2016-6-23

OPINIÃO

A informação nos confins da Internet

Em quase todas as indústrias, os dados estão a ser criados onde nunca antes tinha sido. Mas os dados em si não são o problema; os dados conectados é que o são.

Estes Phocaeans foram os primeiros dos Helenos a fazer longas viagens, e foram eles que descobriram o Adrático e Tirsénia e a Ibéria e Tartessos: e fizeram viagens não em barcos redondos, mas em navios de cinquenta remos.

Heródoto, As Histórias

Milhares de milhão de dispositivos interligados capturam vastas quantidades de dados em tempo real sobre o mundo físico. Em anos recentes, a computação na cloud ofereceu às empresas uma forma poderosa de armazenar esses dados e de transformá-los em informação com valor. Mas para áreas de atividade sem um acesso fácil a conectividade de banda larga, estas capacidades estão, por vezes, fora de alcance ou têm uma latência demasiado elevada, que limita o seu uso potencial.

A Cisco e a IBM anunciaram, em junho, uma colaboração global para proporcionar capacidades de criação de conhecimento baseadas na Internet das Coisas (IoT) na periferia da rede. Empresas e organizações com operações em zonas remotas passam a poder ter acesso às capacidades analíticas da tecnologia Watson da IBM e à analítica de periferia da rede da Cisco, para melhor entender e atuar em dados críticos, num mais curto espaço de tempo. A nova aproximação está concebida para empresas que operam na periferia da rede, como plataformas petrolíferas companhias de navegação, e minas, onde o tempo de reação é muitas vezes fulcral, mas a largura de banda é escassa, num contexto que se começa a chamar “ambientes de dados híper-distribuídos.” A designação “ambientes de dados hiper-distribuídos” descreve os largos volumes de dados dentro do ambiente organizacional e a vasta gama de localizações em que os dados existem, isto é, a sua distribuição. Em quase todas as indústrias, os dados estão a ser criados onde nunca antes tinha sido. Mas os dados em si não são o problema; os dados conectados é que o são.

Torna-se cada vez mais complexo aceder a estes dados, securizá-los, obter conhecimento e torná-los passíveis de ação. Para ultrapassar estes desafios, as organizações necessitam juntar analítica de periferia à sua estratégia existente, analisando os dados mais perto da sua fonte, em vez de enviá-los para um local central para análise. Um dos casos de estudo de utilização conjunta apresentado por ambas as empresas é a da SilverHooks Powerboats, um fabricante de barcos de corrida de elevada velocidade, que se está a basear na analítica de periferia e na analítica de IoT para ajudar os pilotos a reagir imediatamente às condições do ambiente e dos motores, incluindo a necessidade de fazer “throtling” numa fração de segundo para, por exemplo, prevenir falhas nos sistemas dos barcos e otimizar o desempenho. Previamente, sem este conhecimento gerado instantaneamente a partir dos dados críticos, o resultado poderia ser desastroso.

Com base numa relação de longa data entre a IBM e a Cisco, a solução será comercializada em conjunto por ambas as empresas e incluirá as capacidades da plataforma Watson IoT e da analítica de periferia da Cisco. Isto permitirá que a analítica em tempo real seja executada na periferia da rede, e que os dados sejam recolhidos para análise posterior na cloud. Tendemos a tomar como garantida a conectividade universal, a elevada largura de banda com baixa latência disponível em qualquer ponto.

Mas se essa é uma realidade em zonas urbanas, não o é nas zonas rurais, marítimas ou florestais. Imagina-se o potencial desta vertente combinada de IoT e analítica cognitiva nas áreas da vigilância e proteção patrimonial, para não falar nas da defesa. Esta aliança é um passo importante para levar a Internet das Coisas aos pontos onde, precisamente, não existe Internet como a entendemos.

O que, em boa verdade, é a realidade na maior parte do mundo.

Henrique Carreiro é docente nas áreas de Cloud Computing e Mobilidade Empresarial na Nova Information Management School.

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