Inês Garcia Martins em 2026-5-18

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A decisão descentralizada e o novo centro de valor do software empresarial

Os agentes de IA já executam processos, tomam decisões e operam em paralelo dentro do software empresarial. À medida que a decisão se descentraliza, o foco desloca-se para a governança, o ROI e o papel dos Parceiros na criação de valor

A decisão descentralizada e o novo centro de valor do software empresarial

Aquilo que durante anos definiu o software empresarial, desde registar, organizar e automatizar, tornou-se insuficiente. Os sistemas ERP e CRM, tradicionalmente vistos como repositórios de dados e motores de processos transacionais, evoluem agora para plataformas de decisão autónoma. O agente de Inteligência Artificial (IA) passou de sugerir para executar, reconcilia contas, processa faturas, gere fluxos de aprovação e deteta anomalias em tempo real, muitas vezes sem intervenção humana direta.

O fio condutor desta transformação é a descentralização da decisão, uma vez que a IA deixa de estar concentrada num gestor ou num departamento de IT e passa a estar distribuída pelos processos, dados e regras de negócio. Para o Canal de Parceiros, esta transformação reposiciona- o na camada de inteligência da IA, onde a tecnologia ganha expressão nos processos e nos modelos de decisão.

Agentes de IA: do assistente ao executor

Se durante muito tempo os copilots e assistentes de IA foram apresentados como ferramentas de produtividade, seja para redigir emails ou resumir documentos, em 2026 esse ciclo está encerrado. Os agentes de IA integrados no software empresarial já executam processos completos de ponta a ponta, com autonomia e contexto.

 

Céu Mendonça, Enterprise Partner Development Manager for Microsoft Europe South

Os copilots estão a “gerir alterações na supply chain, reconciliar dados financeiros ou automatizar fluxos de service desk”, evoluindo para agentes integrados nos sistemas empresariais, ligados ao ERP, CRM, dados e produtividade, como descreve Céu Mendonça, Enterprise Partner Development Manager for Microsoft Europe South. Neste contexto, sublinha que “estamos a entrar numa fase em que os agentes operam como ‘digital labour’, isto é, como colegas digitais”, num modelo em que múltiplos agentes colaboram entre si, com supervisão humana, garantindo controlo e alinhamento com os objetivos do negócio.

A escala deixa de ser um entrave à medida que a infraestrutura evolui. Pedro Lopes Sousa refere que está a ser construída especificamente para suportar IA, o que reduz o impacto da escala como fator limitador. O Business Development da AWS acrescenta que Portugal “está bem posicionado para criar valor neste segmento”, apoiado na sua conectividade global e novas infraestruturas como a Local Zone.

Na Cegid, a abordagem segue uma lógica de invisibilidade, em que o valor da IA se mede pela sua integração na experiência do utilizador. Para Tiago Costa Lima, Diretor de Product Strategy da Cegid em Portugal, “a melhor integração é aquela que o utilizador não percebe que existe”, sendo que “a IA deve adaptar processos estabelecidos, transformando o software ERP de um sistema de registo num sistema de inteligência”.

Ana Ribeiro, Sales Director Sage Iberia da Sage

 

Já a Sage traz a perspetiva das PME, onde a adoção de IA em 2026 se centra “na redução de fricção em tarefas críticas, fecho de mês mais rápido, automação do ciclo de pagamentos e previsões de tesouraria em tempo real”. Como sublinha Ana Ribeiro, Sales Director Sage Iberia da Sage, “o desafio atual não é a tecnologia em si, mas a confiança”, com as empresas a procurarem “soluções onde a IA atue como um motor de execução assistida sob supervisão humana, garantindo que a produtividade não compromete a integridade dos dados”.

Governança da IA: quem vigia os agentes?

À medida que os agentes ganham autonomia e passam a atuar em simultâneo dentro dos mesmos processos, a questão deixa de ser apenas o que conseguem fazer, mas quem assegura que o fazem de forma coerente, rastreável e em conformidade. Assim, a governança de IA entra no domínio operacional, onde cria também um campo de atuação para o Canal de Parceiros.

No que se refere aos modelos de funcionamento, a Microsoft defende uma arquitetura de orquestração centralizada, assente na partilha de contexto e na consistência dos dados. Como explica Céu Mendonça, “os fluxos de trabalho são desenhados com regras, dependências e pontos de validação claros”, suportados por mecanismos de controlo que permitem que “múltiplos agentes consigam colaborar de forma coordenada, mantendo coerência nas decisões e confiança operacional”.

 

Pedro Lopes Sousa, Business Development, AWS

Do ponto de vista da cloud, a AWS identifica desafios ao nível da coordenação entre agentes distribuídos. Pedro Lopes Sousa refere que “gerir um ecossistema de múltiplos agentes é um dos desafios que os clientes nos comunicam”, sobretudo na ligação entre agentes, dados e ferramentas de forma segura e governável. Sublinha que o fator crítico passa por garantir rastreabilidade total, permitindo “identificar se algum processo foi tocado pela IA, de que maneira, com que modelos e a que custo”.

No universo ERP, Tiago Costa Lima destaca a necessidade de “blindar cada ação automatizada para que os erros não se propaguem em cascata” e de “classificar cada agente com aprovação humana obrigatória acima de determinados limiares”, sublinhando ainda a importância de testar sistemas antes da entrada em produção.

Já nas PME, Ana Ribeiro defende uma abordagem pragmática, em que “a governança não se traduz em burocracia complexa, mas em salvaguardas integradas na própria tecnologia”, onde o essencial passa por “saber de onde vêm os dados e auditar por que razão a IA sugeriu determinada decisão”.

O impacto mensurável IA

Vale o investimento? Perguntam os CFO e gestores de PME. Em 2026, a resposta começa a ter números concretos, o que representa uma mudança face a anos dominados por casos de uso isolados e difícil quantificação.

“Já estamos na fase do retorno tangível”, confirma Ana Ribeiro, recorrendo a dados da IDC, segundo os quais “cerca de 60% dos clientes de Parceiros de alto desempenho já observam benefícios mensuráveis”. O retorno manifesta-se na recuperação de tempo e na redução de erros, com “processos que demoravam dias e que agora são resolvidos em minutos”.

Tiago Costa Lima, Diretor de Product Strategy, Cegid Portugal

 

O fator diferenciador, segundo Tiago Costa Lima, está na escala, já que “as empresas que estão a demonstrar valor tangível, focam-se em menos iniciativas, mas escalam-nas a fundo”, sendo que “uma transformação end-to-end gera retornos muito superiores”.

Já a Microsoft aponta a execução como principal fator crítico, uma vez que “quando o investimento em IA não apresenta um retorno claro, isso tende a estar mais relacionado com a forma como foi aplicada”, sobretudo quando surge “fora dos fluxos de trabalho ou sem bases ao nível de dados e adoção”.

A perspetiva da AWS aponta no mesmo sentido. Pedro Lopes Sousa refere que os projetos falham quando “são abordados como exercícios tecnológicos sem um objetivo de negócio concreto” ou com dados “fragmentados em silos”. A chave, sublinha, está em alinhar estratégia, dados e arquitetura, já que “quando os clientes adotam a IA com uma estratégia clara, o valor gerado supera largamente o investimento”.

Como o Canal passa a criar valor

O novo arquétipo assenta no conhecimento do setor do cliente, na capacidade de identificar onde os agentes criam mais impacto, garantir a governance, assegurar a adoção e operar os sistemas de forma contínua. É este o perfil de Parceiro que constrói modelos de receita recorrente e previsível.

A Sage sintetiza esta mudança ao sublinhar que “a monetização mudou das margens de revenda para a criação de valor e propriedade intelectual”, com Parceiros “AI-native” a desenvolver soluções verticais e a reduzir o time-to-value, num contexto em que “o custo da solução é absorvido pelos ganhos de produtividade do cliente”. Na Microsoft, “o maior valor para os Parceiros desloca-se do deployment inicial para a customização e para a operação contínua dos agentes”, aponta Céu Mendonça.

Do lado da AWS, Pedro Lopes Sousa destaca que “a maior oportunidade para os Parceiros não está em escolher entre construir ou operar, mas na convergência de ambos”, num modelo em que “transformam os seus serviços em produtos” e “convertem os seus produtos em serviços”.

Já a Cegid reforça que o valor do Canal cresce com a IA. Para Tiago Costa Lima, “quanto mais IA existe no software, mais valioso se torna o Parceiro que sabe como e para quem a aplicar”, com foco no conhecimento do negócio e no desenho de processos.

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