Jorge Bento em 2026-3-09
Durante décadas, uma grande crise internacional tinha um efeito previsível: a economia contraía rapidamente. A Primeira Guerra do Golfo é um bom exemplo. Entre a invasão do Kuwait pelo Iraque, em agosto de 1990, e a sua libertação, em fevereiro de 1991, passaram seis meses em que os mercados viveram num estado de suspensão enquanto os aliados mobilizavam forças. A incerteza dominava e a atividade económica reagia de imediato
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O mesmo aconteceu depois. Os ataques de 11 de setembro de 2001 provocaram um choque abrupto na economia global e abriram um período de instabilidade que culminaria na Segunda Guerra do Golfo. Foi intenso, mas relativamente breve. Em 2007, a crise financeira derrubou mercados, empresas e colocou milhões de cidadãos em falência pessoal. Depois a sucessão de disrupções intensificou-se. Cada uma por si dava para citar os R.E.M.: “It’s the End of the World as We Know It” Só que já não acontecem de década em década. Agora chegam em série. Em 2020, a pandemia paralisou o mundo durante meses. Em 2022, a guerra na Ucrânia empurrou a inflação para níveis que o mundo desenvolvido não via há décadas. Em 2024, o Médio Oriente torna-se uma visão de Dante. Em 2025, Trump declara o “Liberation Day”: tarifas até 150%, ataques aos valores europeus “decadentes” e desprezo pela NATO, o guarda-chuva da nossa tranquilidade. Em 2026, não há chips para todos. A liquidez da IA paga o que for preciso para encher os GW de data centers que já foram alocados. E não há cotação a um cliente que aguente uma semana se tiver “DDR insight”. Neste momento em que escrevo este texto, o Irão coloca em fogo todo o Golfo em resposta ao ataque israelo-americano, fecha Ormuz no tudo ou nada da sobrevivência do regime, mas não é o “End of the World as We Know It”, e em boa parte o business continua quase as usual. Talvez estejamos a entrar numa fase em que a disrupção deixa de ser exceção para se tornar contexto. Empresas, governos e cadeias de fornecimento aprenderam a operar em modo de instabilidade crónica. Não é que os choques sejam menores; é a capacidade de absorção que ficou maior. A questão é saber se esta aparente imunidade dos decisores não traz um risco: a normalização pode transformar-se em complacência. Quando a disrupção passa a ser o ambiente de fundo, o sentido de urgência dilui-se, até ao dia em que surge uma crise que não cabe no manual de resiliência. E então a surpresa volta a ser total.
Diretor do IT Channel |