Jorge Bento em 2025-11-12
A confiança na inteligência artificial tornou-se o verdadeiro teste da nossa relação com a tecnologia, uma questão que divide o entusiasmo e o receio na era dos sistemas autónomos
Tao Zhang, cofundador e CPO da Manus AI
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Já não se trata apenas de eficiência ou inovação, mas da capacidade de acreditar nas decisões que um sistema toma por nós. Em Lisboa, na sessão When AI Starts to Decide, essa tensão foi o fio condutor da conversa entre Tao Zhang, cofundador e CPO da Manus AI, e o jornalista Steve Clemons. Zhang começou por desmontar a ideia de que a inteligência artificial é uma ameaça. A transparência, disse, deve ser o pilar da confiança. “Desde o início, construímos a transparência como fator essencial. Se experimentar o Manus, verá o que o agente está a fazer e o que está a pensar.” O sistema da Manus permite ao utilizador intervir, dar ordens ou até travar decisões automáticas, numa tentativa clara de tornar a tecnologia legível e controlável, não apenas poderosa. “Quando o agente encontra uma ação sensível, como enviar uma mensagem ou comprar algo, pede autorização antes de prosseguir”, explicou. A empresa quer que o utilizador sinta que o poder está sempre nas suas mãos. A recusa de Zhang em aceitar o discurso da substituição foi outro ponto forte: “Há uma mentalidade errada, pensar em substituir a humanidade pela IA. O certo é pensar em colaborar com ela.” Para ele, o verdadeiro progresso está na parceria, na forma como os sistemas podem potenciar o lado criativo e racional das pessoas, e não anulá-lo. A conversa ganhou um tom pessoal quando o fundador revelou que a IA o ajudou a lidar com ADHD (défice de atenção). “Sempre tive muitas ideias que acabavam por se perder. Agora deixo-as para o Manus, e em 15 minutos já há progresso.” Essa relação, quase simbiótica, mostra o que Zhang chama de “inteligência partilhada”, uma forma de pensar em conjunto com a máquina. O futuro da Manus passa por agentes mais proativos e coerentes, capazes de antecipar tarefas. “Hoje ainda temos de lhes dizer o que fazer. No futuro, eles vão agir antes de nós”, disse. O seu protótipo já verifica a agenda e o email diariamente, resolvendo pequenas pendências antes de qualquer pedido humano. Confrontado com o uso governamental e militar desta tecnologia, Zhang foi claro: “Só há uma métrica que nos interessa, quantas horas de agência o utilizador ganha.” Em vez de medir tempo de ecrã, a Manus mede o tempo que a IA devolve ao utilizador. Mas, no meio do entusiasmo, fica a dúvida: até que ponto o poder de decidir pode ser partilhado sem se perder o controlo? Quando a IA começa a agir por conta própria, a fronteira entre assistência e dependência torna-se ténue. E talvez a verdadeira transparência, de que Zhang tanto fala, seja precisamente o desafio que a indústria ainda não conseguiu cumprir. |