Rui Damião em 2026-10-09

A FUNDO

Mesa-Redonda

Servidores, armazenamento e virtualização: o fim das decisões por defeito

As alterações ao licenciamento da virtualização, a pressão da inteligência artificial sobre servidores e armazenamento e as exigências de soberania dos dados obrigam os decisores de IT a reavaliar escolhas que, durante uma década, foram automáticas. Arrow, em representação da HPE, Lenovo, QNAP e Red Hat partilham a sua visão sobre o mercado de servidores, armazenamento e virtualização

Servidores, armazenamento e virtualização: o fim das decisões por defeito
Samsul / Adobe Stock

Quando olham para a infraestrutura empresarial em 2026, qual é a mudança mais relevante que estão a observar nas organizações? E que fatores pesam hoje mais nas decisões: desempenho, custo, eficiência energética, segurança, soberania dos dados ou flexibilidade?

Sérgio Seabra, Senior Solutions Architect, Red Hat: “O principal fator é o financeiro, principalmente desde o fenómeno do ‘RAMaggedon’. A maior parte das organizações veem-se a braços com o crescimento exponencial de custos. A seguir ao custo, a soberania dos dados é o fator mais importante para estas migrações. Tivemos Parceiros que tiveram de desistir de projetos porque os preços aumentaram muito em poucos meses e preferem pagar as multas do que perder a sua receita”

Nuno Santos, Enterprise Sales Representative – Infrastructure Solutions Group, Lenovo: “Há quatro fatores que motivam as decisões dos clientes. A soberania dos dados é um dos fatores que tem muita importância para o sucesso dos projetos. Outro é a segurança que, em conjunto com a soberania dos dados, lidera o sucesso dos projetos. Depois, temos a eficiência energética e também a flexibilidade das soluções que os clientes adquirem para poderem crescer de forma sustentável”

Adrián Groba, Country Manager, QNAP: “O custo, a soberania e a eficiência são os pontos mais importantes. Também é importante a disponibilidade porque podemos ter uma arquitetura muito bonita e funcional no plano e até com um custo aceitável, mas a disponibilidade é uma questão muito, muito importante, assim como a monitorização e a capacidade do fabricante de trabalhar com ferramentas de monitorização”

Mário Magalhães, Pre-Sales and Solutions Architect, Arrow, em representação da HPE: “Há três fatores: o primeiro é a questão do custo, não apenas o custo da aquisição, mas também o custo total. O segundo é a segurança e a soberania dos dados onde, com a NIS2 e com a DORA, as empresas têm de saber onde é que estão os seus dados e em quanto tempo o conseguem recuperar. O terceiro é a pressão da Inteligência Artificial [IA] que pesa na eficiência energética e o arrefecimento dos data centers”

Depois de anos de migração para a cloud pública, há organizações a trazer workloads de volta para on-premises ou para modelos híbridos, por razões de custo, controlo e soberania. O que estão a ver no mercado português e que papel tem o Parceiro nessa decisão?

 

“Mais do que olhar para as soluções que temos dentro de casa, temos de olhar para aquilo que são os objetivos que os clientes querem atingir para o seu negócio”


Nuno Santos, Enterprise Sales Representative – Infrastructure Solutions Group, Lenovo

Nuno Santos, Lenovo: “O mercado português está a viver um momento extraordinário de emancipação e maturidade digital. As organizações que no passado correram para colocar os seus workloads na cloud, hoje fazem uma análise aos seus workloads e muitos trazem para o on-premises por questões de soberania dos dados e do controlo dos mesmos, para além do controlo de custos. Os Parceiros têm o papel de mentores estratégico e já não vendem só caixotes e licenças”

Mário Magalhães, Arrow, em representação da HPE: “Há, efetivamente, uma procura maior pelos ambientes on-premises e híbridos. Se pensarmos numa primeira vaga de cloud-first, o que vemos hoje é um mindset diferente, de cloud-smart, que consiste em posicionar os workloads onde fazem mais sentido. O Parceiro tem um papel muito importante nesse ponto porque é ele que vai ajudar o cliente a fazer essas distinções”

Sérgio Seabra, Red Hat: “O papel dos Parceiros é fundamental. O cliente, por vezes, tem uma visão muito lírica do que é ir para a cloud e a maioria não conhece os riscos. Os Parceiros que apoiam continuamente o cliente podem ajudar as pessoas dessa organização a tomar decisões mais ajuizadas. Não estamos a ver uma migração de off-load da cloud para on-premises em massa. O principal fator é a governança e a soberania dos dados”

Adrián Groba, QNAP: “Estamos a viver uma revolução pragmática. É certo que há uma maior preocupação com o custo total e a previsibilidade deste custo, assim como a soberania dos dados. Existem situações em que não é possível ter uma conexão contínua à cloud, segundo os próprios fornecedores de cloud. Há fabricantes de armazenamento que têm serviços de cloud pública. Não vale a pena olharmos numa visão de cloud versus on-premises, mas sim onde é que faz sentido estar”

A inteligência artificial está a mudar o próprio servidor: aceleradores, consumo energético, arrefecimento e densidade. Que infraestrutura de computação faz sentido para uma empresa portuguesa que quer correr IA on-premises sem sobredimensionar o investimento, e como se conjuga isso com a renovação normal do parque de servidores?

Nuno Santos, Lenovo: “Hoje, a inteligência artificial já não está só circunscrita a empresas de grandes dimensões. O acesso à IA está cada vez mais democratizado; os clientes grandes lideraram o processo pela sua capacidade financeira superior, mas hoje já está mais democratizado. Um cliente, para se iniciar em soluções de inteligência artificial, já não precisa de investimentos colossais para tirar proveito da tecnologia. A renovação do parque de servidores nas empresas tem o seu período normal definido e acaba por se tornar na renovação para servidores preparados para IA”

Com o crescimento da IA e do volume de dados, que mudanças estão a verificar nas arquiteturas de armazenamento? Onde residem os principais desafios e até que ponto estas exigências obrigam as empresas a repensar o storage já instalado, do centro de dados ao edge?

“As empresas querem reduzir o número de plataformas por causa do custo; mas, por outro lado, não querem perder o acesso à melhor tecnologia disponível para o seu negócio”


Adrián Groba, Country Manager, QNAP

 

Adrián Groba, QNAP: “Há uma grande mudança de desenvolvimento de produto e está a transformar o storage porque o problema já não é a disponibilidade dos dados; é preciso alimentar os sistemas de IA com dados de forma eficiente. Agora, leva-se o modelo até aos dados e é preciso alimentar esses modelos rapidamente. Não é preciso criar uma infraestrutura do zero – e isso é muito interessante para o Parceiro. As infraestruturas podem ser mais eficazes e eficientes sem precisar de uma mudança radical”

As mudanças recentes no mercado da virtualização levaram muitas organizações a reavaliar as suas plataformas. Estamos perante uma simples procura de alternativas ou uma oportunidade para repensar a arquitetura, com containers e virtualização na mesma plataforma? Que novas competências exigem esta transformação aos Parceiros?

Sérgio Seabra, Red Hat: “Ninguém está a migrar da Broadcom porque não gostam da tecnologia, mas sim por tudo o que está à volta, da atitude e da intransigência. A esmagadora maioria das organizações viram-se a braços com a necessidade de mudar a tecnologia. Há vários players no mercado e os clientes falam com todos. Não é só resolver o problema no imediato, mas também perceber qual é o roadmap destes players porque não querem incorrer no risco de formar pessoas e fazer o investimento e ter exatamente o mesmo problema que agora têm”

Mário Magalhães, Arrow, em representação da HPE: “Há muitos clientes que chegam a nós pela questão do preço por estas mudanças no licenciamento, que multiplicaram o valor de um dia para o outro. Olhar só para a questão do preço deixa outras questões para trás; quem foca apenas neste detalhe acaba por perder uma enorme oportunidade. Se tenho de mudar a minha plataforma de virtualização, acaba por ser o momento certo para desenhar e projetar o meu data center e como quero que ele opere nos próximos anos. As máquinas virtuais vão continuar durante muitos anos, mas os Kubernetes vão começar a aparecer cada vez mais”

Como é possível controlar os custos e, ao mesmo tempo, a complexidade de ambientes onde coexistem on-premises, cloud, virtualização, containers e diferentes plataformas de armazenamento?

Adrián Groba, QNAP: “A primeira regra de base é não adicionar mais complexidade só porque existe uma nova tecnologia com um grande investimento de marketing por trás dele. Há quatro coisas que são fundamentais: ter uma visibilidade centralizada para controlar o que funciona na infraestrutura; ter políticas consistentes; escolher bem os fabricantes que tenham uma atitude de compatibilidade e transparência; e a possibilidade de automatização”

Sérgio Seabra, Red Hat: “Os clientes devem evitar a complexidade; quanto mais complexo for o nosso ambiente, mais complexa é a sua gestão. Adicionalmente, a principal barreira para uma arquitetura que permita controlar custos é a governança. A organização deve reorganizar-se para que a governança seja extremamente holística e determinística. Tem de existir uma estrutura hierárquica muito bem definida para que não apareçam os famosos cogumelos”

Mário Magalhães, Arrow, em representação da HPE: “O problema de grande parte das organizações não é o facto de ter muitas tecnologias; parte é a perspetiva de ter várias consolas, várias equipas que têm uma linguagem completamente diferente elas e não ter uma visão conjunta. É daí que vem a questão do custo e da complexidade. O ponto de partida é sempre a visibilidade porque se o cliente não sabe o que tem, quem utiliza e quanto custa, é difícil controlar o que seja, esteja on-premises ou na cloud”

Nuno Santos, Lenovo: “Há ferramentas que podemos utilizar e que temos à nossa disposição para fazer uma gestão mais otimizada dos nossos recursos, tirar a carga de trabalho da gestão dos mesmos e que retiram capacidade financeira para se focarem no seu negócio em vez de coisas que suportam o seu negócio. É possível fazer uma gestão dos consumos consoante o que se utiliza e as necessidades que se tem em termos de infraestrutura e que, de alguma forma, reduzem a complexidade dessa mesma gestão”

Há uma tendência para consolidar fornecedores e plataformas ou as empresas querem preservar maior liberdade de escolha? Como se equilibra simplificação com dependência tecnológica, e onde fica o Parceiro nesse equilíbrio?

 

“O cliente, por vezes, tem uma visão muito lírica do que é ir para a cloud. Os Parceiros podem ajudar a organização a tomar decisões mais ajuízadas”


Sérgio Seabra, Senior Solutions Architect, Red Hat

Sérgio Seabra, Red Hat: “Pragmaticamente, o que vemos no mercado é que os clientes preferem menos soluções em detrimento de um landscape mais alargado. Com quem já lida com data centers há muito tempo estão fartos do ‘puxa e empurra’ que por vezes acontece entre fabricantes. É imperativo que os fabricantes e os Parceiros não guiem o cliente para uma solução ou outra só porque sim. O cliente deve escolher a melhor solução, seja de que fabricante for, porque é a melhor solução possível para si, passe por um ou por mais do que um produto”

Nuno Santos, Lenovo: “Mais do que olhar para as soluções que temos dentro de casa, temos de olhar para aquilo que são os interesses e os objetivos que os clientes querem atingir para o seu negócio. Há clientes que querem soluções de apenas um fornecedor, mas também quem queira soluções multi-vendor que trazem a melhor tecnologia para o seu negócio. É preciso pegar em várias peças e o Parceiro é quem agrega essas peças para fornecer a melhor solução para o negócio do cliente”

Adrián Groba, QNAP: “Há duas tendências a acontecer em simultâneo. As empresas querem reduzir o número de plataformas por causa do custo; mas, por outro lado, não querem perder o acesso à melhor tecnologia disponível para o seu negócio e que se calhar a sua concorrência já utiliza. Há riscos para as organizações com ambas as abordagens. O papel do Parceiro é fundamental para poder implementar uma visão central de todas as plataformas que funcionam na organização”

A cibersegurança e a resiliência já não se resolvem só na camada de software. Que papel tem a própria infraestrutura: snapshots imutáveis e recuperação de ransomware no storage, segurança de firmware e da cadeia de fornecimento nos servidores, isolamento e atualização na plataforma de virtualização?

“Devemos estar perante a maior janela de mudanças na infraestrutura dos últimos anos porque os clientes vão reavaliar as suas infraestruturas nos próximos tempos”


Mário Magalhães, Pre-Sales and Solutions Architect, Arrow, em representação da HPE

 

Mário Magalhães, Arrow, em representação da HPE: “Hoje, a pergunta não é se vamos ser atacados, mas sim quando tempo vamos gastar até estar 100% operacional. A infraestrutura tem uma importância maior do que se calhar imaginamos. Se o servidor for comprometido a nível de firmware, tudo o que está dentro dele está comprometido. O atacante não se limita a cifrar, mas também a eliminar informação para que seja impossível fazer um restore. O armazenamento tem de conseguir detetar estes comportamentos anómalos”

Nuno Santos, Lenovo: “Os maiores drivers de negócio são cibersegurança e a soberania dos dados. A questão é não é se vamos ser atacados, mas quando e em quanto tempo conseguimos recuperar. Se no passado a segurança estava maioritariamente endereçada através de layers de software, hoje esses layers tiveram de ser multiplicados. Tenho de ter o layer de software, de controlo de perímetro e as infraestruturas base – servidores e storage – têm de ter essas capacidades para detetar possíveis ataques”

Adrián Groba, QNAP: “A infraestrutura já passou a ser uma parte ativa da estratégia de cibersegurança. Não é suficiente ter um bom antivírus ou firewall porque a qualquer momento uma qualquer camada pode ser comprometida e é preciso garantir que existem ferramentas para diminuir isso. Snapshots imutáveis e air-gap é a base para impedir que uma organização pare, com todos os custos e prejuízo que isso pode trazer”

Sérgio Seabra, Red Hat: “Há muitos vetores de ataque atualmente, já para não trazer a questão dos LLM para esta conversa, porque isso é catastrófico. Acreditamos que isto tem de ser um binómio, ou até tripartido. Os fabricantes têm de colocar mecanismos para minimizar os ataques na própria infraestrutura. Contudo, a maior parte dos ataques não acontecem dessa forma, são ataques laterais onde já estão dentro da organização; aqui, urge – e os Parceiros têm um papel preponderante – uma política eficaz de cibersegurança”

Onde está a maior oportunidade para os Parceiros neste mercado?

Nuno Santos, Lenovo: “Não é fácil resumir, mas o mais importante é os Parceiros perceberem o que têm de mais importante: o capital de confiança dos clientes. É preciso perceber esse capital e ajudar os clientes a ter as melhores ferramentas para o seu negócio e a utilizá-las da melhor forma”

Sérgio Seabra, Red Hat: “As oportunidades estão em todo o lado. Somos 100% negócio indireto e os Parceiros são cruciais e imperativos porque um Parceiro preenche as lacunas que os clientes têm, que têm equipas cada vez mais pequenas”

Adrián Groba, QNAP: “A maior oportunidade em deixar de vender simplesmente infraestrutura e resolver problemas de forma alinhada com o cliente com o custo mais ajustado. Os clientes querem resolver os seus problemas, mas com a menor complexidade possível”

Mário Magalhães, Arrow, em representação da HPE: “Devemos estar perante a maior janela de mudanças na infraestrutura dos últimos anos porque os clientes vão reavaliar as suas infraestruturas nos próximos tempos. Se o cliente reavalia, é porque está interessado em ouvir”

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