Henrique Carreiro em 2022-6-15

OPINIÃO

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Uma fábrica longe de mais

Ainda o anúncio do Macbook Air está inscrito em tinta fresca e já se fala de que as suas quantidades serão inicialmente muito limitadas devido a problemas com a cadeia de produção

As fábricas da Quanta, da Pegatron e da Foxconn que produzem para a Apple (e, na prática, para inúmeros outros fabricantes de PC) ainda estão a ser afetadas pelas políticas anti-pandemia da China, mais restritivas do que já acontece em praticamente todos os países do ocidente. Por outro lado, muitos outros produtos ainda estão presos nas cadeias logísticas, o que pode indicar que para outras categorias de produtos de consumo poderá haver em breve um excesso de disponibilidade, com as consequências bem conhecidas de excesso de inventário e saldos. Quando se pensava que com o abrandar da pandemia, as cadeias logísticas poderiam estar a entrar num período de relativa normalidade, na verdade não. A invasão da Ucrânia pela Rússia criou – para além da catástrofe humanitária na Ucrânia – toda uma nova série de desafios, que não serão fáceis de desfazer. Por outro lado, tensões exacerbadas entre a China e os países do Pacífico, levam a temer que a turbulência – e eventuais vagas futuras de sanções – não estarão afastadas ainda. Tornou-se evidente, nos últimos meses, que a dependência europeia face à energia russa não foi necessariamente uma ideia brilhante e poderá tornar-se igualmente evidente que o mesmo poderá acontecer face à capacidade produtiva da China. Esta, claramente, muito mais difícil de reverter ou mitigar do que a face à Rússia, dado que o Ocidente perdeu essencialmente a capacidade produtiva – não de desenho, mas de produzir – de praticamente todos os produtos físicos das tecnologias de informação.

As fragilidades recentemente agudizadas nas cadeias logísticas têm levado a um repensar de quais as fontes fiáveis e a reforçar e de quais aquelas de que não é possível continuar tão dependentes. Passou a falar-se, nas cadeias de abastecimento, do conceito de “ friend-shoring”, isto é da criação de redes de países que confiam uns nos outros para abastecimentos críticos, nomeadamente reforçando capacidades produtivas em áreas adequadas a cada um, uma vez que é virtualmente impossível a qualquer país reforçar todas as áreas ao mesmo tempo. Obviamente, é uma oportunidade a não desperdiçar para Portugal, não para uma impossível reindustrialização, mas para uma modernização e diversificação do tecido produtivo – já que historicamente Portugal tem tido capacidade produtiva não apenas no bem conhecido setor automóvel mas também em muitas áreas que a seu tempo foram de elevada integração tecnológica e que se perderam por deslocalização. Não é impossível que regressem, assim exista vontade de investidores e capacidade política para sermos um “hub” de “ friend-shoring” para além dos de “near shore” em que entretanto nos especializámos.

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