2013-12-19

OPINIÃO

Gonçalo Tavares, Responsável Técnico, Enterasys Networks

Migrar para 802.11ac: três considerações chave

O standard 802.11ac representa uma notável evolução da tecnologia WIFI, que proporciona maior velocidade e capacidade de transmissão em relação às anteriores gerações desta tecnologia, atuando na banda dos 5 GHz.

Todos estamos no mercado na expectativa de ver o que esta evolução vai trazer na prática, em particular os avanços tecnológicos que promete, em muitos aspectos revolucionários, como a incorporação de MU-MIMO (Wave2). Mas acreditem quando vos digo que o caminho até que possamos ver todos estes avanços em produção ainda vai ser longo.
Os dispositivos móveis, e o crescimento exponencial do uso de aplicações móveis, continuam a exercer uma enorme pressão sobre o meio aéreo, levando a sua capacidade ao limite. Há uma regra não escrita no âmbito da gestão de rede que diz que a largura de banda tem de ser utilizada ao mesmo rácio em que é disponibilizada. Acrescentar mais largura de banda não resolve todos os problemas, mas é certamente muito tentador utilizar toda a que estiver ao nosso alcance e ainda mais.

A mensagem de marketing à volta desta tecnologia fala de taxas de transmissão de gigas através do meio aéreo. Se compararmos com os protocolos WIFI anteriores, estamos a falar de um rendimento multiplicado por 2,5. A pergunta então é: através de que mecanismos se vai obter este incremento no rendimento das redes WIFI, pelo menos na primeira geração de redes 802.11ac? Basicamente vai ser mediante uma combinação de duas melhorias face à tecnologia actual: canais mais largos e mecanismos de modulação de maior densidade. Em concreto, o 802.11ac utiliza canais de 80 MHz (contra os canais de 20 MHz ou 40 Mhz dos anteriores standards) e modulação 256 QAM que permite duplicar o número de bits transmitidos por unidade de sinal.
Dito isto, e sem pretender tirar importância ao avanço tecnológico que representa, há que dizer que existe uma série de questões à volta do 802.11ac que, na nossa opinião, não foram suficientemente debatidas. Tratam-se de três considerações que achamos serem críticas para que este avanço possa oferecer tudo o que promete. Estas considerações estão relacionadas com:

1. A capacidade dos dispositivos móveis. Este é provavelmente um dos aspectos relacionados com as redes wireless que mais frequentemente é ignorado. O WIFI é uma via de dois sentidos e um ponto de acesso mais rápido não poderá fazer muito se o dispositivo cliente não tiver capacidade para o suportar. Não se trata de chamar a atenção aos fabricantes, mas a realidade é que nem todos os dispositivos estão desenhados de igual modo. Um iPad mini, por exemplo, não consegue chegar ao novo MacAir na corrida ao WIFI. O conselho é que se tenha sempre em conta que tipo de dispositivos irão ser utilizados na sua rede se quiser ver as suas expectativas satisfeitas.

2. As interferências entre canais. A disponibilidade de canais de 80 Mhz não responde a uma questão importante: podem ser usados em meios empresariais? A preocupação imediata está relacionada com a interferência destes novos canais com os antigos canais utilizados por equipamentos mais antigos (que usam canais de 20/40 Mhz), com os quais terão que conviver. Este tipo de interferências ocorrerá muito provavelmente em meios de alta densidade de pontos de acesso, em que continuem activos pontos de acesso antigos, e isso terá um impacto negativo no rendimento total da rede. A forma como se desenha a rede (por exemplo para que não se sobreponham os canais entre pontos de acesso antigos e novos 802.11ac) implicará possivelmente sacrificar parte do rendimento potencial esperado. Noutras palavras, implementar o 802.11ac exige um planeamento cuidado dos canais - não basta ligar os pontos de acesso e colocar tudo em funcionamento de uma forma automática.

3. A modulação 256 QAM. A nova técnica de modulação apresenta requisitos que são relativamente fáceis de cumprir para que funcione: linha de visão transparente e proximidade entre pontos de acesso. Mas se não forem cumpridos, a taxa de transmissão será reduzida para metade, equivalente à que oferece a modulação 64 QAM que a anterior geração WIFI utiliza. Além disso, há que assinalar que a modulação 256 QAM exige um meio de radiofrequência relativamente limpo e uma maior taxa SNR (relação sinal/ruído) e RSSI mais elevados para poder operar. Isto tem um envolvimento directo no desenho da rede 802.11ac: um RSSI de -55dBm como mínimo e, consequentemente, colocar os APs mais juntos. Se comparamos isto com os requisitos do standard 802.11n (RSSI mínimo de -65/-70dBm), percebemos que de facto precisamos de mais APs. Por sua vez, os dispositivos terão que estar mais perto dos pontos de acesso para obter um sinal mais potente e, assim, conseguir as máximas taxas de transmissão.

A diferença entre capacidades ou funcionalidades teóricas e reais é sempre um ponto quente em qualquer debate sobre tecnologia. Vai ser difícil que se consiga tudo o que o 802.11ac promete, pelo menos na primeira onda de implementação desta tecnologia. Ter em conta os factores acima mencionados na hora de desenhar a rede aproximará o rendimento da rede ao prometido pelo novo standard.

Gonçalo Tavares, Responsável Técnico, Enterasys Networks

Recomendado pelos leitores

Uma nova classe de eficiência operacional
OPINIÃO

Uma nova classe de eficiência operacional

LER MAIS

Armazenamento definido por software: uma tendência chave
OPINIÃO

Armazenamento definido por software: uma tendência chave

LER MAIS

Novas culturas de IT pós-covid
OPINIÃO

Novas culturas de IT pós-covid

LER MAIS

IT CHANNEL Nº 89 JULHO 2022

IT CHANNEL Nº 89 JULHO 2022

VER EDIÇÕES ANTERIORES

O nosso website usa cookies para garantir uma melhor experiência de utilização.