2016-5-30

OPINIÃO

A carga da brigada ligeira

Procure-se em qualquer um dos cerca de quatro milhões de telefones inteligentes que são vendidos no mundo em cada dia, por um processador da Intel: será uma demanda em vão.

O principal fornecedor de processadores para computadores pessoais e servidores está ausente — involuntariamente ausente, acrescente-se — da forma de computação mais pessoal e ubíqua da atualidade.
 
Quer no mundo iOS quer no Android, a generalidade dos telefones utiliza circuitos que se baseiam nos desenhos produzidos pela empresa britânica ARM. Ao contrário da Intel, que se assume como um fabricante com integração vertical — isto é, que domina por completo o ciclo de vida dos seus produtos, da conceção ao fabrico, a ARM licencia os seus desenhos a terceiros, que a eles acrescentam depois outras componentes específicas, sejam elas as capacidades gráficas ou os sistemas de comunicações.
 
É assim que a Apple, que tem uma extensa capacidade de projeto de circuitos integrados, utiliza uma base ARM para os seus produtos, aos quais acrescenta muita tecnologia própria. O mesmo acontece com a Qualcomm, o fabricante dos circuitos usados na maioria dos telefones atuais de topo de gama, ou a MediaTek, que assume idêntico papel para, por exemplo, as gamas médias e de entrada.
 
Face à situação do mercado não é inteiramente de estranhar que a Intel tenha decidido repensar todos os projetos que tinha em andamento na área dos “chipsets” para telefones inteligentes e tablets de baixo consumo, isto é, os baseados na sua linha Atom. Mas que deste repensar resulto e total cancelamento e saída do mercado, já é mais preocupante. Para a empresa, o realinhamento, que também implica o despedimento de cerca de onze mil funcionários, permite libertar recursos que irão trabalhar tendo em vista a próxima geração das comunicações móveis: a quinta geração ou 5G. Ora isto significa que a Intel deixa o espaço móvel inteiramente para a ARM pelo menos até 2018 que é quando se espera que comecem a ser instaladas as primeiras redes desta geração, não sendo de prever que os serviços estejam disponíveis de forma mais generalizada antes de 2020. A manter-se um ritmo próximo do atual de vendas de mil e quatrocentos milhões de telefones inteligentes por ano (isto é, mesmo que o mercado tenha um crescimento modesto) serão perto de seis mil milhões de dispositivos computacionais, cada vez mais capazes de substituir PCs, de que a Intel abdica, em quatro anos.
 
Trata-se de uma jogada arriscada, até porque, entretanto, os rivais que licenciam a propriedade intelectual da ARM não estarão parados. É difícil imaginar que em 2020 a Intel ressurgirá com tal vigor num mercado do qual esteve ausente durante quatro anos que cative nomeadamente os fabricantes asiáticos (coreanos e chineses) que cada vez mais desenvolvem também (caso da Samsung) os seus próprios “chipsets” baseados em ARM, já para não falar da Apple, que com o iPad Pro já deu sinal de que pode mesmo mudar de Intel para os seus próprios processadores em futuros Mac.
 
Os retornos, na indústria informática, não são inéditos — e disso é a Apple exemplo — mas são casos raros. Perder definitivamente a batalha da mobilidade não matará a Intel, dada a sua posição no mercado dos PC, dos servidores e da cloud. Mas corta-lhe um importante motor de crescimento. E isso, para os acionistas, é um pecado capital, de difícil redenção.
 
Henrique Carreiro é docente nas áreas de Cloud Computing e Mobilidade Empresarial na Nova Information Management School.
Contacto: quartaplataforma@outlook.com

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