Rui Damião em 2026-4-14

A FUNDO

Mesa-Redonda

A inteligência artificial no negócio dos Parceiros

A inteligência artificial está a entrar numa nova fase de maturidade. Depois de um ciclo marcado pela experimentação, e por múltiplos projetospiloto, o foco das organizações desloca-se agora para a execução estruturada, escalável e orientada a resultados concretos de negócio. CyberInspect, HPE, IBM, Inspiring Solutions e Silverfort partilham a sua visão sobre os desafios e oportunidades da inteligência artificial no Canal de Parceiros

A inteligência artificial no negócio dos Parceiros

O que separa as organizações que escalam Inteligência Artificial (IA) daquelas que ficam presas em pilotos?

“As organizações ainda não têm controlo e governação, ou até visibilidade. É preciso perceber quem é que acede ao quê, mas esse quem também é a inteligência artificial”


Filipe Botelho, Channel Account Manager EMEA South, Silverfort

 

Filipe Botelho, Channel Account Manager EMEA South, Silverfort: “O que vemos neste mercado e com a evolução da inteligência artificial é que o problema não é a tecnologia. Muitas organizações conseguem fazer pilotos com sucesso, mas o desafio é conseguir escalar para produção. Isso acontece por falta de controlo e governação. Sem esta base é difícil integrar a IA nas operações das organizações. É difícil passar da experimentação à escala”

Pedro Teodoro, Services Sales Specialist, HPE: “As organizações começam com os pilotos em pequenas plataformas on-prem ou em cloud para testar os PoC. A questão que se coloca é quando se quer passar dos pilotos para a produção. Há aqui temas como os custos, com a utilização de tokens, a latência e a utilização de frameworks que são lock-in. Muitas vezes, os pilotos começam com dados que são relativamente simples para fazer o piloto, mas quando se escala há uma dificuldade de tratar os dados, a soberania dos dados, a segurança, a própria abordagem tem de estar ligada a um retorno mensurável. Muitas vezes, não há uma estratégia de inteligência artificial bem definida”

Valter Rodrigues, E2E Operations Manager, CyberInspect: “O conceito de pilot-purgatory não é novo; já existia na era do machine learning. O que mudou com a IA generativa é que a barreira de entrada para fazer um piloto caiu para praticamente zero. Qualquer pessoa com acesso à API da OpenAI ou Anthropic consegue fazer um piloto. Atualmente, com a entrada numa nova era de IA com agência, a pressão aumenta. Os agentes criam valor visível em teste. A McKinsey identificou que apenas uma em cada quatro organizações consegue escalar casos de uso de IA para outros departamentos da empresa”

Luís Gregório, Partner Technical Specialist, IBM: “O problema é a intenção. Há empresas ou indivíduos dentro das empresas que gostam de experimentar; isso não é mau. Se o objetivo é experimentar, ficamos pelos pilotos e vamos amadurecendo a organização para algo para o futuro. Achamos que as organizações devem ir para lá disso, para transformar. Significa ter de pensar o que queremos fazer e onde é que a inteligência artificial aporta valor. Aí não estamos a fazer um piloto porque a tecnologia é interessante, mas sim porque queremos transformar algo na organização e gerar valor. Depois, é preciso medir isto para perceber o que está a aportar em termos de valor”

O que está realmente a bloquear a passagem de provas de conceito para produção: tecnologia, dados ou cultura?

 

“As organizações começam com os pilotos em pequenas plataformas on-prem ou em cloud para testar os PoC. A questão que se coloca é quando se quer passar dos pilotos para a produção. Há aqui temas como os custos, com a utilização de tokens, a latência e a utilização de frameworks que são lock-in”


Pedro Teodoro, Services Sales Specialist, HPE

Pedro Teodoro, HPE: “Raramente há um único bloqueador. Os dados e a tecnologia claramente estão ligados e uma fragilidade numa dessas áreas dificulta a passagem para produção. As empresas mais maduras conseguem tratar disso com processos. No conceito ‘cultura’, assistimos a uma resistência à mudança, à adoção dos casos de uso de inteligência artificial e é preciso fazer um follow-up para que essa adoção possa existir. Ter um chatbot, tipo ChatGPT, numa organização não é o único caso de IA que pode existir. A organização tem de ter uma governação de IA para dar as ferramentas aos seus colaboradores para evitar o shadow AI”

As empresas estão preparadas para tirar partido da IA ou ainda estão a resolver problemas básicos de dados?

Luís Gregório, IBM: “Tecnologicamente, as empresas estão preparadas para tirar partido da IA, mas culturalmente há resistência e não há conhecimento dos casos de uso. Quando se ultrapassa essa barreira cultural, o resto está resolvido; a tecnologia já resolveu e há forma de trabalhar. Mas são precisos dados para os casos de uso. A IA generativa pode ajudar nisso, mas não tudo. Se queremos um chatbot que fale com a linguagem da empresa, é preciso documentação com esse tom. Se não tivermos um modelo de dados navegável pela inteligência artificial, passamos a ter um problema”

Como é que se equilibra a inovação com soberania e controlo de dados, sobretudo no contexto europeu?

Pedro Teodoro, HPE: “No contexto europeu, sabemos como é que isto funciona. A inovação em inteligência artificial tem de coexistir com os requisitos de privacidade. A Europa é uma região complicada nesse aspeto. Se pensarmos naquilo que é o conceito de soberania e transpusermos para o que é digital, significa manter o controlo total em todo o ciclo de vida e em segurança. As estratégias das organizações podem viver completamente em paralelo com o conceito de soberania dos dados e acho que deve fazer parte do seu plano. O que temos trabalhado é a cloud privada de modo a assegurar que as organizações têm uma forma de desenvolvimento dos seus casos de uso sem limitações”

A IA está a reforçar ou a fragilizar a postura de cibersegurança?

“Já não são só as pessoas que têm de se identificar perante o sistema. Com o advento do IoT, as máquinas também tiveram de se identificar. Agora, com o software, os agentes de IA também se têm de identificar”


Marco Reis, Solutions Director, Inspiring Solutions

 

Marco Reis, Solutions Director, Inspiring Solutions: “É importante termos em mente que durante décadas, no mundo digital, a segurança tem sido reativa. Isto acontece porque há uma assimetria básica: enquanto a defesa tem de proteger todos os caminhos, o atacante só tem de descobrir um. Os atacantes não têm orçamentos ou ética para seguir. Esta filosofia tem vindo a mudar ao longo do tempo. A regulação obriga a olhar para a segurança por design. A partir daqui, começa a ser possível detetar vulnerabilidades com mais facilidade. Em 2026, o machine learning é uma necessidade e ajudou a mudar o paradigma da cibersegurança reativa”

Filipe Botelho, Silverfort: “A IA é um utilizador não humano. É preciso controlo e governação. A IA tem acesso a sistemas críticos e agentes não humanos que funcionam de forma autónoma que são um perigo. Isto é um desafio. As organizações ainda não têm controlo e governação, ou até visibilidade. É preciso perceber quem é que acede ao quê, mas esse quem também é a inteligência artificial”

Pedro Teodoro, HPE: “Quando falamos de cibersegurança, a inteligência artificial tem de servir as duas vertentes. Tem o potencial de melhorar significativamente a proteção das organizações com várias soluções, mas também acaba por criar fragilidades e acaba por ampliar a superfície de ataque das organizações. Aquilo que determina os resultados é a maneira como as organizações operam as soluções e pode ser reforçada para acelerar a resposta, ensaios ou testes, no fundo, utilizar as mesmas ferramentas que os atacantes utilizam, mas de forma interna para testar quão bem preparadas estão”

Com copilotos e agentes de IA, estamos a criar riscos de exposição de dados dentro das organizações?

 

“É preciso incluir na plataforma de governança de inteligência artificial a análise de risco. Quando alguém regista um caso de uso, é preciso avaliar a descrição e os assets para perceber os riscos”


Luís Gregório, Partner Technical Specialist, IBM

Luís Gregório, IBM: “Claro que sim, claro que estamos a abrir portas a riscos. Mas a tecnologia já resolveu muita coisa. A governação da inteligência artificial tem de ter isso em conta. A nossa plataforma também olha para isso, para o risco que cada ponto levanta; utilizar o modelo A ou o modelo B pode apresentar riscos diferentes para a organização. Todas estes diferentes casos de uso levantam riscos diferentes. É preciso incluir na plataforma de governança de inteligência artificial a análise de risco. Quando alguém regista um caso de uso, é preciso avaliar a descrição e os assets para perceber os riscos, ou potenciais riscos, desse caso de uso”

Valter Rodrigues, CyberInspect: “Na era da IA tradicional, o risco de dados era relativamente contido. O modelo preditivo acedia a um número de dados específicos e a exposição era relativamente previsível. Com a IA generativa e os LLM integrados em ferramentas corporativas, o perímetro de exposição explodiu. Todas as ferramentas acedem transversalmente a emails, eventos, CRM… estão dentro das nossas ferramentas de trabalho diário e têm acesso à informação do utilizador e da organização. Com a IA com agência, o risco muda de escala porque não é só pessoas a entrar nessa informação, mas também sistemas, sem qualquer intervenção humana”

Filipe Botelho, Silverfort: “Estamos a introduzir novos riscos, sobretudo com a exposição dos dados. Os copilotos e agentes de IA têm acesso a várias fontes de informação dentro da organização, mas não há uma governação clara de a quê e quando podem ter acesso. Trabalhamos muito neste ponto porque é preciso melhorar a proteção e a defesa da identidade nas organizações numa era em que os agentes de IA e copilotos estão tão presentes”

Marco Reis, Inspiring Solutions: “Há alguns dias estava a falar sobre este tema com uma empresa e perguntei se havia uma política de utilização de inteligência artificial. Disseram que não e que não estavam preocupados porque monitorizavam a utilização de serviços como o ChatGPT. É uma preocupação, mas a empresa só estava a ver a ponta do iceberg, não estava a ver os agentes de IA e os copilotos. Isto é preocupante porque as empresas não têm noção do que está a acontecer dentro de portas; o problema não está nos agentes de IA e nos copilotos em si, mas nas permissões que se dão porque, por má configuração ou acidente, dá-se acesso à informação e raramente se retira”

Devemos começar a tratar a inteligência artificial como uma identidade com permissões e controlo próprio?

“Na prática, a maioria das empresas não está a travar nem a acelerar a sua adoção de IA por causa da regulação. No caso europeu, com o AI Act, este documento foi desenvolvido numa era em que o paradigma dominante eram os sistemas de IA determinísticos”


Valter Rodrigues, E2E Operations Manager, CyberInspect

 

Valter Rodrigues, CyberInspect: “Na era da IA tradicional e IA generativa passiva, a questão da identidade não se punha porque a identidade era o utilizador que usava a ferramenta. Na era do agente de IA, há uma autonomia que não está ligada ao utilizador que criou. As organizações já têm mais identidades não humanas do que humanas, e tipicamente são muito menos governadas. Com o crescimento desta era, o problema vai-se multiplicar. O agente só deve ter acesso a apenas e só o que precisa; isto parece óbvio, mas não é. É preciso, também, uma validação contínua e o sistema revoga essa validação caso exista alguma atividade estranha”

Marco Reis, Inspiring Solutions: “Esta questão remete-nos para as bases da cibersegurança: para darmos autorizações, temos de saber quem são os utilizadores. Já não são só as pessoas que têm de se identificar perante o sistema. Com o advento do IoT, as máquinas também tiveram de se identificar. Agora, com o software, os agentes de IA também se têm de identificar. É preciso dar o mínimo de autorização possível. Há um consenso de que os agentes de IA devem ter uma identidade própria, mas é muito difícil de gerir sem recurso a automação nas organizações”

Filipe Botelho, Silverfort: “Houve uma evolução grande porque, até agora, só tínhamos duas identidades: humanas ou não humanas. Os agentes de IA são totalmente diferentes porque se comportam mais com uma verdadeira identidade; acedem a dados, interagem com sistemas e executam ações de forma autónomas. O desafio é que não são geridos com o mesmo tipo de controlo e visibilidade que as identidades humanas são. Temos de ter um controlo como as identidades humanas. O que vemos no mercado é uma necessidade crescente de colocar princípios de segurança também a estes agentes para escalar a segurança de forma segura”

O impacto regulatório está a travar ou a acelerar a adoção da IA? Quem deve liderar a governação?

Marco Reis, Inspiring Solutions: “Se não houver limite de velocidade nas estradas, posso chegar mais depressa e mais cedo, mas os acidentes aumentam. Quando há regulação é criado um paradoxo fascinante: abranda-se a experimentação, mas aumenta-se a confiança. Devagar se vai ao longe. A regulação europeia terá esse impacto: a experimentação vai diminuir porque é preciso criar documentação, processos e tudo isso vai aumentar o custo; por outro lado, pode acelerar a adoção porque cria mecanismos de confiança porque toda a gente sabe quais são as regras e com o que contar”

Valter Rodrigues, CyberInspect: “Na prática, a maioria das empresas não está a travar nem a acelerar a sua adoção de IA por causa da regulação. No caso europeu, com o AI Act, este documento foi desenvolvido numa era em que o paradigma dominante eram os sistemas de IA determinísticos, ou tradicional. Com a IA com agência surgem novos desafios regulatórios que o documento europeu não previu. Quem é o responsável no caso de um problema: o agente, quem o ativou, quem o criou? As organizações que trabalham com sistemas de IA têm de garantir que os seus colaboradores conseguem trabalhar com essas ferramentas de forma responsável”

Luís Gregório, IBM: “A regulação vai travar quem anda na experimentação, até porque é uma desculpa porque pode não saber o que significa em termos legais. Quem efetivamente estruturou a sua adoção de inteligência artificial e tem uma metodologia e arquitetura, toda uma framework de adoção, incluiu de certeza a governação da inteligência artificial, do risco e da regulação. Aí passa a ser um acelerador. A organização sabe desde o início o que pode e não pode usar, o que pode ou não pode fazer. Vai acelerar muito a adoção para quem já tiver estruturado a utilização da inteligência artificial”

Qual deve ser a prioridade para os próximos 12 meses? Onde devem as organizações investir para não ficarem para trás?

Filipe Botelho, Silverfort: “A prioridade deve ser garantir de forma segura e sustentável a IA. Governação e segurança têm de estar lá. Os Parceiros têm um papel fundamental a ajudar as organizações nos seus processos críticos de forma segura; sem confiança e controlo, não é preciso tirar o máximo valor para o negócio”

Luís Gregório, IBM: “Volto à governança. Os Parceiros deviam apostar em ajudar os clientes em criar uma abordagem estruturada à inteligência artificial e podem contar connosco nesse caminho”

Pedro Teodoro, HPE: “Existem algumas lacunas na adoção de IA e os nossos Parceiros devem ser complementares às equipas técnicas dos clientes e serem relevantes e diferenciadores para serem uma mais-valia para os clientes”

Valter Rodrigues, CyberInspect: “Uma prioridade clara, e que desafiamos os nossos Parceiros de Canal, é fazer um inventário de identidade antes de qualquer investimento adicional em IA. Saber exatamente o que já está a correr, quem é o responsável e o que acontece se for comprometido ou agir de forma inesperada. Este é provavelmente mais invisível da inteligência artificial, mas é o mais crítico. A qualidade da fundação é muito importante”

Marco Reis, Inspiring Solutions: “A fase de lua de mel da inteligência artificial terminou e temos de passar da experimentação. Os clientes devem criar uma fonte de verdade e um bill of materials da inteligência artificial para saberem qual é a sua BoM, que agentes de IA são utilizados, a versão dos dados, entre outros, e, desta forma, podem passar para todas as fases seguintes da proteção para uma utilização segura da inteligência artificial”

Recomendado pelos leitores

Continuidade de negócio em destaque na edição de maio do IT Channel
A FUNDO

Continuidade de negócio em destaque na edição de maio do IT Channel

LER MAIS

A continuidade de negócio para lá do backup
A FUNDO

A continuidade de negócio para lá do backup

LER MAIS

A decisão descentralizada e o novo centro de valor do software empresarial
A FUNDO

A decisão descentralizada e o novo centro de valor do software empresarial

LER MAIS

IT CHANNEL Nº 127 MAIO 2026

IT CHANNEL Nº 127 MAIO 2026

VER EDIÇÕES ANTERIORES

O nosso website usa cookies para garantir uma melhor experiência de utilização.