Henrique Carreiro em 2025-12-10

OPINIÃO

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Quando a fotorresistência entra na diplomacia

Em finais de novembro, no desenrolar da crise diplomática entre Pequim e Tóquio, começaram a circular nas redes sociais chinesas alegações de que o Japão teria suspendido o fornecimento de película fotorresistente à China

Quando a fotorresistência entra na diplomacia

Falava-se que empresas como a Canon, a Nikon e a Mitsubishi Chemical estariam a atrasar entregas e assistência técnica, numa espécie de “embargo silencioso”. Até ao momento (início de dezembro) não há confirmação de qualquer proibição formal, mas o simples rumor bastou para desencadear pânico entre analistas e correspondente especulação na bolsa.

O alarme não é difícil de entender. A película fotorresistente é um material crítico para a litografia de semicondutores: o revestimento sensível à luz que permite gravar padrões sub-microscópicos nas wafers de silício. Pequenas variações na respetiva pureza podem significar linhas defeituosas e lotes inteiros inutilizados. O Japão domina mais de 70% deste mercado e quase todo o segmento de alto desempenho, incluindo os produtos usados em litografia EUV (a usada nos chips mais avançados, nomeadamente em processadores de computadores e smartphones, assim como GPU). A China, apesar do investimento massivo na área, continua fortemente dependente de importações. E a película fotorresistente não é facilmente armazenável: a sua vida útil conta-se em poucos meses. Um corte de fornecimento não é um mero incómodo; é a possibilidade real de parar linhas de produção.

O episódio surge num momento em que o novo governo japonês adopta uma posição mais confrontacional em relação à China, em particular no dossier de Taiwan, e em que Pequim já respondeu com medidas de pressão económica, desde a suspensão de importações de produtos japoneses até alertas de viagem para os seus cidadãos. Num cenário de tensão elevada, um ajuste discreto nas exportações de materiais sensíveis pode funcionar como mensagem política sem nunca ser declarado como sanção.

Mais do que provar se existe ou não um embargo à película fotorresistente, o caso expõe a fragilidade estrutural das cadeias de valor dos semicondutores. A discussão deixou de estar apenas nas máquinas de litografia ou nas GPUs e subiu para um nível mais abstrato: o controlo de fórmulas químicas, patentes e know-how acumulado em nichos industriais muito específicos. Quando um boato sobre um polímero especializado é suficiente para reescrever planos industriais de um país inteiro, percebemos até que ponto a geopolítica entrou, literalmente, na camada sensível do chip.

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