Jorge Bento em 2025-9-15
Para quem gere equipas, a promessa da inteligência artificial traz uma tentação difícil de resistir: automatizar o máximo possível, reduzir custos e acelerar resultados. Mas o preço escondido pode revelar-se demasiado alto
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Sempre existiu o dilema da conveniência versus competência. Quando deixámos de fazer cálculos aritméticos à mão, ganhámos em velocidade e produtividade, mas perdemos “músculo” cerebral. O balanço foi, apesar de tudo, positivo, é certo, mas ainda hoje me surpreende ver colaboradores mais jovens recorrer à IA para resolver equações do primeiro grau — e desconfio que já nem se lembrem bem o que são equações... A Gartner chama a isto “AI lock-in”: a dependência que corrói as competências humanas. Quanto mais confiamos na máquina, menos sabemos fazer por nós próprios. E quando falhar, quem corrige? Como posso dizer que sou programador se já não escrevo uma linha de código? Que sentido crítico mantenho se aceito cegamente o caminho e o resultado? O alerta é sério na formação. Até 2028, quatro em cada dez novos colaboradores poderão ser treinados sobretudo por IA, contra menos de 5% hoje. Menos supervisão, menos partilha, menos cultura viva dentro das equipas. E até 2030, metade das empresas pode enfrentar falta irreversível de competências críticas, de acordo com a Gartner. Isto não é apenas uma questão técnica, é estratégica. Se não houver pessoas capazes de desafiar os resultados da IA, a inovação fica bloqueada porque ninguém pensa para além do que a máquina produz. Quando os sistemas falham, a operação pode parar porque já não existe conhecimento interno para reagir. E a substituição não é simples: em áreas críticas como o IT, contratar alguém pode levar muitos meses. Ou seja, não há soluções rápidas. A Gartner não dramatiza, mas avisa: é preciso manter supervisão humana, valorizar os seniores e não deixar morrer as competências que sustentam pensamento crítico. Automatizar é inevitável; abdicar da inteligência humana não pode ser opção. Caso contrário, ficamos com organizações rápidas, mas frágeis, e quando a IA falhar, quem vai estar preparado para responder?
Diretor do IT Channel |