Henrique Carreiro em 2025-11-11

OPINIÃO

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O software de controlo deste avião foi “vibe coded”

Em 1969, pela primeira vez, um homem pisou a Lua. O software que o colocou lá foi escrito em Assembly de um computador que dependia de uma memória que era tecida — sim, tecida, com fios, passados à mão por operárias especializadas. Anos de preparação foram necessários, mas, no fim, a missão foi, como se sabe, bem-sucedida. Foi neste projeto que nasceu a própria expressão “engenharia de software”

O software de controlo deste avião foi “vibe coded”
@MediaNext

Muito caminho andado até hoje, quer em termos das capacidades dos computadores, quer da forma como são programados. É certo que há mais de cinquenta anos que ninguém lá regressou — dito de outro modo, não há missões tripuladas à superfície da Lua desde 1972. Não são chamadas ao caso as causas. O que é chamado é que, quando inevitavelmente voltarem a haver (há planos até ao final desta década), será que o software é agora “vibe coded”?

A dúvida não é descabida. Cada um dos atuais hyperscalers se gaba das elevadas percentagens de código que são já escritas por recurso a IA. A Google, por exemplo, refere que mais de 30 por cento do novo código é feito com recurso a IA. A Microsoft também parece estar no mesmo valor mágico dos 30 por cento. Imagine-se que a Boeing ou a Airbus diziam o mesmo: “30 por cento do código de controlo dos nossos aviões é agora feito com recurso a IA”.

Como passageiros, isso deixar-nos-ia tranquilos ou inquietos? Seria algo que as empresas publicitariam sequer?

O exemplo pode propagar-se: que software se admite de bom grado que seja feito com recurso a IA? Aquele que não coloca vidas em risco? Exclui-se, portanto, todo o “mission critical”. Mas admite-se o de gestão? Admite-se o ERP, por exemplo? Onde é que se coloca a fasquia?

Poder-se-á sempre dizer que, no fim de contas, não faz diferença, porque a responsabilidade é sempre da empresa que o produz. Mas a “responsabilidade” devolve vidas perdidas ou prejuízos irreparáveis?

Tem havido falhas sucessivas e misteriosas — ou nem tanto — nos serviços dos hyperscalers, assim como tem havido uma baixa de qualidade nos updates de software de sistema de vários fornecedores, reconhecida por quem os usa diariamente. Os padrões de qualidade e robustez do software baixaram. É claro que os fornecedores assumem a responsabilidade. Mas quem sofre as consequências, que faz? Processa empresas que valem mais do que o PIB de um país de média dimensão?

E estamos no início, por assim dizer. Se em dois anos, em vez de trinta por cento, forem sessenta por cento, ficaremos tranquilos se o software do avião, da torre de controlo, da máquina de suporte à vida, do ERP, da máquina fiscal, for “vibe coded”?

Talvez seja altura de começarmos a fazer perguntas, antes que não haja já lugar para elas.

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