2017-8-01

ENTREVISTA

“A Fujitsu é a única empresa que pensa global e atua local”

A Fujitsu Portugal celebra, este ano, quatro décadas de existência e continua a expandir o seu negócio: a empresa conta com perto de 1400 colaboradores e planeia contratar mais de 200 já em 2018. A caminho está também uma nova área de atuação, dedicada à cibersegurança. Carlos Barros, diretor-geral, fala sobre os frenéticos desafios que a transformação digital traz às empresas, aos Parceiros e à própria Fujitsu, e deixa claro que o que distingue a subsidiária no nosso mercado é não apenas a autonomia para investir, mas também um portfólio onde presente e futuro se complementam

Carlos Barros, diretor-geral da Fujitsu Portugal (Fotografias: Rui Santos Jorge)

IT Channel – Que resultados obteve a Fujitsu no último ano fiscal?

Carlos Barros – No ano fiscal de 2016 crescemos globalmente em termos de receita 14%, sobre o ano de 2015, muito acima do mercado. Os resultados foram até superados em alguns pontos. Foram muito interessantes em produto: crescemos 48% em storage, a área de negócio que mais cresceu. Em servidores também registámos um aumento, embora não de forma tão acentuada. Em serviços, a nossa área core, crescemos 13%. Dos serviços que prestamos em Portugal exportamos 40%. Somos um exportador de serviços.

 

Esperavam estes resultados em hardware?

Sim, porque resulta de uma aposta dos últimos três anos. Desde essa altura que nos temos focado na área de data center. Fruto desse investimento e dessa atenção redobrada, da qualidade das soluções e de algumas parcerias que fizemos, não nos surpreendeu. Continuo muito otimista nesta área em particular. O negócio de storage pode ser visto de duas formas: puramente transacional ou através de um modelo de serviço associado. Este crescimento assenta sobre o modelo de serviço que disponibilizámos para alguns clientes em particular e para o mercado em geral, fruto de uma aliança com alguns Parceiros. Neste modelo, muito bem recebido pelo mercado, fornecemos o backup-as-a-service, o storage-as-a- service. Entendemos que a transação não traz valor acrescentado aos clientes.

 

Como têm trazido os Parceiros para este modelo de negócio?

Começámos precisamente com os Parceiros. Percebendo as dificuldades que estão a ter nos mercados onde atuam, preparámos um modelo que lhes facilitasse a abordagem ao mercado, para que não estivessem muito dependentes do preço, da caraterística técnica, da elevada concorrência. Para que, percebendo as dificuldades que as empresas portuguesas têm ao nível do investimento, nomeadamente em CAPEX, aparecessem junto do cliente com um modelo de venda muito mais flexível. Quando olhamos para estas áreas temos de ter a noção de que a informação é o nosso petróleo. Vemos cada vez mais informação a ter que ser tratada e guardada, e que tem de estar protegida. As empresas podem ter hoje um pico, porque precisam de mais storage e a seguir podem não ter, voltando ao normal. Temos de conseguir responder às necessidades dos clientes.

 

Como vê a Fujitsu a adoção da transformação digital por parte das empresas e consequentemente a sua disponibilidade para investir em tecnologias que lhes permitam fazer esta transição?

Mais uma vez, com algum otimismo. Já vemos algumas das maiores empresas com planos de transformação digital aprovados ao nível do board, para quatro/cinco anos, o que é uma evolução tremenda. Há três anos não existiam sequer no plano estratégico. Identificamos, além de muito pensamento estratégico, uma preocupação em acompanhar estas novas necessidades. Nas PME, temos observado o mesmo, muito através dos nossos Parceiros. Há algumas empresas preocupadas em saber como enfrentar estes desafios e a essas temos dito que o mais importante é precisamente escolherem um parceiro tecnológico com experiência, alguém que invista em investigação e desenvolvimento, que tenha tecnologias que lhes permitam, por si ou em co-criação, enfrentar esses desafios. Nos dias de hoje ninguém faz nada sozinho. Portanto, as empresas nacionais, mesmo as PME, estão a discutir de momento como é que a Internet of Things (IoT), a inteligência artificial (IA) e a segurança, por exemplo, impactam os seus negócios. A IoT já não é uma buzzword. Quando, no Fujitsu World Tour, que decorreu em junho em Lisboa, apresentámos um stand só dedicado à IoT, dissemos ao mercado que há tecnologia, que há case studies práticos. No evento, mostrámos uma solução de IoT desenvolvida em Portugal, para a rede de lojas da NOS, que é um exemplo de transformação digital no retalho. Temos sobretudo a preocupação de passar da tecnologia para a resolução do problema.

 

A Fujitsu está claramente focada nas soluções. Significa que pretendem ser uma empresa de software?

É uma pergunta do dia-a-dia, que os clientes nos colocam. Essa é uma vantagem da Fujitsu. Posso afirmar que haverá apenas uma ou duas empresas no mundo que têm um portfólio tão alargado quanto o portfólio global da Fujitsu. Esta amplitude dá-nos uma responsabilidade no sentido de que, seja qual for o problema, algures dentro da nossa oferta teremos uma ou mais soluções adequadas. Sempre fomos uma empresa de soluções, mesmo quando éramos só conhecidos como uma empresa de tecnologias, desde os supercomputadores até aos telemóveis. Nunca fabricámos tendo em vista uma perspetiva meramente transacional, porque sempre associámos soluções que resolvessem problemas. Temos bastante orgulho nesta imagem de uma empresa tecnológica. Mas a tecnologia hoje não diz apenas respeito à infraestrutura. Em todo o mundo, a Fujitsu é a empresa que mais patentes tem em inteligência artificial. Estamos nos extremos – somos muito reconhecidos do lado das infraestruturas e altamente reconhecidos do lado das aplicações e do que serão as soluções do futuro. Somos uma empresa que sempre vendeu soluções, mas aceitamos de bom grado a imagem de infraestruturas, serviços e aplicações. Em alguns mercados seremos mais reconhecidos pelo lado das infraestruturas. Em Portugal, somos claramente reconhecidos pelos serviços e pelas soluções de data center. E agora queremos ser reconhecidos nestas novas áreas: na cibersegurança, na IoT, na IA. Para tal, estamos no terreno com alguns clientes, a desenvolver práticas de utilização destas novas tecnologias, nomeadamente de IoT e IA.

 

As empresas procuram estas tecnologias?

Em particular a IoT, sim. Estamos a desenvolver, em regime de co-criação com algumas empresas, projetos concretos de utilização de tecnologias variadas ligadas à IoT. Sozinha, a IoT é muito pouco. Não se trata apenas de infraestrutura, mas também da camada do tratamento de dados associada. A Fujitsu Brasil, em conjunto com a Fujitsu Portugal, tem 180 projetos de robotic process automation em pipeline para os próximos dois anos, num cliente comum. Estamos a fazê-lo dentro da própria organização em regime de co-criação. Tudo isto só é possível quando existe confiança. A Fujitsu Portugal celebra este ano 40 anos. Quando chegámos ao mercado português andávamos no cartão perfurado. É preciso estabelecer laços de confiança para sobreviver num mercado 40 anos. Em quatro décadas, desapareceram do mercado players intocáveis. A Fujitsu mantém-se. Tem-se mantido ágil e tem sabido adaptar-se às ondas de mudança, de desafios permanentes. No Fujitsu World Tour, tive o prazer de ver sentado na audiência o meu cliente número um e número dois. A Fujitsu Portugal deve ser das poucas empresas que faz um plano de negócios a cinco anos, que é quase um exercício de “bola de cristal”. Este exercício obriga-nos a pensar e a projetar.

 

Num mundo que muda a um ritmo sem paralelo, como se faz esse exercício?

Questionamo-nos sobre como nos vemos daqui a cinco anos. Quando se encontra a resposta, tem que se traçar um plano para lá chegar. O que a Fujitsu pede aos seus colaboradores é que se projete num determinado período, que veja como é o seu mercado, neste caso o nacional e não o global. A Fujitsu é a única empresa que pensa de “global” e atua “local”. Verdadeiramente. Digo sempre que somos a multinacional mais portuguesa de Portugal. Na prática, o que significa? Todos os investimentos realizados no nosso mercado foram feitos pela Fujitsu Portugal. Isto é impensável numa cultura empresarial mais anglo-saxónica, onde os investimentos são pensados centralmente, onde todos atuam da mesma forma. Nós temos uma estratégia de inovação human-centric. A Fujitsu pede-nos para pensar sobre o que significará, para a sociedade e para as pessoas, quando existirem no mundo milhares de milhões de objetos conetados? A questão é: como serão tratados todos estes dados, para que seja possível devolver informação que conduza à tomada de decisões? Este é um pouco o exercício que fazemos. A Fujitsu Corporation sobreviveu ao longo dos últimos 82 anos e vai sobreviver nos próximos dez, sem dúvida nenhuma alguma.

 

Na prática, o que significa?

Todos os investimentos realizados no nosso mercado foram feitos pela Fujitsu Portugal. Isto é impensável numa cultura empresarial mais anglo-saxónica, onde os investimentos são pensados centralmente, onde todos atuam da mesma forma. Nós temos uma estratégia de inovação human-centric. A Fujitsu pede-nos para pensar sobre o que significará, para a sociedade e para as pessoas, quando existirem no mundo milhares de milhões de objetos conetados? A questão é: como serão tratados todos estes dados, para que seja possível devolver informação que conduza à tomada de decisões? Este é um pouco o exercício que fazemos. A Fujitsu Corporation sobreviveu ao longo dos últimos 82 anos e vai sobreviver nos próximos dez, sem dúvida nenhuma alguma.

 

O aumento do volume de dados levanta sérios riscos do ponto de vista da proteção da informação. Qual a estratégia da Fujitsu para a área da cibersegurança?

A Fujitsu tinha até agora quatro linhas de negócio – serviços, aplicações, infraestrutura e mainframes – e estamos de momento a criar na Europa uma quinta, precisamente de cibersegurança. Estamos a investir fortemente na criação de mais centros operacionais, os chamados SOC. Ainda não temos um em Portugal porque esta área está no nosso plano de negócio e será implementada este ano. Provavelmente, no futuro teremos cá o nosso SOC também. A cibersegurança é um pilar fortíssimo – não vale a pena pensar em IoT, em hiperconetividade, em serviços, se não pensarmos em segurança. O alicerce de todos estes sistemas é a segurança da informação. Neste momento, a nossa prioridade enquanto companhia é garantir aos nossos clientes que os dados por nós tratados são seguros.

Recomendado pelos leitores

ENTREVISTA

"O negócio da cibersegurança resulta da confiança"

LER MAIS

IT CHANNEL Nº43 Dezembro de 2017

IT CHANNEL Nº43 Dezembro de 2017

VER EDIÇÕES ANTERIORES