Andreia Soares, Senior Manager de IT da Adecco Permanent Recruitment Norte em 2026-10-19
Durante muito tempo, recrutar para o setor tecnológico significou procurar correspondências quase perfeitas entre uma função e um currículo
Andreia Soares, Senior Manager de IT da Adecco Permanent Recruitment Norte
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Determinada formação, número mínimo de anos de experiência, domínio de ferramentas específicas e um percurso profissional linear funcionavam como filtros naturais. Num mercado em rápida transformação, essa lógica começa a revelar-se demasiado rígida. A velocidade com que surgem novas tecnologias, linguagens, plataformas e modelos de trabalho tornou mais difícil definir talento apenas a partir do que alguém já fez. O que uma função exige hoje pode mudar significativamente em pouco tempo. Por isso, as empresas começam a deslocar o foco do percurso para as competências: o que um profissional sabe efetivamente fazer, como resolve problemas, até que ponto consegue transferir conhecimento entre contextos e com que rapidez aprende. É esta mudança que está na base dos modelos skills-first. Não significa ignorar experiência, formação ou especialização técnica. Significa deixar de as tratar como únicos indicadores de capacidade. No setor de IT, onde a evolução tecnológica é particularmente rápida, avaliar apenas títulos, certificações ou anos de experiência pode excluir profissionais com competências relevantes e elevado potencial de adaptação. Esta abordagem ganha ainda mais importância num mercado em que muitos dos perfis procurados são escassos. Quando uma empresa define uma função através de uma lista demasiado extensa de requisitos obrigatórios, reduz inevitavelmente o universo de candidatos. Ao identificar quais são as competências verdadeiramente críticas para desempenhar a função e quais podem ser desenvolvidas, abre espaço a percursos menos lineares, competências transferíveis e profissionais provenientes de áreas próximas. O desafio está em fazer esta transição com critério. Recrutar com base em competências não significa baixar a fasquia. Pelo contrário, exige maior precisão na definição do que é realmente necessário para ter sucesso numa função. Obriga as empresas a distinguir aquilo que é essencial do que é apenas desejável e a avaliar os candidatos através de evidências mais concretas, seja pela resolução de problemas, exercícios técnicos, projetos desenvolvidos ou capacidade demonstrada de aprendizagem. Esta mudança também reforça a responsabilidade das organizações. Se deixam de procurar apenas profissionais “prontos” e passam a considerar potencial e proximidade de competências, têm de criar condições para desenvolver esse talento. Upskilling, reskilling, mobilidade interna e aprendizagem contínua deixam de ser iniciativas complementares e passam a integrar a estratégia de talento. Num setor em constante evolução, contratar e desenvolver tornam-se duas partes do mesmo processo. Para os profissionais, esta mudança também altera a forma de construir uma carreira. O valor deixa de estar apenas na acumulação de cargos ou certificações e passa a depender cada vez mais da capacidade de demonstrar competências, acompanhar a evolução tecnológica e aplicá-las a novos problemas. Profundidade técnica continua a ser essencial, mas adaptabilidade, pensamento crítico, aprendizagem contínua e capacidade de ligação ao negócio ganham um peso crescente. No fundo, a lógica skills-first responde a uma transformação mais ampla do setor tecnológico. Quando as funções mudam depressa, recrutar apenas com base no passado deixa de ser suficiente para responder às necessidades do futuro. As empresas que conseguirem identificar competências com maior precisão, reconhecer potencial e criar percursos de desenvolvimento terão acesso a um universo de talento mais amplo e estarão mais preparadas para responder à mudança. O futuro do recrutamento em IT não passa por eliminar critérios, mas por torná-los mais inteligentes. Num mercado em que a tecnologia evolui continuamente, a vantagem estará cada vez menos em encontrar o currículo perfeito e cada vez mais em reconhecer as competências certas para aquilo que a organização precisa de construir a seguir. |