Inês Garcia Martins em 2026-9-16
Manter capacidade que não produz valor pesa nos custos das empresas. Com novas exigências de computação, retirar mais valor dos data centers torna-se uma prioridade e abre novas oportunidades de negócio para os Parceiros ao longo da vida da infraestrutura
|
A Europa prepara-se para aumentar significativamente a sua capacidade de computação, num momento em que Portugal ganha relevância no mapa europeu dos data centers. Segundo o “Market Outlook Data Centers Portugal 2025”, da Associação Portuguesa de Data Centers (PortugalDC), o setor poderá representar um impacto de 3,7 mil milhões de euros no PIB nacional até 2031, num mercado impulsionado pela procura de novas infraestruturas digitais e pela crescente exigência de capacidade computacional. A próxima geração de grandes instalações é, no entanto, apenas uma parte do mercado. Longe dos novos campus concebidos de raiz, empresas continuam a operar data centers próprios e salas técnicas que cresceram ao longo dos anos, com equipamentos de diferentes gerações, capacidade sobredimensionada e pouca visibilidade sobre a utilização efetiva. Modernizar este parque instalado não é apenas uma questão energética, mas também uma decisão sobre onde investir, que capacidade manter e como retirar mais valor da infraestrutura existente. Para Rita Lourenço, Vice-presidente da PortugalDC, “não existe hoje um único fator que explique a ineficiência dos data centers empresariais em Portugal. O principal desafio é, sobretudo, a capacidade de medir, compreender e otimizar a infraestrutura como um todo”. Medir antes de substituir
O Power Usage Effectiveness (PUE), que relaciona o consumo total da instalação com a energia utilizada pelos equipamentos de IT, continua a ser uma das principais métricas de eficiência energética dos data centers. Rita Lourenço ressalva, contudo, que “métricas como o PUE são importantes, mas devem ser complementadas por outros indicadores, nomeadamente relacionados com água, utilização da capacidade e qualidade operacional”. Consumo, carga de IT, temperatura, ocupação dos racks e utilização dos equipamentos ajudam a completar essa leitura e a perceber quanto da capacidade disponível está efetivamente a ser utilizada. “Reduzir o consumo energético, melhorar o PUE, otimizar a climatização, aumentar a utilização efetiva da capacidade instalada ou implementar sistemas de monitorização e gestão de energia são medidas que podem gerar retorno financeiro e, ao mesmo tempo, reduzir a pegada ambiental”, afirma Rita Lourenço.
Aroa Ruzo, Country Manager Portugal da Schneider Electric, identifica “climatização, distribuição elétrica e sistemas de alimentação ininterrupta (UPS)” entre os pontos onde se podem concentrar perdas, sobretudo “quando funcionam longe do ponto ótimo de carga”. A responsável associa parte desta ineficiência ao sobredimensionamento das instalações, já que, afirma, “muitas organizações continuam a gerir as suas infraestruturas com base na capacidade instalada, e não na procura efetiva”.
À medida que a análise desce ao nível dos equipamentos, André Ribeiro, Business Developer Manager Cooling Southern Europe da Legrand Data Center Solutions, alerta que a falta de visibilidade sobre o consumo ao nível do rack, circuito ou equipamento “gera problemas operacionais que só se revelam quando já causaram impacto”. Sem essa informação, torna-se mais difícil antecipar sobrecargas, equilibrar fases ou planear capacidade. “A operação passa a ser reativa, baseada em sintomas, em vez de preventiva, baseada em métricas e em dados”, sintetiza.
Nem todos estes problemas exigem uma intervenção de fundo. Paulo Carneiro, Branch Office Manager da Maxiglobal, considera que parte das ineficiências associadas à energia, climatização, capacidade sobredimensionada ou equipamentos antigos pode ser corrigida através de intervenções localizadas. “A monitorização em tempo real tornou-se essencial para eliminar desperdício e otimizar toda a operação”, afirma. A ineficiência não termina, contudo, na infraestrutura que suporta o data center. Segundo Patrícia David, Sales & Marketing Director da Evoware, a sobrealocação de recursos é uma das principais fontes de desperdício na camada de IT. Servidores, armazenamento e equipamentos de rede podem apresentar baixas taxas de utilização e permanecer ativos, a “consumir energia, espaço e esforço de administração”.
“Com recurso a ferramentas de análise e observabilidade é possível identificar padrões de utilização, picos de consumo, recursos subutilizados e sistemas que já não geram valor para o negócio”, explica. É a partir desse diagnóstico que, segundo Patrícia David, se pode decidir o que consolidar, modernizar ou desativar. Modernizar sem começar de novoPerceber onde está o desperdício permite também decidir onde faz sentido investir e a alternativa não se resume a manter a infraestrutura ou substituí-la integralmente. Aroa Ruzo defende que “a modernização deve ser progressiva e orientada pelos dados”, com intervenções sobre UPS, refrigeração, sensores, fluxos de ar ou capacidade instalada que preservem a continuidade da operação e aproveitem a infraestrutura que continua válida. Para organizações com poucos racks, Paulo Carneiro aponta para “soluções modulares, equipamentos de alta eficiência e contenção térmica inteligente”, numa abordagem que procura aumentar capacidade sem fazer crescer o consumo energético ao mesmo ritmo. A experiência da Maxiglobal em projetos do PRR leva ainda o responsável a destacar como práticas replicáveis a “padronização de soluções modulares, eficiência como requisito de design, monitorização obrigatória e o desafio de integração de segurança com eficiência”. A avaliação do que deve ser mantido, consolidado ou renovado esteve também na base de um projeto da Evoware com uma organização de operações críticas. O trabalho partiu de um assessment à infraestrutura antes da renovação da computação, armazenamento, rede, virtualização e proteção de dados. Embora o caso não quantifique poupanças energéticas, concretiza uma abordagem de consolidação assente nas necessidades identificadas. “A consolidação e virtualização permitem aumentar significativamente a taxa de utilização dos recursos existentes”, afirma Patrícia David. “Em muitos casos”, acrescenta, “é possível substituir vários servidores físicos por um número reduzido de plataformas mais modernas, mantendo ou aumentando os níveis de desempenho e disponibilidade”. A responsável aponta ainda para os modelos de consumo flexível, que “permitem alinhar os recursos utilizados com as necessidades reais das organizações”. Segundo Patrícia David, “isto reduz investimentos excessivos em capacidade que permanece inativa durante grande parte do tempo”. Onde deve viver cada workload?Modernizar implica também decidir onde faz sentido manter o investimento em infraestrutura própria e onde outros modelos podem responder melhor às necessidades do negócio. On-premises, colocation e cloud podem coexistir e Rita Lourenço defende que estes últimos devem ter “um papel complementar na modernização das infraestruturas empresariais portuguesas, e não ser vistos simplesmente como uma alternativa à infraestrutura própria”.
Entre desempenho, disponibilidade, previsibilidade da procura, soberania dos dados, segurança e custo total de operação, a escolha deve responder às características de cada carga. João Mira Santiago, Executive Director da Claranet Portugal, considera que “não existe um ambiente ideal para todas as cargas de trabalho, nem a evolução tecnológica significa que tudo deva migrar para a cloud”. Escolher outro ambiente não resolve, no entanto, a forma como os recursos são utilizados. “Muda-se a infraestrutura, mas não necessariamente a forma como é utilizada”, alerta o responsável. É neste ponto que João Mira Santiago aproxima FinOps e GreenOps. Enquanto a primeira procura adequar a utilização dos recursos tecnológicos aos custos, a segunda aplica uma lógica semelhante do ponto de vista ambiental, com o objetivo de reduzir o consumo desnecessário de recursos e energia. Para João Mira Santiago, a otimização pode traduzir-se em capacidade libertada, investimentos adicionais evitados e maior previsibilidade da despesa. “Um recurso ativo sem necessidade representa simultaneamente um custo financeiro e consumo de energia sem criação de valor”, explica. Eficiência sem perder resiliência
Eliminar capacidade excedentária não pode comprometer a disponibilidade necessária para responder a picos, falhas ou manutenção. Isabel Pinto, Distribution Channel Manager da Vertiv, considera, contudo, que eficiência e redundância podem ser conciliadas e afirma que “reduzir o consumo de energia mantendo a redundância já não é uma questão de compromisso”. A arquitetura modular permite, segundo a responsável, aproximar capacidade e procura e aumentar progressivamente a infraestrutura à medida das necessidades, sem manter permanentemente capacidade sobredimensionada. Na climatização, a mesma lógica passa por ajustar a refrigeração à carga térmica real sem comprometer a disponibilidade. “A chave está em abandonar uma abordagem estática e adotar uma gestão térmica inteligente e dinâmica”, defende. Mais computação por unidade de energiaNuma equação que já exigia equilibrar capacidade, consumo e disponibilidade, a Inteligência Artificial (IA) vem acrescentar ainda mais pressão. Isabel Pinto considera que o aumento das necessidades de processamento está a expor limitações em infraestruturas que evoluíram de forma incremental e “nunca foram concebidas para suportar as atuais densidades de carga”. Aroa Ruzo acrescenta que estas novas cargas obrigam também a olhar para além do consumo absoluto. “Em ambientes marcados por IA e por cargas de trabalho dinâmicas, torna-se particularmente relevante avaliar o valor computacional obtido por cada unidade de energia utilizada”, afirma. Se, por um lado, Aroa Ruzo aponta a preparação dos sistemas de refrigeração para maiores densidades de potência, por outro, Isabel Pinto destaca arquiteturas escaláveis de alimentação e refrigeração e uma gestão mais inteligente da infraestrutura. A IA deixa, assim, de ser apenas uma questão de capacidade computacional e passa a condicionar a forma como energia, espaço e cooling são dimensionados. À medida que essa relação se torna mais exigente, avaliar a eficiência implica cruzar o consumo energético com a utilização da capacidade instalada, a ocupação da infraestrutura e a intensidade de carbono. Do projeto ao serviço contínuoÀ medida que a infraestrutura exige monitorização, ajuste e modernização ao longo do tempo, abre-se também uma oportunidade de negócio para o Canal. Oportunidade essa que vai além da venda e implementação de tecnologia e aproxima o Parceiro das decisões sobre capacidade, modernização, eficiência e evolução da infraestrutura. “Vemos os Parceiros como consultores de confiança ao longo de todo o ciclo de vida da infraestrutura”, sustenta Isabel Pinto. Auditorias, diagnósticos de capacidade e resiliência, modernização, monitorização, manutenção preditiva e gestão da infraestrutura ganham, neste contexto, peso na oferta do Canal. Paulo Carneiro associa a procura por eficiência à necessidade de “novas áreas/ serviços no nosso negócio: auditorias, modernização, serviços recorrentes, manutenção preditiva e integração de sistemas inteligentes”. Por sua vez, Aroa Ruzo acrescenta que “o valor está em combinar conhecimento técnico com capacidade de diagnóstico, integração e acompanhamento ao longo do ciclo de vida”. O modelo permite prolongar a relação muito para além de uma intervenção inicial, uma vez que, segundo Patrícia David, “a otimização deixa de ser um projeto pontual para passar a ser um processo contínuo”. Segundo a responsável, estes serviços ajudam os clientes a maximizar investimentos e controlar custos, enquanto criam relações de longo prazo e fontes de receita recorrente para os Parceiros. É também esta relação de continuidade que altera o posicionamento do Parceiro e abre, na visão de Rita Lourenço, espaço para o Canal “deixar de ser apenas fornecedor de tecnologia e assumir um papel mais estratégico”. Num mercado em que cada unidade de energia, capacidade e infraestrutura terá de produzir mais valor, a oportunidade para os Parceiros está cada vez mais no conhecimento necessário para fazer essa equação funcionar. |