Rui Damião em 2026-7-15

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A corrida ao MSSP: o que separa os Parceiros que chegam dos que ficam pelo caminho

O mercado de segurança gerida cresce a dois dígitos em toda a Europa. Em Portugal, o Canal de IT está a tentar acompanhar esse ritmo, mas entre quem está genuinamente a construir uma prática de MSSP e quem está a reembalar ferramentas de fabricantes com uma camada fina de serviço por cima, a distância é maior do que os números de mercado sugerem

A corrida ao MSSP: o que separa os Parceiros que chegam dos que ficam pelo caminho
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O mercado global de cibersegurança vai ultrapassar os 244 mil milhões de dólares em 2026, segundo previsões da Gartner, um crescimento de 13,3% face ao ano anterior. Dentro desse universo, os serviços de segurança gerida são o segmento com crescimento mais rápido (11,1% ao ano) e a explicação é estrutural: as organizações não conseguem contratar suficientemente depressa, por isso compram capacidade de SOC em vez de a construir internamente.

A escassez global de talento em cibersegurança atingiu os 4,8 milhões de postos por preencher, segundo o ISC2, um número que cresceu 19% em apenas um ano e que obrigaria o setor a crescer 87% só para satisfazer a procura atual. A Europa não é exceção: o mercado de serviços geridos no continente atingiu os 63,2 mil milhões de dólares em 2025 e deverá chegar aos 67,9 mil milhões em 2026, de acordo com dados da Fortune Business Insights.

Estes números ajudam a enquadrar a oportunidade, mas não explicam por que razão tantos Parceiros de Canal ainda hesitam ou falham na hora de construir uma prática de segurança gerida sustentável. A realidade do terreno é mais complexa do que as previsões de mercado sugerem, e a distância entre crescimento de mercado e crescimento de negócio para o Parceiro individual pode ser considerável.

Um mercado a crescer a dois ritmos

 

Duarte Sousa Lopes, Diretor da CyberInspect

A maturidade não acompanha o crescimento. No mercado português, coexistem dois tipos de prestadores com realidades muito distintas. “Prestadores de serviços de maior dimensão e com maior intenção e capacidade de crescimento, mesmo quando não são originalmente pure-plays de segurança, continuam a profissionalizar a sua atividade na área, desde a atividade comercial à prestação do serviço e ao aconselhamento mais estratégico do cliente final”, diz Duarte Sousa Lopes, Diretor da CyberInspect. “Mas por outro lado vemos ainda muitos prestadores em fases muito iniciais de desenvolvimento, com escassez de metodologia, recursos e ferramentas e por essa razão mais inclinados a propor ao cliente soluções pontuais em vez de um caminho sustentado de capacitação, o qual é indispensável para que o cliente final consiga de facto gerir melhor os riscos”.

A distinção é relevante porque define dois modelos de negócio que, superficialmente, parecem o mesmo produto – segurança gerida –, mas que têm consequências muito diferentes para o cliente final e para a sustentabilidade do próprio Parceiro.

O problema dos prestadores menos estruturados não é apenas técnico. Quando um Parceiro não consegue apresentar ao cliente um diagnóstico claro e um caminho de remediação consequente, o resultado é previsível: “prestadores menos qualificados tendam a apresentar aos clientes soluções mais pontuais para uma parte dos problemas encontrados, criando uma falsa sensação de segurança e tornando mais difícil o upsell de serviços a posteriori”, sublinha Duarte Sousa Lopes. É um ciclo que prejudica o cliente e bloqueia o crescimento do próprio Parceiro e que é simultaneamente a armadilha mais comum e a mais evitável para quem está a entrar na área.

O talento que não existe em quantidade suficiente

A escassez de perfis especializados é o argumento mais citado pelos Parceiros para justificar a dificuldade em crescer na área de segurança gerida. É um argumento legítimo, até porque os números globais são inequívocos, e as organizações com escassez significativa de talento de cibersegurança enfrentam custos de violação de dados em média 1,76 milhões de dólares superiores às bem dotadas de recursos, segundo dados do ISC2, mas não pode ser usado como justificação para a inação.

Para o Diretor da CyberInspect, “a chave está não em entrar em concorrência por recursos claramente insuficientes no mercado, mas optar por um caminho alternativo de capacitação da organização”. Na prática, isso significa três frentes em simultâneo: ferramentas integradas que permitam prestar diferentes serviços a partir de um só ponto, com resultados traduzidos para uma linguagem orientada ao decisor do cliente; uma metodologia clara e consistente desde a abordagem comercial até à entrega dos serviços; e, em termos de recursos humanos, “a formação qualificada de recursos existentes ou de novos recursos a entrar no mercado de trabalho é claramente essencial para não obrigar ao recrutamento de raiz da totalidade de uma equipa especializada”.

Esta abordagem não elimina a necessidade de talento, mas muda a natureza do problema; passa de um problema de recrutamento, onde o Parceiro compete com todo o mercado por um conjunto fixo e insuficiente de profissionais, para um problema de desenvolvimento organizacional, que é consideravelmente mais controlável para um Parceiro de Canal de dimensão média.

A regulação como catalisador real

Em abril de 2026 entrou em vigor, em Portugal, o Decreto-Lei n.º 125/2025, que transpõe a Diretiva NIS2 e estabelece o novo Regime Jurídico da Cibersegurança. Em junho, o Centro Nacional de Cibersegurança publicou o regulamento que operacionaliza as suas disposições, aprovando o Quadro Nacional de Referência para a Cibersegurança e definindo os requisitos técnicos obrigatórios para as entidades abrangidas. As coimas por incumprimento podem atingir os dez milhões de euros ou dois por cento do volume de negócios global para entidades essenciais e sete milhões ou 1,4% para entidades importantes.

O diploma é uma oportunidade clara para o Canal. As entidades abrangidas precisam agora de implementar medidas técnicas e organizacionais, nomear responsáveis de cibersegurança com reporte direto aos órgãos de gestão, e notificar incidentes dentro de prazos muito curtos. Nenhuma destas obrigações é trivial para uma organização sem recursos internos dedicados, e todas elas abrem espaço para serviços de acompanhamento recorrente.

A CyberInspect observa que muitas organizações já iniciaram esse caminho “conscientes de que não é algo que se percorra na véspera da entrada em vigor das coimas”, nota Duarte Sousa Lopes, destacando como exemplo prático as subsidiárias de multinacionais oriundas de países onde a NIS2 está num estado mais avançado de implementação. Há ainda um vetor frequentemente ignorado. “As entidades não diretamente abrangidas pela NIS2 poderão ser impactadas por via das exigências relativas a gestão de risco na cadeia de abastecimento”, o que alarga significativamente o universo potencial de clientes para os Parceiros de Canal, incluindo PME que nunca consideraram estar no âmbito de qualquer obrigação regulatória de cibersegurança.

O efeito pedagógico mais forte, porém, pode não vir das coimas em si. “Temos também a expectativa de que o início de auditorias pelos reguladores, mesmo antes da entrada em vigor das coimas, tenha um efeito pedagógico e positivo no mercado”, antecipa o Diretor da CyberInspect, à semelhança do que aconteceu noutros países europeus onde a NIS2 entrou em vigor mais cedo.

A PME portuguesa: o cliente mais difícil e o maior mercado

A perceção de que as PME portuguesas só investem em cibersegurança depois de sofrer um incidente está amplamente instalada no setor. E não é totalmente injusta. Durante anos, a lógica prevalecente foi a de que a probabilidade de ser atacado era suficientemente baixa para justificar o adiamento do investimento e que, mesmo sendo atacado, o impacto seria gerível.

Nenhuma das duas premissas se sustenta em 2026. “Essa perceção está instalada”, reconhece Duarte Sousa Lopes. “Achamos que se irá alterar com a própria evolução do panorama de risco, o qual se está a agravar com o uso generalizado de inteligência artificial nos ataques. Isto está a fazer com que o paradigma esteja a deixar de ser de ‘probabilidade elevada de ataque’ para ‘100% de probabilidade de ataque’, o que tornará impossível a um decisor racional numa PME continuar a ignorar ou adiar este tema”.

O argumento da inevitabilidade é mais eficaz do que o argumento da prevenção. Não se trata de convencer um cliente de que pode ser atacado, mas de o ajudar a perceber que a questão é apenas quando e com que impacto. Para os Parceiros de Canal, esta mudança de enquadramento tem uma implicação direta na forma como estruturam a conversa comercial: o ponto de partida deixa de ser o medo abstrato e passa a ser a gestão concreta do risco como decisão de negócio.

Construir um serviço recorrente, não um projeto pontual

Um dos erros mais frequentes dos Parceiros que entram no negócio de segurança gerida é tratar os primeiros trabalhos como projetos: entregam um diagnóstico, fecham o relatório e aguardam a próxima oportunidade. É um modelo que subaproveita o valor gerado, não constrói a relação contínua que caracteriza um MSSP maduro e deixa o cliente sem acompanhamento num contexto de ameaças que evolui continuamente.

A CyberInspect recomenda que os Parceiros comecem por um serviço de diagnóstico inicial que permita ao cliente perceber todo o valor das análises realizadas. “A partir daí e tendo em conta a evolução do panorama de risco surge naturalmente a proposta de um serviço de monitorização recorrente, que é indispensável para conseguir acompanhar não só a evolução das ameaças como da própria exposição digital dos ativos do cliente, que raramente é estática”, diz Duarte Sousa Lopes. Para clientes que ainda não estão preparados para um modelo de monitorização contínua, “um diagnóstico de base trimestral já é claramente melhor do que a prática típica de análises ad-hoc”.

A plataforma da CyberInspect não substitui o trabalho do Parceiro; potencia-o. Os relatórios das análises realizadas permitem estabelecer com o cliente final um roadmap de remediação eficaz, e o trabalho do Parceiro continua com a proposta e implementação desse plano.

É uma divisão clara de responsabilidades que evita a ambiguidade que frequentemente complica as relações entre prestadores e clientes em projetos de cibersegurança, e que permite ao Parceiro escalar a sua capacidade de servir múltiplos clientes sem multiplicar proporcionalmente os recursos internos.

O Parceiro de Canal de 2029

A questão mais difícil, e possivelmente a mais importante, é saber que tipo de Parceiro vai sobreviver nos próximos três anos. A Omdia, numa análise publicada em janeiro de 2026 sobre tendências e previsões para o mercado MSSP, identificou a especialização e a eficiência operacional como os dois fatores críticos de diferenciação para os Parceiros que queiram manter-se competitivos num mercado crescente, mas cada vez mais exigente. A generalização deixou de ser uma posição defensável e o Canal de segurança gerida está a consolidar- se mais depressa do que muitos Parceiros antecipam.

Para Duarte Sousa Lopes, o perfil do Parceiro bem-sucedido é concreto: terá investido em plataformas, know-how, processos e recursos humanos; terá aprendido com cada cliente e realimentado essas aprendizagens em melhorias da sua própria atuação; terá fidelizado clientes pela qualidade dos serviços e pela capacidade de os aconselhar “num roadmap de capacitação progressiva que vai muito além da venda de soluções pontuais”; e terá resolvido o problema mais difícil de todos, que é reter talento numa área onde a rotatividade é alta e a concorrência por profissionais qualificados é global. “Terá ainda retido e motivado os seus colaboradores através de desafios relevantes, do impacto positivo que geram nos clientes finais e de formação contínua, essencial numa área sempre em mudança como é a cibersegurança”. Num setor com 4,8 milhões de postos por preencher globalmente, os profissionais qualificados têm opções. O Parceiro que não oferecer desenvolvimento e propósito perderá os seus recursos mais valiosos para quem o fizer. Os que ficarem para trás não serão os que tentaram e falharam; serão os que não tentaram de todo.

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