Jorge Bento em 2026-2-06
Nos últimos dois anos, o Canal português de serviços IT entrou num novo ciclo. A aquisição de Parceiros nacionais por empresas internacionais e fundos de investimento acelerou de forma clara, com mais de uma dezena de operações conhecidas num mercado que, pela sua dimensão, raramente assistia a movimentos desta escala. Não se trata de episódios isolados, mas de uma tendência estrutural
|
Este movimento era antecipável desde 2020, quando a elevada liquidez dos fundos começou a procurar ativos com retorno previsível. A consolidação iniciou-se nos principais mercados europeus e só mais tarde chegou a Portugal, muitas vezes de forma indireta, através de grupos espanhóis já adquiridos. Em paralelo, alguns fabricantes, pressionados por mercados estagnados, optaram por reforçar a área de serviços através da compra de empresas já em operação, por ser a via mais rápida para ganhar escala e capacidade de execução. A lógica de gestão destes novos acionistas difere da tradição do Canal português. O foco está na margem no curto prazo e na eficiência financeira. Fatores como cultura, identidade local ou relação histórica com clientes tendem a perder peso. Isso ajuda a explicar os choques culturais após as aquisições e a saída frequente dos fundadores, seja por acordo prévio ou por desgaste. Num mercado onde algumas empresas têm segundas linhas frágeis, o risco de perda de continuidade é real. Para os fabricantes, a escala é, em regra, benéfica. Menos Parceiros, mas maiores e mais estruturados, facilitam a gestão do ecossistema e a previsibilidade da execução. Para os Parceiros independentes, o cenário é mais exigente. Num mercado mais concentrado, a ausência de relações fortes com fabricantes e distribuidores pode traduzir-se em perda de relevância. Ainda assim, a independência continua a ser uma oportunidade. Os Parceiros que permanecem fora da consolidação não estão condicionados por KPI externos nem por ciclos financeiros impostos. Isso permite maior agilidade, maior proximidade ao cliente e liberdade para ajustar propostas e modelos de serviço. O desafio está em transformar essa liberdade numa vantagem competitiva clara. A consolidação não é boa nem má por definição. É um sinal de maturidade do mercado. O impacto dependerá das escolhas feitas por investidores, fabricantes e Parceiros. Entre a escala e a independência, esse equilíbrio será determinante para o futuro do Canal português.
Diretor do IT Channel |