercado, temos de agilizar o preço, temos de ser competitivos, temos de inovar no serviço”. Quando é que acaba?Não vai ser assim tão cedo quanto o Canal gostaria. A TrendForce prevê flutuações de preço mais significativas no mercado de PC a partir do segundo trimestre de 2026. A Gartner vai mais longe e avisa que, ao contrário de ciclos anteriores de memória, em que os preços subiam e desciam em linha com os inventários, esta escassez tem probabilidade de se prolongar até ao final de 2027. A razão é estrutural. A nova capacidade de fabrico que está a ser construída pelos grandes fabricantes tem prazos de construção longos. Não haverá alívio significativo de oferta antes de 2027/2028, segundo a maioria dos analistas. Há um agravante específico para o mercado empresarial: os requisitos mínimos de memória continuam a subir. A Microsoft exige 16GB para os Copilot+ PCs. A Gartner recomenda pelo menos 32GB para novos PC empresariais. Reduzir especificações não é, neste segmento, uma opção simples, o que significa que a pressão de custos vai manter-se, independentemente da vontade dos fabricantes. Para os Parceiros de Canal, o recado da Acer (que resume bem a postura da indústria) aponta o caminho. “Ao agir com antecedência, proatividade e tomando decisões em conjunto, a atividade é menos afetada”. A colaboração entre fabricantes e Canal nunca foi tão necessária. |