Henrique Carreiro em 2026-4-15

OPINIÃO

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Hélio: uma nova frente de batalha na indústria dos semicondutores

A guerra no Médio Oriente expôs uma fragilidade que raramente entra nas conversas sobre tecnologia

Hélio: uma nova frente de batalha na indústria dos semicondutores

O hélio, muitas vezes falado apenas em termos de usos marginais, é um recurso crítico em processos industriais de elevada precisão, incluindo o fabrico de semicondutores. Quando a produção abranda ou o transporte se complica, a perturbação deixa de pertencer apenas ao setor energético e passa a atingir diretamente a cadeia industrial ligada aos processadores e outros componentes críticos. O Qatar ocupa aqui um lugar central. A sua relevância no mercado mundial de hélio faz com que uma crise regional tenha efeitos imediatos muito para lá da região. Se a tensão militar afeta a produção e agrava a incerteza em torno de Ormuz, o abastecimento torna-se mais incerto, os contratos endurecem e a margem de segurança desaparece num mercado que já era estreito.

Nos semicondutores, o hélio é usado onde a margem para erro é mínima. Surge em operações de arrefecimento, purga e deteção de fugas, em contextos onde a estabilidade do processo pesa tanto como a qualidade dos materiais ou a sofisticação do equipamento. A próxima geração de tecnologias de litografia a ser desenvolvida na Noruega, em concorrência direta com as máquinas da ASML, numa empresa com o nome de Lace Litography, é baseada em átomos de hélio. Quando o fornecimento falha, o impacto começa por surgir nos custos e na dificuldade em garantir abastecimento regular. Depois chega aos prazos, à gestão da capacidade e à pressão sobre o investimento.

Durante anos, a soberania tecnológica foi discutida sobretudo a partir das fábricas, dos subsídios e das máquinas de litografia. O episódio atual mostra outra coisa: a solidez do setor também depende de matérias discretas, concentradas em poucos pontos do mapa e vulneráveis a crises geopolíticas. O hélio tornou visível essa dependência. Isso obriga a pensar menos em anúncios e mais em redundância: reservas estratégicas, reciclagem, diversificação de fornecedores e contratos capazes de amortecer choques. Sem esse trabalho silencioso, cada conflito relevante continuará a transformar-se, mais cedo ou mais tarde, num problema industrial com impacto tecnológico bem concreto.

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