Inês Garcia Martins em 2026-6-16

CHANNEL ON

“Nós nunca gastámos tanto tempo com pessoas como hoje”

O futuro do Canal esteve em debate no Channel On, com o talento, a liderança e a inteligência artificial como protagonistas de uma mesa-redonda que antecipou mudanças profundas no modelo de negócio dos Parceiros

“Nós nunca gastámos tanto tempo com pessoas como hoje”

Gestão de talento, internacionalização e reinvenção do modelo de remuneração foram os três eixos em torno dos quais se construiu a mesa-redonda do Channel On, dedicada ao futuro do Canal e ao modo como os Parceiros se reinventam para crescer no novo ciclo tecnológico.

A conversa, que reuniu António Louro, Managing Partner e Co-Founder da ActiveSys, António Teixeira, Founder e CEO da Pontual, Nelson Pereira, Board Member e CTO da Noesis, e Nuno Vizela, CEO da IDW, partiu de um diagnóstico: liderar uma empresa de serviços tecnológicos em 2025 exige um perfil radicalmente diferente do que era pedido há uma década, e quem não acompanhar a velocidade da mudança arrisca ficar para trás numa corrida que já começou há algum tempo.

Liderar é diferente do que era

Na visão de António Louro, “os clientes mudaram, o mercado mudou e nós tivemos que nos adaptar muito rapidamente”. Para o Co-Founder da ActiveSys, o gestor de hoje tem de ir muito além das competências técnicas e operacionais, já que “tem de se preocupar muito com gestão de talento, perceber do negócio do cliente e estar preparado para as mudanças rápidas”. O responsável também acrescenta a importância de uma “capacidade de decisão muito rápida, porque se não a tivermos, algo vai ficar para trás”.

“Hoje competimos claramente no mercado global. Um bom perfil tanto pode trabalhar aqui para os Estados Unidos, para o Reino Unido. Não tínhamos esse desafio há uns anos”, afirmou Nuno Vizela. A barreira da recolocação desapareceu e a concorrência por perfis qualificados faz-se à escala global. Para o CEO da IDW, a resposta não pode ser apenas salarial e passa por “criar outro tipo de ferramentas”, para que “os nossos colaboradores e potenciais colaboradores sintam que somos uma comunidade técnica forte, com um investimento contínuo nas pessoas e, acima de tudo, o talento técnico gosta de estar próximo do negócio”.

O CTO da Noesis alertou, contudo, para um efeito colateral da inteligência artificial no modelo tradicional de desenvolvimento interno de talento, que veio “substituir um bocadinho o que é o júnior. Podemos questionar o que a IA sabe fazer, mas se não for um sénior a distinguir o trigo do joio, há problemas”.

É no dia-a-dia que António Louro observa que “as pessoas mudaram mesmo em termos de procura dos empregos. Não procuram só o salário, procuram um conjunto de coisas realmente muito diferentes”.

Consolidação e escala: caminhos para crescer

Na leitura de Nuno Vizela o mercado tem uma lógica cíclica, em que “as empresas consolidadas são as que já têm alguma massa crítica, mas após grandes processos de consolidação, costumam nascer outros Parceiros”. Para o CEO da IDW, “o mercado vai regenerando e vai havendo espaço, quer para aqueles que consolidaram, quer para os Parceiros mais pequenos, que muitas vezes encontram o seu lugar através da especialização”.

“A consolidação dos vendors, a pressão nas margens e tudo o que tem a ver diretamente com a IA, defende António Teixeira, “tem de ser o caminho” e é através destes movimentos que “o nosso modelo de serviço vai mudar”.

A Noesis apostou na internacionalização como alavanca de crescimento, com o CTO a reconhecer que, num país com a dimensão de Portugal, o crescimento pelo número de consultores “será sempre muito difícil” e que a aposta passa por “criar know-how muito específico em determinadas áreas”.

O fim do valor-hora

A IA está a mudar não apenas a forma como os Parceiros prestam serviços aos seus clientes, mas o próprio modelo pelo qual são remunerados, colocando em causa uma lógica de faturação assente no tempo que durante décadas definiu o negócio do Canal tecnológico.

A Pontual já regista sinais concretos desta transformação e, no espaço de um ano, o número de clientes aumentou enquanto o número de tickets diminuiu a dois dígitos, o que levou António Teixeira a concluir que “o nosso negócio acabou com o chamado body shopping. O valor hora do homem acabou”.

Para Nuno Vizela a resposta está na necessidade de os Parceiros mapearem com antecedência quais os serviços que vão desaparecer e quais os que estão ainda por criar.

Já Nelson Pereira destacou o papel crescente dos agentes de inteligência artificial integrados nas plataformas dos Parceiros tecnológicos, que permitem acelerar implementações e entregar mais valor ao cliente em menos tempo.

A automatização de processos é, na visão de António Louro, um passo inevitável para as empresas que procuram ganhar escala e “responder muito rapidamente ao cliente”. O responsável sustenta que não é possível “passar ao lado destes desafios e destas oportunidades”, defendendo a adoção de ferramentas que permitam “automatizar um conjunto de processos”.

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