2015-3-13

A FUNDO

IoT: Quo Vadis?

À semelhança do impacto da massificação da Internet, a IoT já está a transformar a economia, a nossa vida, o Homem biónico e aporta uma rutura nos modelos conceptuais dos sistemas de segurança, na privacidade dos dados, nos negócios. Para onde nos leva?

IoT: Quo Vadis?

Pode parecer uma revolução, mas investigadores e especialistas encaram a IoT (IoT – Internet of Things, em inglês) como uma evolução natural das tecnologias existentes. A revolução, apontam, ocorreu com a massificação da Internet na década de 90, quando “sucedeu algo que não é novo na humanidade, é mais uma revolução logística importante, que foi a capacidade de comunicar e transportar coisas de um lado para o outro de forma coordenada”, explica José Tribolet, professor catedrático do Departamento de Engenharia Informática do Instituto Superior Técnico e presidente do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores.

“E tem havido muitas revoluções ao longo da História, como a roda, o recurso a animais para transportar coisas, a construção de estradas, as Descobertas, a máquina a vapor, os aviões, as telecomunicações. Agora, apareceu toda esta logística física que proporcionou algo brutal. Se compararmos a vida de hoje com a de há cem ou mil anos atrás, o preço do transporte de um meio físico de um ponto para o outro na terra, que hoje é quase instantâneo, é praticamente zero”.
Esta redução de custos permitiu a ubiquidade espacial e temporal, e estendeu-se a algo mais importante: a informação. A logística da sua captura, armazenamento, transporte, acessibilidade e distribuição em todo o mundo, através da Internet, passou a ser quase gratuita, instantânea, à velocidade e volume que se queira, em qualquer momento do tempo e do espaço. “E esta ubiquidade e capacidade de entidades individuais, produzidas por humanos, de existirem e comunicarem, de serem um ecossistema dinâmico, significa que tudo o que existe vai passar a ter persona, vai passar a ser um elemento ativo com dados sobre si próprio, capaz de enviar informações” sobre tudo o que os seus sensores detetarem e de acordo com as configurações, ou ordens, que lhes forem dadas. Todos esses objetos vão estar continuamente em comunicação. “A IoT é uma realidade que se vai expandir pelo mundo a uma velocidade tão grande que vai tornar pálida a evolução dos últimos anos”, afirma.

A década que se segue
“Nos próximos dez anos, a Internet das Coisas vai alterar dramaticamente os processos de fabrico, a energia, a agricultura, os transportes, a saúde e outros setores da economia que, juntos, somam quase dois terços do produto interno bruto global. Vai transformar a natureza do trabalho, mudando a forma como as pessoas trabalham através das suas interações com as máquinas”, lê-se num relatório publicado pelo Fórum Económico Mundial (FEM). Com a Internet Industrial, negócios e governos vão ter de ultrapassar diversos obstáculos, sendo os maiores a segurança e a privacidade dos dados, devido ao aumento de vulnerabilidades, da espionagem e dos ataques a utilizadores e organizações decorrentes do crescimento exponencial de dispositivos conectados e da respectiva partilha de dados. Os modelos e medidas de segurança desenvolvidos e implementados até hoje vão deixar de ser eficazes, pois as fragilidades deixam de estar centradas nos terminais e abrangem aplicações, níveis de autenticação, sistemas e exigem o desenvolvimento de novos modelos de resposta à resiliência e a incidentes.

O Processo
Segundo as pesquisas apresentadas pelo FEM, a IoT deverá passar por quatro fases. As duas primeiras representam oportunidades e riscos imediatos e sem precedentes que vão impulsionar a sua adoção a curto prazo, devido à nova capacidade de controlo remoto do mundo físico, como máquinas, fábricas e infraestruturas. Já foram iniciadas com enfoque na eficiência das operações, na utilização de recursos, na redução de custos, no aumento da produtividade, no lançamento de novos produtos e serviços, no pay-per-use, nos serviços de software e na monetização dos dados.

Esta economia de serviços vai ser impulsionada pelo software, por inovações no hardware, maior visibilidade de produtos, processos, clientes, parceiros, novos ecossistemas em volta de plataformas de indústrias tradicionais, assinalando que a colaboração entre homens e máquinas vai resultar em níveis de produtividade nunca atingidos até aos dias de hoje. Os resultados das pesquisas atuais, de várias empresas de estudos de mercado, sumarizados no relatório do FEM, indicam que a disrupção esperada vai surgir de uma nova criação de valor, tornada possível pelos volumes massivos de dados que resultam dos produtos interconectados, assim como da crescente capacidade para tomar decisões automatizadas e de agir em tempo real.

O que já está a acontecer
Os exemplos práticos multiplicam-se em várias áreas, como nos supermercados, no setor automóvel, nos eletrodomésticos ou na saúde. O professor José Tribolet refere o desenvolvimento de uma camisola interior de um têxtil especial, em Portugal, capaz de medir e transmitir continuamente os nossos sinais vitais, “sendo possível prever com grande antecedência e elevada probabilidade de uma ocorrência de saúde, significando que os serviços de saúde podem passar a atuar preventivamente, em vez de corretivamente”. Assim, “um médico vai poder configurar um pacemaker através do telemóvel.

Dados que, se não forem protegidos, podem comprometer a vida dos pacientes”. E como informação é poder, “e muita informação é muito poder, existe o problema de conseguir arquitetar um sistema de maneira a conciliar os benefícios dessa informação, que pode ser invocada e usada para fins bons, legais, tendo direito à privacidade e à proteção do indivíduo de fins abusivos e criminais. Esses são grandes desafios - a luta contra a ignorância, a má fé e as forças do mal é constante, não vai parar. Por isso, a sociedade deve avançar, ser inovadora, acompanhar sem idolatrar a tecnologia, porque ela não é boa nem má, e deve ter mecanismos de acompanhamento social de aprendizagem, para conseguir pôr essas evoluções a bom serviço da humanidade”.

As duas últimas fases incluem mudanças estruturais a longo prazo, onde a força de trabalho constituída por humanos e máquinas já pode vir a estar integrada. Na terceira fase, estima o FEM que sejam obtidos resultados económicos através do pay-per-outcome, da interligação dos novos ecossistemas e de uma dinâmica de mercado possibilitada por plataformas tecnológicas. A quarta fase é caraterizada pela automatização end-to-end (M2M – Máquina a máquina, em português) e pela otimização de recursos, com redução de desperdícios.
Este desenvolvimento promove o crescimento da automação e das máquinas inteligentes para completar o trabalho humano, como a possibilidade de recolher automaticamente as leituras dos contadores da água, luz e gás, de se ser conduzido por sensores e máquinas a um lugar de estacionamento que não se vê. A Schlumberger é uma empresa apresentada como exemplo, pois já monitoriza as condições subaquáticas com veículos marinhos que podem atravessar o oceano e colecionar dados durante um ano, recorrendo somente à energia das ondas.

Com estas inovações, também a concorrência vai mudar, por ser exigida uma mudança de focus dos produtos e serviços para os resultados de negócio, assim como o aumento da colaboração entre vários sectores de atividade.

Desafios
Entre os riscos, os analistas evocam a incerteza no retorno de investimento em novas tecnologias, devido à introdução de soluções imaturas e por testar no mercado, à falta de legislação à escala global e a falta de talentos neste aparente novo mundo digital, tal como sucedeu durante a transição para o novo milénio. Desafios que dizem necessitar de boa liderança, investimento e ações colaborativas entre investidores e parceiros.

Neste processo de mudança, foram formados alguns consórcios como forma de responder à necessidade crescente de colaboração para resolver problemas de interoperabilidade e segurança, como é o caso do Industrial Internet Consortium (IIC), da AllSeen Alliance e do Open Interconnect Consortium (OIC). Enquanto a AllSeen e o OIC se concentram no nível da conectividade dos dispositivos, o objectivo do IIC - que em menos de um ano reuniu mais de 100 organizações à escala global - é o de acelerar a adoção e desenvolvimento das aplicações.

Perante a falta de profissionais qualificados para desenvolver e manter este “novo mundo”, também começam a surgir novas alternativas de recrutamento e formação, como é o caso do Academy Cube dirigido ao mercado europeu, que foi apresentado recentemente na Câmara de Comércio de Lisboa, e que visa responder às necessidades de competências da Quarta Revolução Industrial (Industry 4.0), com mais de 100 cursos online, maioritariamente gratuitos, disponibilizados pelas empresas e organizações de formação associadas (Festo, o Hasso-Plattner-Institut, a Microsoft, o openSAP, SAP e Software AG). A plataforma sugere um plano de estudos de acordo com o perfil de cada candidato e com os seus objectivos de carreira.

Para encontrar oportunidades a curto-prazo, capitalizar com a mudança estrutural a longo prazo e acelerar o desenvolvimento da IoT, os especialistas do FEM tecem recomendações para cada player. Os fornecedores de tecnologias devem começar a inventariar e a partilhar as melhores práticas de segurança, participar no desenvolvimento de testes para demonstrar como podem as soluções de diferentes organizações trabalhar em conjunto. Os clientes de tecnologias devem reorientar a estratégia de negócio para tentar obter o máximo de vantagem dos últimos desenvolvimentos da Internet Industrial, de identificar os parceiros do seu novo ecossistema e decidir se se devem juntar à plataforma de um parceiro ou de desenvolver a sua própria. Os responsáveis pelas políticas públicas têm de reexaminar e actualizar as políticas de protecção de dados e aprender mais sobre as possíveis implicações sociais da Internet Industrial e funcionar como modelo ao apoiar aplicações de elevado potencial como as smart cities. Os governos dos mercados emergentes vão ter de aumentar o investimento na infraestrutura digital. Todas as partes interessadas, industrias, governos e universidades, a longo prazo devem trabalhar em conjunto em investigação e desenvolvimento para resolver desafios relativos à segurança, interoperabilidade e gestão de riscos sistémicos, introduzir novos programas de formação e oferecer políticas de incentivo a empregadores e colaboradores. Esta renovada rede de interacções e decisões, ditará o destino da IoT.

 

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