2015-10-19

ENTREVISTA

“Tudo o que vier de futuro na Microsoft vai passar pelo Windows 10”

Pouco mais de três meses após o lançamento do Windows 10, damos a palavra a Rita Santos, Windows and Surface Business Group Lead na Microsoft Portugal. Com o fim dos grandes lançamentos do sistema operativo e a chegada de um novo modelo de relacionamento com o cliente, o Windows-as-a-Service, o que muda no negócio dos Parceiros?

O Windows 10 chegou a 29 de julho e marcou o início de uma nova era na Microsoft, tendo sido anunciado como o último grande lançamento do fabricante, sendo a partir de agora atualizado através da Internet e sendo gratuito para sempre para os utilizadores que fizerem o upgrade até 29 de julho de 2016.

Em dois meses, o novo sistema operativo foi instalado em 110 milhões de máquinas, no mundo inteiro. Em Portugal, a quota do Windows é de 16% (dados StatCounter), com um ritmo de adoção duas vezes superior ao do Windows 7 e 8.

O novo modelo de entrega, que a Microsoft designa “como um serviço”, inaugura uma mudança de paradigma na entrega do sistema operativo que também afeta os Parceiros. A responsável pelo Windows e pelo Surface em Portugal, Rita Santos, esclarece ao IT Channel esta e outras questões importantes para o Canal.

 

IT Channel – Que balanço faz a Microsoft desde o lançamento do Windows 10?

Rita Santos – O número de downloads no consumo superou até as expectativas da Microsoft. Este é um momento absolutamente único para o Windows. Pela primeira vez temos um sistema operativo que é gratuito e cujo download podem ser feito através da Internet. A partir de agora, todos os clientes – sejam os de consumo, sejam os clientes empresariais – vão poder fazer upgrades sucessivos do Windows à medida que as novas funcionalidades vão estando disponíveis.

Se no consumo isto é já uma mudança de paradigma, nas empresas é ainda mais. Para estas, há aqui um momento muito importante. O deployment, como era tradicionalmente feito, com um wipe and reload do sistema operativo, morreu e passamos agora a ter um in place upgrade. Significa que todo aquele trabalho de configuração de uma máquina deixou de ter necessário. Isto é feito através de um sistema de gestão, o system center configuration manager, que gere de modo automático a forma como estes upgrades são feitos por utilizador. Como estes PCs estão ligados à Internet, significa que o SO vai estar sempre a procurar os drivers que estão disponíveis e a reinstalar aquele firmware ou software que for sendo necessário. O facto de isto ser tudo feito automaticamente, por oposição a ser feito com um tipo de escrutínio e parametrização por parte das equipas de IT, simplifica muitíssimo o seu trabalho.

Com o Windows 10 é possível tirar partido das parametrizações que já estão feitas no system center configuration manager, para se poder fazer o deployment de um modo automático. Cada vez que que existir uma nova versão do Windows 10 Enterprise disponível, o cliente que tem Windows 10 Enterprise SA, ou seja, Software Assurance, pelo qual tem sempre direito às novas versões do sistema operativo, pode fazer automaticamente esse deployment. Isto é o designamos de Windows-as-a-Service.      

Neste novo modelo, passa a existir um relacionamento direto entre a Microsoft e o cliente. Como fica o papel dos Parceiros e sobretudo o seu negócio?

Os Parceiros que melhor entenderem esta migração para a Cloud são os que vão estar mais preparados para o futuro. Há aqui um trabalho de recuperação dos últimos computadores que ainda estão em XP, que pode ser feito pelos Parceiros que realizam um trabalho de deployment mais tradicional.

Na migração de Windows 7 para Windows 10, ainda há trabalho de deployment importante por realizar, que no fundo passa por preparar a estrutura do cliente para o que serão as futuras versões do Windows, e acima de tudo preparar a infraestrutura do cliente para o que são novas funcionalidades ligadas à Cloud e à mobilidade, que depois terão uma sequência a partir do sistema operativo. Quando dizemos que o SO é mais simples de implementar, temos um discurso que é um pouco ingrato...

 

Que podem interpretar esta simplificação como menos oportunidade de negócio...

Exatamente, e isso é um mito que temos de quebrar. Por um lado, é o papel da Microsoft fazer um software mais simples de implementar, que permita aos menos techies a realização de operações simples. A configuração dos rings de deployment no Windows 10, por exemplo, passa a ser muito mais fácil para qualquer gestor de uma pequena e média empresa que não seja um diretor de IT. E este pode definir o ritmo a que pretende receber novos updates nos settings do computador. O nosso papel será sempre o de apostar nesta simplificação para o utilizador.

A oportunidade de negócio para os Parceiros está no change management que esta nova realidade traz, ou seja, estarem do lado da mudança e do futuro da tecnologia. Não insistir no que é o deployment tradicional e comprar esta nova modalidade de deployment Windows. O trabalho dos Parceiros passa depois por preparar estas pequenas empresas para uma gestão de dispositivos móveis mais fácil e para a adoção dos formatos de segurança que os dispositivos da empresa precisam. Passará pelo Office 365, pelo Azure. O Windows 10 é a porta para todos esses serviços.

 

Continuam então a existir oportunidades para outros tipos de Parceiros?

Temos Parceiros de deployment, de licenciamento e de solução. Estes últimos tipicamente juntam tudo o que é trabalho de infraestrutura com algum trabalho aplicacional, seja no desenvolvimento da compatibilidade de aplicações com o SO, seja no desenvolvimento de novas aplicações de negócio. Aí há também uma oportunidade interessante. À medida que tudo isto se vai tornando mais simples, também é mais fácil aos Parceiros ficarem libertos para outras áreas. Criámos uma plataforma de desenvolvimento de aplicações universais onde também é mais fácil aos Parceiros chegarem ao desenvolvimento de aplicações com menos esforço, com algumas ferramentas simples. Essas aplicações de negócio podem transformar o modo como as empresas estão presentes no mercado.

Pessoalmente, vejo uma oportunidade tremenda em tudo o que é field force. São tipicamente trabalhos que envolvem papel e erro humano e que, se forem realizados em ambiente digital, são agilizados.

Para os Parceiros existe ainda outra oportunidade importante. Do ponto de vista do desenvolvimento de aplicações, já existem algumas APIs de reconhecimento e leitura de voz que podem ser introduzidas nas apps. Há formas de capturar comandos de voz em português que podem ser reconhecidos pelas aplicações e podem gerar algum tipo de ação.

 

Como está a Microsoft a apoiar os Parceiros a entender todas essas possibilidades?

Através do nosso roadshow de Readiness a acontecer por várias cidades do país. Temos também um Yammer de Parceiros muito ativo, através do qual é possível que entrem em contacto connosco. Recebo diariamente muitas questões.

 

Quais as dúvidas mais frequentes?

Inicialmente estavam relacionadas com a gratuitidade do Windows 10 Pro, que é sempre gratuiro desde que a licença anterior seja original. Outra pergunta frequente diz respeito à possibilidade de reinstalar a máquina de origem. Ou seja, as pessoas interrogam-se sobre o que acontece à gratuitidade do Windows 10 se o disco dessa máquina ficar inutilizado. A partir do momento em que é instalado numa máquina, o Windows 10 fica associado àquela máquina, nos nossos servidores. Mesmo que o disco se estrague, um novo disco vai buscar na BIOS do computador aquela identidade, daquela licença, e permite reinstalar o sistema operativo de modo gratuito, mesmo que já se tenham passado os 12 meses da gratuitidade.

A terceira questão frequente está relacionada com o Windows-as-a-Service e ao modo como o suporte é dado nestas várias versões. A Microsoft suporta sempre a última versão. Como os upgrades são sequenciais, mas também cumulativos. Todo o software fica disponível de uma forma acumulada, o que significa que eu sei, enquanto Microsoft, que estou a suportar sempre a última versão.

O que antes eram os service packs do sistema operativo, pequenas atualizações de funcionalidade, passam a estar disponíveis automaticamente caso o cliente queira optar por este formato de atualização.

Haverá outro?

Vamos manter o formato anterior de atualização, que chamamos de Long Term Servicing Branch (LTSB), que é o que temos atualmente: o cliente tem cinco anos de suporte, mais cinco de suporte extended e está a comprometer-se em não fazer atualizações de funcionalidades durante um período que vai de dois a três anos, até uma nova release. Isto significa que, o cliente que opte por este formato, vai continuar a ter que fazer deployments como faz hoje, com wipe and realoads, que não suportam aplicações universais, que não vão ter Windows Business Store e que recomendamos apenas para quem é utilizador crítico de negócio.

 

Os utilizadores empresariais sempre vão acesso a informação sobre  os patches de segurança?

O facto de ter uma atualização do Windows 10 Enterprise com um determinado conjunto de funcionalidades faz com que possa continuar a publicar os patches de segurança de acordo com essas funcionalidades. No entanto, não as posso revelar porque não sei quais serão. À medida que for publicando novas funcionalidades no sistema operativo, vou ter que fazer os patches de segurança de acordo com as mesmas. Uma que vez que estamos a prever fazer novas atualizações ao sistema operativo duas a três vezes por ano, não sabemos ainda que novas funcionalidades serão essas.

Aquele clientes empresariais que optarem por manter o LTSB terão as versões de Windows tal como elas são publicadas até à data. Esses clientes continuam a ter a visibilidade dos patches de segurança tal como tinham até agora. O que a Microsoft acrescentou foi uma espécie de visibilidade entre estes dois mundos. Às primeiras versões de current branch for business vamos dar alguma visibilidade para dar segurança aos clientes.

O Windows 10 pretende ser a linguagem que falta à Internet of Things?

A Internet of Things é muito interessante para muitos cenários empresariais. No caso do Windows 10, a vantagem é que a IoT passa a ser gerida do mesmo modo que qualquer outro dispositivo dentro da empresa. Há um exemplo, inspirado numa história real. Se eu tiver conteúdos digitais de media e tiver uma loja com o mesmo tipo de conteúdo a passar em digital signage, não preciso de ter um computador a fazê-lo. Mas preciso de, através de sensores, saber quando há luz suficiente para passar esse conteúdo, por exemplo. Antes já podia ter isto num sistema isolado, com um software dedicado. Agora posso ter esse mesmo ecrã, com essa mesma inteligência, que não precisa de estar residente nesse local, pode até estar na infraestrutura de IT. E aquele dispositivo é gerido da mesma maneira.

 

Falando de hardware, qual a atual quota de mercado do Surface?

Temos 20% de quota de mercado, de acordo com as últimas leituras da Gfk. O que gostava de ver, tanto com o Surface como com outros dispositivos Windows, é uma transformação nas empresas que tire partido da tecnologia que já existe no consumo. As pessoas consideram que a tecnologia que têm disponível em casa é superior à que encontram na empresa. Esperamos que com esta nova forma de atualizações do Windows que isso também mude um pouco, porque quando chegam a casa as pessoas veem um sistema operativo atual e em linha com as suas necessidades.

Há uma transformação de que estamos à espera, em Portugal, e que tem sido mais lenta porque as empresas não têm ainda capacidade de investimento. Seja através dos Surface, dos dois-em-um Windows ou dos smartphones, as empresas têm a oportunidade de mudarem a forma como estão presentes no seu negócio, adotando nova tecnologia, mais móvel.

O próximo passo importante é as empresas adotem o Windows 10 nos seus utilizadores. Tudo o que vier de futuro na Microsoft vai passar pelo Windows 10.

 

Como vê a Microsoft a chegada do iPad Pro?

A Apple é muito pouco credível com o iPad Pro, porque está a tentar sair da sua zona de competência. A grande vantagem do Surface Pro não tem só a ver com hardware, mas com o facto de lá dentro estar o Windows Pro, e isso é o que é realmente relevante para as empresas do ponto de vista de gestão empresarial.

O Surface tem tido um sucesso importante no consumo. Recentemente, expandimos o Canal de Surface para novos revendedores autorizados. Alargámos porque acreditamos que o negócio já está suficientemente estável para permitir a interação do distribuidor, que é a Tech Data, com um conjunto de outros Parceiros, e isto vem a propósito do que também considero uma das grandes oportunidades de transformação das empresas: a substituição de um hardware que é tipicamente composto por um laptop, mais um tablet, mais um telefone. Há aqui a oportunidade de ter, com o Surface ou com outros dispositivos Windows dois-em-um, um tablet que tem a competência de um PC.

 

 

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