Jorge Bento em 2026-10-07
Durante uma década, três escolhas fizeram-se quase sozinhas. A cloud vinha primeiro, a virtualização era VMware e o hardware era um custo previsível, renovado a cada ciclo. Ninguém perdia o emprego por seguir este guião. Em 2026, as três estão em aberto ao mesmo tempo
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A primeira caiu por decisão alheia. As mudanças no licenciamento da virtualização obrigaram muitas organizações a reavaliar uma camada que ninguém questionava. Como ficou claro no debate desta edição, ninguém está a sair da Broadcom por não gostar da tecnologia, mas por tudo o que está à volta dela. A segunda caiu pelo preço. O hardware deixou de ser previsível, ao ponto de haver parceiros que preferiram pagar penalizações a avançar com projetos que já não davam margem. Quando o custo de um servidor muda em poucos meses, a renovação do parque deixa de ser rotina e passa a ser uma decisão. A terceira é a mais profunda. A pergunta deixou de ser “para que cloud vamos?” e passou a ser “onde estão os dados e quem lhes pode aceder?”. A NIS2 e a DORA pressionam o setor privado e o Plano Nacional de Nuvem Soberana obriga a Administração Pública a classificar os seus dados até meados de 2027. Portugal atrai os data centers dos hyperscalers, mas ter os data centers não é o mesmo que ter os dados. Isoladas, nenhuma destas forças mudaria o mercado. Juntas, devolvem ao cliente decisões que há muito estavam tomadas por defeito. O cloud-first dá lugar ao cloud-smart: cada workload onde faz sentido, pelo custo, pelo controlo e pela lei. Para o canal, é a primeira vez em muitos anos que a arquitetura do cliente volta a estar em discussão. E isso exige mais do que conhecer o catálogo: exige perceber de licenciamento, de custo total, de regulação e do negócio de quem compra. O parceiro que se limita a cotar a alternativa mais barata ao que já existia fica com o negócio de curto prazo. O que ajuda o cliente a pensar o conjunto fica com a relação. O piloto automático desligou-se e o cliente voltou a ter de conduzir. Quem não o ajudar a decidir arrisca-se a ser mais uma das escolhas que ele está a reavaliar.
Diretor do IT Channel |